domingo, 15 de janeiro de 2012

Governo português, RTP e Lusa ajudam a branquear o regime de Eduardo dos Santos




Orlando Castro*, jornalista – Alto Hama*

O ministro português que, oficialmente, é Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, anunciou que a RTP África vai lançar a nova imagem em Luanda, durante a visita que está a fazer a Angola.

A visita de Miguel Relvas a Angola resulta de um "convite da ministra da Comunicação Social que tem como objectivo aprofundar as relações entre os dois países".

Na agenda está a "celebração de acordos entre a RTP e a TPA, a Lusa, onde o Estado tem a maioria, com um grupo de comunicação social em Angola, protocolos na área da formação e do estabelecimento e aprofundamento de relações".

Neste enquadramento, a RTP, particularmente a RTP África, "vai lançar a sua nova imagem em Luanda", e fará "um especial que será transmitido na RTP África, RTP Internacional e RTP1 sobre o reencontro entre Portugal e Angola na área empresarial, na área cultural e na área desportiva".

Nova imagem da RTP África para uma nova imagem de Angola. Tudo ficará na santa paz dos donos dos dois reinos. E dessas duas novas imagens não farão parte, obviamente, os seguintes factos:

- 68% de angolanos são afectados pela pobreza, a taxa de mortalidade infantil que é a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças;

- Apenas 38% da população tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico;

- Apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade;

- 12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos;

- A taxa de analfabetos é bastante elevada, especialmente entre as mulheres, uma situação é agravada pelo grande número de crianças e jovens que todos os anos ficam fora do sistema de ensino;

- 45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos;

- A dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos;

- 80% do Produto Interno Bruto angolano é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população; que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda;

- O acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

- O presidente do país, José Eduardo dos Santos, está há 32 anos no poder sem nunca ter sido eleito.

* Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.

Título anterior do autor, compilado em Página Global: SINDICATO CONTESTA ENCERRAMENTO DA “FOCUS”

Guiné-Bissau: CORPO DO PRESIDENTE DA REPÚBLICA SEPULTADO ÀS 15 HORAS




O corpo do Presidente da República da Guiné-Bissau foi sepultado às 15:30 de hoje na capital do país, pondo termo a dois dias de cerimónias fúnebres que mobilizaram milhares de guineenses.

Malam Bacai Sanhá morreu na passada segunda-feira em França mas só no sábado chegou à capital do país, ficando em câmara ardente na Assembleia Nacional até ao início da tarde de hoje.

Sem grandes manifestações de dor, de acordo com a lei islâmica, o funeral da tarde de hoje voltou a juntar milhares de pessoas pelas ruas de Bissau, da Assembleia Nacional até à fortaleza d`Amura, onde o Presidente foi sepultado.

O corpo saiu da Assembleia Nacional Popular ao início da tarde e o caixão foi depois colocado no chão, no pátio do Parlamento, onde se fez uma pequena cerimónia religiosa muçulmana, no meio de muita confusão e gritos a apelar à ordem.

Depois percorreu as ruas até Amura num carro militar em marcha lenta, ladeado de quatro polícias militares e de muitos populares ao lado e atrás, com militares e polícias, espaçados, a tentar controlar a multidão.

Na fortaleza esperavam-no já os convidados, as delegações estrangeiras, incluindo os Presidentes de Cabo Verde e do Senegal, as entidades do país de todos os quadrantes, diplomatas e representantes de organizações internacionais.

Em Amura o corpo do Presidente, agora com a população mantida fora dos portões da fortaleza atualmente Estado-Maior General das Forças Armadas, desfilou perante os três ramos das forças armadas e foi depois colocado num palanque, para receber uma última homenagem.

Deixaram-lhe flores o Presidente interino (pela lei o presidente da Assembleia Nacional Popular), a presidente do Supremo Tribunal de Justiça, o primeiro-ministro, o chefe de Estado-maior General das Forças Armadas, o Presidente de Cabo Verde, os antigos combatentes, partidos e sindicatos.

E só então a urna foi transportada para o jazigo, ao som de 21 salvas de canhão e no meio de grande confusão, pior do que a protagonizada por populares ao longo do percurso até à morada final de Malam Bacai Sanhá.

Para trás já tinham ficado as autoridades, os Presidentes, as delegações e os diplomatas. Para trás ficavam dois dias de tristeza, os milhares de pessoas entre o aeroporto e o centro da cidade no sábado e o velório na Assembleia Nacional. E ficavam também pouco mais de dois anos de mandato do Presidente Malam Bacai Sanhá.

Enquanto ao túmulo de Malam continuavam a chegar, a custo, flores, do lado de fora dos muros da fortaleza o povo começava a dispersar às primeiras salvas de canhão, o sinal de que tinha cumprido o seu dever e que o Presidente "descansava" agora.

*Foto em Lusa

Dois anos depois, haitianos enfrentam violência e falta de higiene nos campos de desabrigados




Luciana Taddeo - Enviada especial a Porto Príncipe* - Opera Mundi

Passam das 23h no horário de Porto Príncipe quando os militares brasileiros entram, armados, em um campo de desabrigados. A pé, os soldados passam pelas vielas formadas entre as barracas de lona, atentos a cada ruído. Em escuridão plena, iluminada somente pelas lanternas levadas para a patrulha, não se pode enxergar muito mais do que a passagem de pequenas sombras de ratos pelo chão.

