domingo, 8 de abril de 2012

O CHOQUE DO REGRESSO



Ester Spencer Farmhouse – Liberal (cv), opinião

Cinquenta anos são muito tempo, mais foi precisamente durante esse período que não pus os pés na terra natal, que não pisei chão do nosso Cabo Verde. E o choque foi terrível para o bem e para o mal.

A inevitabilidade da morte, circunstância mais presente quando passamos a fronteira dos sessenta, faz-nos querer fazer em tempo relativamente curto coisas que as nossas vidas agitadas vão adiando. Foi nessa medida que programei logo no início do passado ano (independentemente do que a vida me trouxesse de imprevisível): nos primeiros três meses de 2012 regressaria a Cabo Verde. E assim o fiz. Durante as últimas duas semanas de Março tive ocasião de percorrer toda a ilha de Santiago e recordar cada lugar, cada terra por onde passara na infância, registar comparativamente o Cabo Verde de ontem e a realidade de hoje.

Sem dúvida que hoje as condições de vida dos cabo-verdianos são incomparavelmente melhores. Mas isso não poderia só por si constituir surpresa de maior. Porque em todo o mundo as condições de vida dos povos, salvo algumas excepções, também melhoraram. Faz parte da marcha incessante da Humanidade, não é nenhuma novidade.

Naturalmente que os lugarejos cresceram exponencialmente e de forma desordenada e agora chamam-se cidades. Como aconteceu com Pedra Badejo, que me fez lembrar uma imensa favela deixada no mais absoluto desleixo; ou a cidade da Praia (capital do País), um imenso sítio com a maioria das pessoas a viverem de forma miserável, sem luz nem água com fornecimento contínuo e gente pelas ruas, à vista de todos, a urinar e defecar como animais, e o triste espectáculo dos novos-ricos a passearem as potentes máquinas (muitas delas com matrículas do Estado), chocando-nos num contraste desavergonhado de ostentação de riqueza.

Foi um primeiro sinal: o que se diz de Cabo Verde por essa Europa fora não corresponde minimamente à realidade que aqui encontramos. Não há nada de exemplar na democracia cabo-verdiana. Confrontados com a realidade, o 26º lugar tão propalado pelos responsáveis políticos, mais parece uma brincadeira de mau gosto. O 10º lugar em matéria de liberdade de imprensa, mais parece um insulto à inteligência das pessoas. A imprensa, a rádio, as televisões parecem o Boletim Oficial; os colunistas dos jornais, grosso modo, dedicam-se a escrever vulgaridades, e só excepcionalmente se vê alguém com o arrojo de lavrar uma crítica ao governo; quem coloca o dedo na ferida, é logo acusado de fazer mau jornalismo; quem expõe os podres de uma classe política corrupta, é logo epitetado de caluniador e de não ter “respeito” pelos detentores de cargos públicos.

Está instalada na sociedade cabo-verdiana a cultura de submissão aos poderosos, de amorfismo cívico, de amordaçamento da intelectualidade que vive acobardada às migalhas que o poder lhe reserva. É um espectáculo triste ver este povo acomodado, tão diferente da rebeldia que desde sempre caracterizou o cabo-verdiano. O que fizeram a este povo? Os homens de Cabo Verde não têm um pingo de vergonha na cara pela sua cobardia bazofeira?

Como dizia, os contrastes chocam-nos. A riqueza de alguns, que poucos anos atrás se sabe terem andado aos caídos, só é justificável por envolvimento em negócios escuros e/ou por proximidade ao poder. Em qualquer país civilizado, as autoridades judiciais já teriam investigado essas pessoas e provavelmente algumas delas teriam sido presas. Mas em Cabo Verde, se alguém lhes aponta o dedo é logo alvo de uma horda de servis e lambe-botas, que não se indignam com a falta de luz e de água, com os salários miseráveis, com as crianças de rua e na rua, mas estão sempre prontos a defender a “honra” dos ridículos senhores do poder, acobertando as suas vigarices e as suas mentiras.

Voltarei. Desde logo, a estas páginas; dentro de meses a Cabo Verde, para ir registando e partilhando com os leitores.

ESTHER SPENCER FARMHOUSE - esterspencerfarmhouse@gmail.com

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