O cheiro de urina é intenso e o percurso interminável. Alguns bancos de cimento são usados como cama por alguns desabrigados. Como em diversos pontos de Porto Príncipe, esta praça, localizada nas proximidades do Palácio Nacional, virou a moradia de milhares de haitianos após o terremoto de 7 graus na escala Richter, de 12 de janeiro de 2010, que matou mais de 300 mil pessoas e destruiu grande parte das construções da capital do país.

Dois anos depois da catástrofe, mais de 500 mil afetados pelo tremor ainda moram em barracas doadas como uma solução provisória para a situação de emergência em que ficaram os 1,5 milhão de haitianos que perderam ou tiveram que abandonar suas casas, segundo a OIM (Organização Internacional para a Migração). O Opera Mundi visitou três dos mais de 1.000 campos de desabrigados espalhados do centro de Porto Príncipe a um raio de 15 quilômetros da capital.

Marie Jana, mãe de duas pequenas haitianas, vive atualmente no maior destes campos, o Jean Marie Vincent, onde 48 mil pessoas estão acampadas em aproximadamente 1,5 quilômetros quadrados. Desde que sua casa desabou, destruindo todos os móveis, esta dona de casa tenta encontrar um emprego para poder alugar um novo lugar para morar.

Enquanto não consegue trabalho, lamenta da vida que leva há quase dois anos no Jean Marie Vincent: “Sofro muito, todos os dias, desde o terremoto. Todas as barracas têm furos, e quando chove temos muitos problemas com goteiras e inundação das barracas. Pedimos soluções, mas ninguém se responsabiliza”, diz.

Outro ponto crítico da vida no acampamento, afirma, é a violência sexual contra as mulheres. “Por sorte, meu marido só sai para trabalhar durante o dia, para trazer coisas para que possamos viver. Mas várias noites, acordei com bandidos iluminando o interior da minha barraca. Eles passam com lanternas, de uma em uma, escolhendo em qual barracas vão entrar”, conta.

“Aqui não é seguro, não. Só estou tranquilo assim por que estamos com os soldados brasileiros aqui. Mas quando os militares estão longe, há muitos problemas nestes campos”, admite Pierre Andregene, que trabalha como tradutor do Exército brasileiro.

Os fuzileiros navais responsáveis pela segurança da região onde o Jean Marie Vincent está localizado confirmaram que a violência aumentou na semana em que a reportagem esteve no campo: “No começo de novembro, cinco corpos foram encontrados neste campo”, disse o fuzileiro naval Renato Gomides. “Então solicitamos à polícia haitiana para que aumentasse a presença de agentes e começamos a fazer mais operações conjuntas com Polícia Nacional do Haiti para identificar os suspeitos."

O chefe de Relações Publicas da Polícia Civil da ONU, Raymond Lamarre, por sua vez, nega o aumento da insegurança no período. “As estatísticas de crimes nos campos de desabrigados mostram que a violência está diminuindo”, argumenta. Segundo ele, há problemas com gangues que circulam nos campos, mas a maioria dos crimes é cometida do lado de fora. “Muitas vezes os campos só são utilizados para esconder os corpos”, afirma outro fuzileiro naval.

Depois de passar pelos campos de desabrigados, os militares brasileiros passam por uma rigorosa rotina de higiene antes de entrar nas bases: limpam as botas em uma solução de cloro, lavam as mãos e terminam a esterilização com boa dose de álcool em gel. As medidas de controle sanitário impressionam quando comparadas com a situação encontrada nos campos de desabrigados, onde há uma média de uma latrina ou vaso sanitário para cada grupo de 112 pessoas e somente 18% conta com lavatórios para as mãos, segundo a Rede Haitiana de Direitos Humanos.

A organização aponta ainda que em outras regiões do país, como Petit-Goave, a situação sanitária piora: uma latrina ou vaso sanitário é usada por 141 pessoas, um chuveiro por 185 e os campos não contam com nenhum centro de saúde. Segundo os dados, somente 48% dos haitianos desabrigados pelo terremoto têm acesso à água potável, condição que explica a rápida expansão da epidemia de cólera no país, que já causou quase sete mil mortes e contaminou mais de 520 mil pessoas.

Stanley Schiveger, também desempregado, conta que foi morar em uma barraca no Jean Marie Vincent após sua casa ser destruída pelo terremoto. “Eu não tinha como continuar morando lá, então vim para o campo junto com todo mundo. Vim achando que o governo faria uma coisa para melhorar a situação de miséria das pessoas prejudicadas, sempre que me pediam para participar de alguma atividade, eu participei”, explica, queixando-se da falta de solução para os problemas do acampamento.

“Tem muita violência e lixo, e ninguém faz a limpeza dos banheiros. Para mim, o futuro das pessoas daqui está nas mãos do governo e esperamos qualquer ação para mudar esta situação. Pode ser outro lugar para morar ou um emprego”, acrescenta Schiveger.

Outro problema vivido diariamente pelos deslocados após o terremoto são as ameaças constantes de pessoas incomodadas com a presença de acampados. O dono de um campo de golfe que foi completamente tomado pelas barracas de emergência já ameaçou diversas vezes ingressar no local com um trator para desocupá-lo e os vizinhos do Jean Marie Vincent, furiosos com a falta de condições de higiene no local, ameaçam colocar fogo no campo de desabrigados, segundo relatam militares brasileiros.

Na última quinta-feira (05/01), o governo haitiano anunciou que o acampamento localizado nas proximidades do aeroporto Toussaint Louverture, em Porto Príncipe, será removido. Em uma entrevista à rádio Metrópole, o chanceler Laurent Lamothe afirmou que os desabrigados que habitavam o local desde o terremoto receberam 500 dólares para abandonar o local.

Organizações de Direitos Humanos presentes no país reprovaram a medida, que consideram insuficiente, por não resolver os problemas habitacionais dos deslocados. O chanceler, por sua vez, justificou a decisão: “É importante que o Haiti mostre outra imagem aos visitantes que cheguem ao país”, afirma, em referência à pobreza dos acampamentos que já não será vista pelos turistas que desembarquem de um avião no Haiti.

*A reportagem viajou a convite do Ministério da Defesa do Brasil.

- Galeria - Haiti: dois anos depois do terremoto (fotos por Aldo Jofre Osorio)


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“PRISÃO DE CINCO CUBANOS NOS EUA É UMA FARSA JUDICIAL”




Marco Aurélio Weissheimer - Carta Maior

O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), acaba de retornar de Cuba, país que escolheu para uma viagem de férias de dez dias. Mas a viagem foi marcada também por uma série de contatos com dirigentes políticos cubanos. Em entrevista à Carta Maior, Tarso Genro fala sobre essas conversas, analisa as mudanças políticas e econômicas em curso na ilha e manifesta solidariedade aos cinco cubanos presos nos Estados Unidos, onde investigavam a articulação de atentados terroristas contra seu país.

Porto Alegre - O governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), acaba de retornar de Cuba, país que escolheu para uma viagem de férias de dez dias - de 2 a 12 de janeiro. Mas a viagem de férias foi marcada também por uma série de contatos com dirigentes políticos cubanos. Tarso Genro pretende estreitar o relacionamento do Estado do Rio Grande do Sul com Cuba em áreas como produção de fármacos, engenharia institucional para resistência a catástrofes, produção de máquinas agrícolas e agricultura familiar.

Em entrevista à Carta Maior, o governador gaúcho fala sobre os contatos que manteve em Cuba e sobre as mudanças políticas e econômicas em curso na ilha. Tarso Genro acredita que Cuba está saindo da imobilidade que bloqueou, por largo tempo, seu sistema político e estagnou o desenvolvimento das suas forças produtivas. Ele aponta o bloqueio promovido pelos Estados Unidos como um dos principais fatores responsáveis por essa estagnação e manifesta solidariedade aos cinco cubanos presos em território norteamericano, quando investigavam atividades terroristas contra o país. As prisões, para o governador gaúcho e ex-ministro da Educação e da Justiça no governo Lula, são uma "farsa judicial."

Carta Maior: Quais foram os objetivos dessa viagem e os contatos mantidos na ilha. O governo do Rio Grande do Sul pretende estabelecer algum tipo de parceria com Cuba?

Tarso Genro: Estive em Cuba, na verdade, em férias, mas aproveitei para fazer contatos com o governo cubano e dirigentes políticos do país para informar-me sobre o estreitamento da colaboração do nosso governo estadual com Cuba , no terreno econômico, já que Cuba tem experiências que podem nos ajudar - por exemplo na produção fármacos e na engenharia institucional para resistência a catástrofes - e nós temos uma rica experiência, também como exemplo, na produção de máquinas agrícolas e na valorização da agricultura familiar.

O governo cubano, com as reformas que estão em curso, distribuiu 130 mil lotes de terra para agricultores, em usufruto, para que eles produzam alimentos e os levem ao mercado. A importação de alimentos por Cuba é um dos principais problemas para o desenvolvimento econômico da Ilha, que tem poucos recursos para investimentos em infraestrutura e logística, depois da queda da União Soviética que como se sabe proporcionava vultuosas ajudas ao povo cubano.

Carta Maior: Na sua opinião, quais são os obstáculos que ainda precisam ser superados para incrementar as relações comerciais com Cuba? O bloqueio promovido pelos EUA permanece sendo um entrave, mesmo para o Brasil?

Tarso Genro: Os governos americanos são contra qualquer ajuda e qualquer comércio com Cuba, porque ali, segundo alegam, não tem democracia. Enquanto isso negociam, o que aliás fazem muito bem, com a China e com qualquer país ditatorial da Ásia ou da África, desde que isso facilite os seus interesses comerciais e políticos, sobretudos petrolíferos. Ocupam países, inclusive, em nome destes interesses.

As ações terroristas desencadeadas contra Cuba, oriundas do território americano - feitas por exilados cubanos e cubano-americanos ligados às máfias de Miami, nas barbas das agências americanas ou até com a sua cumplicidade - constituíram um barbarismo atroz. E isso ocorreu depois do fim da “guerra fria” e depois que Cuba deixou de interferir apoiando ou estimulando ações revolucionárias na América Latina. Estabelecer relações de solidariedade com Cuba é, portanto, estimular o governo dos EUA a normalizar, também, as suas relações com aquela nação. O governo do Presidente Obama, na verdade, flexibilizou um pouco estas relações, que no governo Busch eram permanentemente agressivas e provocativas, mas ainda está longe de normalizá-las, como deveria ocorrer dentro dos mais elementares princípios do direito internacional.

Carta Maior: Para onde sinalizam, na sua opinião, as recentes mudanças anunciadas pelo governo cubano para dar um novo impulso à economia do país?

Tarso Genro: Cuba está iniciando uma transição, mas não tenho claro qual a sua profundidade e mesmo em direção a “quê”. Embora tenha tido muitos contatos institucionais com Cuba ao longo de sucessivos governos de que participei ou dirigi, seria muita arrogância da minha parte, e até uma infantilidade, fazer um “julgamento” daquele processo revolucionário, que é extremamente complexo, atípico e também “cercado” pelo bloqueio americano. Um processo que esteve permeado de erros acertos, mas que acabou devolvendo dignidade ao povo cubano e soberania política ao país. Julgá-lo negativamente seria como julgar negativamente a vitória do Norte, na Guerra da Secessão americana, por que o racismo continuou imperando no sul dos EUA até depois da metade do Século XX.

Tenho claro, porém, que Cuba está saindo da imobilidade que bloqueou, por largo tempo, seu sistema político e estagnou o desenvolvimento das suas forças produtivas. Tenho claro, também, que os democratas progressistas e a esquerda em geral devem ser solidários ao governo e ao povo cubano, nesta movimentação que estão iniciando, até porque muitas conquistas duramente obtidas neste período devem ser preservadas, como nas áreas da educação e da saúde pública,

Carta Maior: Essas mudanças podem ter algum impacto também na área dos direitos humanos, tema sensível e objeto de muitas críticas contra o governo cubano?

Tarso Genro: A questão democrática em Cuba não pode ser avaliada com os mesmos parâmetros que servem para o Brasil, para a Argentina e para o Uruguai, por exemplo. A questão dos “direitos humanos”, sim, porque estes são uma conquista supraterritorial e suprapolítca universal. Neste terreno Cuba começa a responder de uma maneira inclusive superior aos EUA, que mantém campos de tortura oficializados e não se abala com seus soldados, nas ocupações militares que faz, urinando sobre os inimigos mortos.

Cuba está libertando, seguidamente, prisioneiros políticos condenados dentro do seu regime jurídico, em nome da reinserção econômica e política plena do país, na comunidade internacional. Entendo que todos devemos apoiar estas decisões do governo cubano. A solidariedade com Cuba não exime ninguém de defender que se apliquem em todos os países - e obviamente também em Cuba - os princípios protetivos dos indivíduos e grupos sociais, atinentes aos direitos humanos. Mas isso também deve ser válido em relação aos Estados Unidos.

Os Estados Unidos mantém - depois de uma farsa judicial - cinco cubanos presos que ali estavam colhendo informações para abortar atentados terroristas contra o seu país e que causaram, em Cuba, inúmeras mortes, inclusive de turistas, como se lê no livro de Fernando Moraes ("Os últimos soldados da Guerra Fria", Companhia das Letras), recentemente publicado. Os Estados Unidos mantém, em seu território, livre, um terrrorista como Posada Carriles, cuja extradição está sendo pedida - não por ele ter participado uma luta armada contra Cuba como outros vários cubanos que estão lá “exilados” no território americano- mas por ter participado da preparação de um atentado terrorista com bombas, o que é muito diferente de ação armada direta para desestabilizar um regime. Foi um atentando com bombas contra um avião de passageiros, cubano, que vitimou 70 pessoas.

Carta Maior: Na sua opinião, como poderia ser definido hoje o regime político cubano e quais as perspectivas de mudança no curto prazo?

Tarso Genro: A questão democrática em Cuba é, efetivamente, uma questão pendente, mas deve ser lembrado que as transições democráticas que ocorreram aqui na América Latina só ocorreram promovendo um Estado de direito precário, depois um pouco mais aperfeiçoado, porque as lutas armadas contra as ditaduras, aqui, foram derrotadas. Lá a luta armada contra a ditadura de Batista foi vitoriosa. Aqui, as transições se deram com o apoio, principalmente nos seus aspectos mais precários, dos Estados Unidos que, naquela época tratava a América Latina como seu quintal político, apoiando na região todas as ditaduras mais sanguinárias e depois apoiando as transições “sob controle”. O regime cubano, portanto, formou-se no âmbito da “guerra fria”, com apoio soviético contra os Estados Unidos, que protegiam todos os regimes sanguinários da América Latina, escudados na luta contra o “comunismo”.

O “regime fechado” cubano é conseqüência, portanto, desta complexidade: um país antimperialista, que pretende promover um regime socialista, isolado inclusive dos seus antigos pilares econômicos, como era o regime soviético e assediado - mesmo depois de ter deixado de promover e apoiar ações revolucionárias na América Latina - por ações violentas e boicotes econômicos do país mais poderoso do mundo, em termos econômicos e militares.

É entendimento pessoal meu, ainda que precário, que se o Presidente Obama otimizar a “flexibilização” do boicote e permitir que haja um fluxo normal de pessoas e mercadorias para Cuba isso oxigenará a economia e a política do país. Estimulará um processo de acumulação interno, em Cuba, público e privado, que ajudará os cubanos a encontrarem o seu caminho democrático específico e também os caminhos do desenvolvimento econômico e social que, na “era soviética”, eram extremamente significativos, comparativamente aos demais países latino-americanos.

Carta Maior: Nesta sua estada em Cuba, qual foi a impressão que ficou do cotidiano do povo cubano, do ambiente social na ilha?

Tarso Genro: O que a gente percebe, ainda que de forma empírica, é que o povo cubano é um povo musical e alegre, gosta dos brasileiros em especial e dos turistas, em geral, que trazem recursos e movimentação econômica para a Ilha. Enfrenta os problemas de sobrevivência de forma digna. É um povo irônico e afetivo, inclusive em relação aos seus dirigentes. Querem, agora, mais do que uma educação de qualidade e um bom regime de saúde pública. Querem mais: melhor alimentação e mais farta; melhor transporte; também comprar o seu “carrinho”, se possível.

Querem ainda a possibilidade de melhorar a sua habitação, viajar para fora do país e compartilhar com a América Latina. A continuidade, na minha opinião, da legitimidade popular da revolução depende disso, já que outras conquistas, como não ter, na Ilha, nenhuma criança abandonada dormindo na ruas ou sem alimentação - o que é uma grande conquista humanitária- já foi absorvida como “normal” no cotidiano dos cubanos.

CUBA 2012




Mário Augusto Jakobskind* – Direto da Redação

Cuba é realmente uma caixa de surpresas. Nestes dias renovando as baterias fiquei distante cerca de 180 quilômetros do Eliakim. Eu em Havana (foto), Eliakim no sul da Flórida estávamos a 25 minutos de avião. Mas se por acaso o Eliakim quiser ir a Cuba não poderá fazê-lo desta forma, porque o governo dos Estados Unidos proíbe residentes e de nacionalidade norte-americana de viajar para Cuba. Eliakim, portanto sofreria represálias e pagaria multa. É uma das facetas do bloqueio. Barack Obama só permite que familiares visitem Cuba quantas vezes quiserem por ano e levando a quantidade de dólares que acharem necessário. O hediondo W. Bush filho tinha restringido esse deslocamento.

Cuba vive há mais de 50 anos sob um bloqueio sem precedentes na história contemporânea. Os prejuízos totalizavam 975 bilhões de dólares em fins de 2010, segundo o governo cubano. Raúl Castro, que a mídia de mercado se refere apenas como o “irmão de Fidel”, como se ele não tivesse vida própria e ocupasse o cargo de presidente em função dos laços familiares, está conduzindo o processo revolucionário cubano, que na fase atual tenta se inserir no mercado mundial. Segundo analistas, Cuba se adapta ao mundo e não como era antes, quando Cuba queria que o mundo se adaptasse a Cuba.

Independente do bloqueio de mais de 50 anos, hoje Cuba enfrenta também outro perigo, tão ruim ou pior, nas palavras do Presidente Raúl Castro, do que o criminoso bloqueio estadunidense.

Raul Castro está preocupado com a corrupção do tipo colarinho branco, que provoca grandes danos ao Estado, consequentemente ao povo cubano. Burocratas de colarinho branco agem de forma perniciosa e acumulam grana em detrimento do povo. O próprio Fidel Castro, que continua a acompanhar os acontecimentos em Cuba e no mundo com suas reflexões, mesmo não ocupando mais a Presidência, já havia advertido em discurso para estudantes em 2005 que fenômenos internos negativos ameaçam a revolução socialista cubana.

Agora, ao discursar no encerramento do VIII Período Ordinário de Sessões da Assembleia Popular, no último dia 23 de dezembro, Raul Castro foi incisivo e não deixou dúvidas ao afirmar que “estou convencido que a corrupção é hoje um dos principais inimigos da revolução, muito mais perniciosa do que a atividade subversiva e de ingerência do governo dos Estados Unidos e seus aliados dentro e fora do país”.

Nesse sentido, vale lembrar o que se passou em determinado momento no Vietnã, quando dirigentes socialistas advertiam sobre os malefícios que a corrupção provocava ao povo. Indignados com o que acontecia nessa matéria alertavam que se os vietnamitas tinham conseguido derrotar militarmente o imperialismo da potência hegemônica estadunidense, não poderiam perder a batalha contra a corrupção praticada até mesmo por alguns “companheiros” colocados em postos importantes.

No discurso de fim de ano, Raul Castro citou o exemplo das “fraudes nos produtos agropecuários nos mercados da capital, que não existiram, nem se cultivaram, gerando um desfalque de mais de 12 milhões de pesos devido à atuação de diretores, funcionários e outros trabalhadores de empresas estatais que praticam o comércio, bem como de pequenos agricultores que se prestaram como testas de ferro”. E a todos eles, acrescentou Raúl Castro, “serão exigidos responsabilidades administrativas e penais, de acordo com a gravidade dos fatos”.

Cuba, em suma, não é nenhum paraíso, como entendem os áulicos e acríticos da revolução socialista. Não é nenhum inferno como dizem os setores radicais de direita cubano-americana. É apenas um país da face da terra com qualidades e defeitos. Quando a chamada mídia de mercado ataca o regime cubano, o motivo de um modo geral é mais pelas qualidades do regime do que por seus defeitos.

A ilha caribenha tem um grande capital que nos dias de hoje vale muito mais do que qualquer cotação na bolsa de Wall Street. É a questão da segurança. Ao contrário do que acontece no México, no Brasil, na Venezuela e agora mesmo em países europeus que enfrentam grave crise, em Cuba o visitante circula com a maior tranquilidade, mesmo por ruas pouco iluminadas. Não corre riscos como nos países mencionados.

À noite, nas ruas pouco iluminadas de Havana, o visitante pode ter a certeza que nada lhe acontecerá em matéria de assalto à mão armada ou sem arma. Pode até tropeçar ou cair numa falha do asfalto imperceptível no escuro. E só. Dirigindo automóvel pode parar em sinal a qualquer hora, pois estará certo que nada lhe acontecerá. E isso hoje em dia na América Latina é de grande valor.

As reformas estão presentes e merecem análise mais aprofundada. Para muitos os resultados não tardarão. E tudo está sendo feito com a máxima cautela, para evitar que amanhã ou depois Cuba se veja atropelada pelos fatos.

Muita coisa que era proibida em décadas anteriores, hoje é absolutamente legal. Por exemplo, cubanos possuírem moedas estrangeiras e assim sucessivamente. Recentemente, o governo cubano permitiu a compra e venda de moradias e veículos. O número de trabalhadores por conta própria já supera os 350 mil, sendo que 80% deles optaram por se associarem a Central dos Trabalhadores Cubanos (CTC).

Assim, em síntese, caminha a ilha caribenha nesta nova fase de adaptação ao mundo atual. A direita golpista e terrorista em vários quadrantes continua furiosa e utilizando os valores da época da Guerra Fria quando diziam que Cuba era satélite da URSS. Como a URSS já era, a direita velhaca passou a utilizar outros adjetivos, que tentam induzir a opinião pública a repudiar o regime cubano. Querem Cuba como nos velhos tempos de prostíbulo do Caribe. Este tempo acabou em 1 de janeiro de 1959.

* É correspondente no Brasil do semanário uruguaio Brecha. Foi colaborador do Pasquim, repórter da Folha de São Paulo e editor internacional da Tribuna da Imprensa. Integra o Conselho Editorial do seminário Brasil de Fato. É autor, entre outros livros, de América que não está na mídia, Dossiê Tim Lopes - Fantástico/IBOPE

Brasil: Projeto de lei propõe que negros possam adotar sobrenomes africanos



Mariana Jungmann e Iolando Lourenço - Repórteres da Agência Brasil – Correio do Brasil

Brasília – Projeto de lei que propõe que a população negra possa incluir sobrenomes africanos além dos de família após completar 18 anos fará parte dos debates da Câmara dos Deputados no retorno dos trabalhos legislativos. Aprovado no fim do ano passado na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Casa, o projeto foi encaminhado para decisão conclusiva na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

De autoria do ex-ministro da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial deputado Edson Santos (PT-RJ) e do deputado Nelson Pelegrino (PT-BA), a proposta institui o direito dos afrodescendentes de adotar os sobrenomes africanos mesmo que não tenham origem familiar. Atualmente, a lei permite apenas que o cidadão “após ter atingido a maioridade civil poderá alterar o nome, desde que não prejudique os apelidos de família”.

O que os dois deputados querem é acrescentar um parágrafo na lei para permitir que os afrodescendentes possam ter sobrenomes africanos. Na justificativa do projeto, os dois deputados alegam que, ao longo dos anos, esses nomes foram sendo substituídos por outros de origem não africana. Com a mudança na lei, eles esperam resgatar o passado dos negros no Brasil.

“Desse modo, não só a cultura, mas, também, a própria identidade desses afrodescendentes tem sido apagada, ao longo da história. Torna-se necessário adotar mecanismos que permitam o resgate dessa identidade. Um dos aspectos mais importantes, para atingir esse fim, diz respeito à possibilidade de adoção do sobrenome original”, alegam os deputados.

O projeto recebeu parecer favorável do relator, deputado Márcio Marinho (PRB-BA), com substitutivo. O texto original previa apenas a possibilidade de alteração do sobrenome, e o relator optou por permitir o acréscimo. Desse modo, Marinho pretende preservar os sobrenomes familiares de quem optar pela mudança.

“Entendo que trocar a palavra modificar por acrescentar melhora o texto da lei, deixando mais clara a sua finalidade, até mesmo porque, segundo se depreende do contexto do projeto, a modificação a ser feita não pode prejudicar os apelidos de família”, explicou o relator em seu parecer.

Aprovado na Comissão de Direitos Humanos no fim dos trabalhos legislativos, em dezembro do ano passado, a proposta já foi enviada para a CCJ, última instância pela qual deverá passar. Caberá à comissão analisar se a proposta é constitucional, não incluindo mais nenhuma mudança de mérito no texto. Se for considerado constitucional, o projeto seguirá para o Senado.

Edição: Lílian Beraldo

Brasil: Livro de Amaury gera CPI da Privataria que mostrará “roubalheira geral"




Correio do Brasil, com Vermelho.org.br

Autor de um dos livros brasileiros mais vendidos em dezembro de 2011 e janeiro deste ano, o jornalista mineiro Amaury Ribeiro Júnior afirmou que vê com naturalidade a reação do ex-governador José Serra (PSDB) ao conteúdo de ”A Privataria Tucana”. Para ele, quando a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as privatizações promovidas durante a década de 1990 for instalada na Câmara Federal, o tucano terá revelado seu lado “autoritário” e blindado pela mídia.

“A Privataria Tucana” apresenta indícios claros, a partir de documentos públicos ou obtidos legalmente, de um esquema bilionário de fraudes no processo de privatização de estatais durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Serra, que era o ministro do Planejamento, gestor do processo, tem parentes e pessoas próximas acusadas de envolvimento com movimentações de contas em paraísos fiscais, além de operações de lavagem de dinheiro.

O jornalista acusa ainda o ex-caixa de campanha do PSDB e ex-diretor da área internacional do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira de ter atuado como “artesão” da construção de consórcios de privatização em troca de propinas.

O pedido de CPI da Privataria foi protocolado pelo deputado federal Delegado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) em dezembro, com 185 assinaturas, 14 a mais do que o mínimo exigido para abertura da comissão na Câmara. Ele obteve o compromisso do presidente da Casa, deputado Marco Maia (PT-RS) de que haveria encaminhamento da demanda em fevereiro, após o recesso parlamentar de fim de ano.

Serra chegou a chamar o livro de “lixo” e, mais recentemente, disse também que a CPI para investigar as revelações presentes no documento não passava de uma “palhaçada”. Ribeiro Júnior disse receber as manifestações sem surpresa, mas retrucou afirmando que o ex-governador é “um cara autoritário”, e que isso se deve à misteriosa blindagem que a mídia mantém em torno dele.

– Ele (Serra) está tentando me desqualificar porque não tem como explicar as coisas que estão lá (no livro), porque são inexplicáveis. Ele tenta usar outros caminhos para se defender, avalia. “Embora utilize um discurso democrático, ele não sabe tratar as pessoas, não sabe lidar com (críticas feitas por) jornalista”, criticou Ribeiro Júnior.

Ribeiro ainda enxergou com bons olhos a investigação que será realizada pela CPI, que, segundo ele, “servirá para aprofundar os trabalhos, trazer fatos novos”. O autor acredita que com uma apuração mais aprofundada, utilizando-se todos os instrumentos legais de uma CPI, muita novidade irá surgir.

– (A CPI) Vai mostrar que a coisa foi muito maior. Vai mostrar que foi uma roubalheira geral, que foi só para enriquecer pessoas mesmo, e que o patrimônio do Brasil foi dilapidado para enriquecer pessoas ligadas ao tucanato. Com certeza vai chegar a valores assustadores e nomes grandes, previu.

O jornalista também alertou para possíveis tentativas da velha mídia de tentar abafar os trabalhos da CPI. “Com certeza eles vão tentar esconder, como fizeram na época do Banestado. Eles não vão destacar porque muitos desses órgãos de comunicação se beneficiaram das privatizações.”

Mais denúncias

Ribeiro relatou que está trabalhando em três outras grandes reportagens, que podem render material para novos livros. “Esse ano ainda vou soltar outro livro, mas vamos decidir qual será a prioridade”, falou. Sem revelar os conteúdos, o autor adiantou que um deles trata das artimanhas de uma mineradora para “fraudar o pagamento de royalties.”

A FILHA DE BRAGA DE MACEDO E O NOSSO DINHEIRO




Daniel Oliveira – Expresso, opinião

Sabemos que Braga de Macedo foi ministro das Finanças de Cavaco Silva e que é militante do PSD, pelo qual foi deputado. Sabemos que foi nomeado por Passos Coelho para definir a política externa económica deste governo, à qual Paulo Portas não ligou pevide. Sabemos que depois disso foi escolhido, com Eduardo Catroga, Celeste Cardona e Paulo Teixeira Pinto, todos do PSD e do CDS, para o Conselho de Supervisão da EDP. Sabemos que é Presidente do Conselho Diretivo do Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT). Não sabemos, nem em princípio teríamos nada que saber, que tem uma filha, Ana Macedo, que é artista plástica.

Ana Macedo fez, em Julho do ano passado (só agora tive acesso a essa informação) uma exposição em Maputo. "Caras e Citações: uma interpretação estética sobre Universidade, Cultura e Desenvolvimento". A exposição teve o apoio do Instituto Camões. E, coisa rara, não foi no seu centro cultural, mas na bonita estação de caminhos-de-ferro (que tive oportunidade de conhecer) . Teve o apoio do Instituto Camões. Continuo a não ter nada para dizer. É excelente que o Instituto Camões apoie e divulgue os artistas plásticos portugueses (deixo de fora deste texto qualquer consideração sobre a qualidade da exposição, que aqui não vem ao caso, até porque só vi as fotos da dita). E o facto da artista ser filha de quem é não a deve prejudicar. Portugal é pequeno e a probabilidade de alguém ser filho de alguém com responsabilidades em alguma área não é pequena.

O problema vem depois. Além do Instituto Camões, outra instituição do Estado apoiou o acontecimento. Sim, já adivinharam: o Instituto de Investigação Científica Tropical. O mesmíssimo que o pai da artista plástica dirige. Garante um português que vive em Maputo há quinze anos e que conhece bem a vida cultural da cidade que nunca o IICT patrocinou algum acontecimento cultural em Maputo.

Alertado por este post, fui investigar a coisa. Bastaram uns telefonemas e umas buscas na Net. É tudo é feito às claras, como se se tratasse da coisa mais natural do mundo. O apoio do IICT a esta exposição e a esta artista já vem de Lisboa, com uma parceria entre a Faculdade de Letras (no âmbito do seu centenário) e este laboratório do Estado, através do seu projeto "Saber Continuar". Na altura, a artista agradeceu "por esta oportunidade de criar um projeto que se tem revelado propício à partilha de metas comuns de desenvolvimento cultural". Mas mais ainda: outra exposição Ana Macedo, em Março de 2010, agora sobre Jorge Borges de Macedo (pai do presidente e avô da artista - fica tudo em família), contou com o apoio desta instituição pública, mais uma vez no âmbito do tal projeto "Saber Continuar". E parei aqui a investigação, com a certeza que iria encontrar muito mais nesta frutuosa relação familiar com dinheiros públicos.

É natural que Braga de Macedo goste da sua filha e a tente ajudar na sua carreira. Assim fazem todos os pais. Não é natural que use os nossos recursos para o fazer. O IICT não lhe pertence nem é uma fundação ou empresa privada. É-me desconfortável falar da vida familiar de qualquer pessoa. Até porque odeio que falem da minha. Mas é quem usa o que é de todos para ajudar os seus que expõe a sua família ao escrutínio público. Faz mal duas vezes: a nós e a quem quer ajudar.

Caberá a Braga de Macedo explicar este comportamento eticamente inaceitável. Com que critérios usou dinheiros do Estado (pouco ou quase nada, tanto faz) para apoiar a carreira da sua própria filha? Como explica o mais despudorado dos nepotismo na gestão da coisa pública? E mais não digo, que começo a ficar cansado de tanto desplante.

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SINDICATO CONTESTA ENCERRAMENTO DA “FOCUS”




Orlando Castro*, jornalista – Alto Hama*

Diz o Sindicato dos Jornalistas (SJ) de Portugal que o grupo Impala pretende encerrar a revista “Focus” e levar a cabo um despedimento colectivo que pode abranger uma dezena de jornalistas e oito outros trabalhadores.

Como habitualmente só muda o nome da publicação. Tudo o resto é igual, mesmo quando os despedimentos ainda não são para encerrar o estaminé.

O SJ contesta a decisão e manifesta (não tem feito outra coisa nos últimos anos) a sua disponibilidade para negociar condições que viabilizem a manutenção das publicações e dos postos de trabalho.

Em comunicado divulgado hoje, o SJ solidariza-se com os profissionais atingidos pelas medidas anunciadas pela Empresa e reafirma a sua convicção de que, “mesmo num caso extremo de encerramento, um grupo como a Impala pode e deve recolocar os trabalhadores afectados nas suas restantes publicações”.

É o seguinte o texto, na íntegra, do Comunicado do SJ:

“1. O Sindicato dos Jornalistas está a acompanhar a situação na revista “Focus”, que a Impala decidiu encerrar e em relação à qual tenciona encetar um processo de despedimento colectivo, que poderá abranger uma dezena de jornalistas e oito outros trabalhadores.

2. Manifestando a sua solidariedade para com os profissionais atingidos pelas medidas anunciadas pela Empresa, o SJ reafirma a sua determinação em defender os direitos e interesses dos jornalistas, especialmente o direito ao trabalho.

3. Além da defesa dos postos de trabalho, o SJ considera essencial que as empresas de comunicação social preservem o mais possível as publicações, contribuindo para a manutenção e mesmo alargamento da diversidade da oferta informativa, fundamental à defesa do pluralismo.

4. Nesta conformidade, o SJ apela à Impala para que encete um verdadeiro processo de negociação, com o objectivo de manter a publicação da revista “Focus” e os postos de trabalho agora ameaçados, renunciado à solução mais fácil do encerramento e do despedimento.

5. Além do apoio directo que está a prestar aos seus associados, o SJ está disponível, como sempre esteve, para cooperar na negociação de condições que visem viabilizar a manutenção das publicações e dos postos de trabalho.

6. O SJ reafirma igualmente a sua convicção de que, mesmo num caso extremo de encerramento, um grupo como a Impala pode e deve recolocar os trabalhadores afectados nas suas restantes publicações.

7. A Direcção do SJ apela à unidade dos jornalistas ao serviço da Impala em torno do seu Sindicato, a fim de que aqueles objectivos possam ser mais facilmente atingidos.”

* Orlando Castro, jornalista angolano-português - O poder das ideias acima das ideias de poder, porque não se é Jornalista (digo eu) seis ou sete horas por dia a uns tantos euros por mês, mas sim 24 horas por dia, mesmo estando (des)empregado.


CARTA ABERTA A PASSOS COELHO ACONSELHA-O A EMIGRAR COM OS SEUS MINISTROS


Emigre você. E leve consigo os seus ministros.

Carta aberta ao sr. primeiro ministro

Exmo Senhor Primeiro Ministro

Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.

Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.

Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.

Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. "És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro." - disseram-me - "Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção". Fiquei.

Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. "Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante". Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira 'congelada'. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como "nativa". Tinha como ordenado 'fixo' 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas...

Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci - felizmente! - também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.

Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutorada e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro.

Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.

Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar...

Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor.

Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores - e cada vez mais raros - valores: um ser humano em formação.

Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações.

Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.

Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro.

E como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus.

Myriam Zaluar, 19/12/2011

*Este texto foi publicado no Facebook pela sua autora.*