quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Portugal: COSTA, O HOMEM QUE PISCA OS OLHOS A TODOS



Luís Rosa – jornal i, editorial

António Costa deve perceber que há uma diferença muito grande entre imitar o diálogo do guterrismo e formar um governo do tipo albergue espanhol, que seria sempre ingovernável

António Costa parece estar desorientado. Em menos de um ano, já o ouvimos dizer que quer a maioria absoluta em 2015, ao mesmo tempo que se mostra disponível para coligar com tudo e com todos: desde a extrema-esquerda institucionalizada (vulgo PCP e Bloco de Esquerda), passando por um novo partido que deu à costa (Livre) ou por grupos de cidadãos mediáticos muito respeitáveis (3D, Fórum Manifesto e Renovação Comunista) que agora estão juntos com o Livre na Plataforma Tempo de Avançar, e acabando em Marinho e Pinto e num governo de Bloco Central. Tudo foi admitido por Costa. Pelo meio, Costa viu Basílio Horta, eleito presidente da câmara de Sintra pelas listas do PS, a elogiar um futuro governo PS/CDS.

Recapitulemos, portanto: PCP, Bloco de Esquerda, Livre, 3D, Renovação Comunista, Marinho e Pinto, PSD e CDS. Por muito que António Costa diga que o PS é um partido que "não pisca nem à esquerda nem à direita", há uma diferença muito grande entre mostrar capacidade de diálogo e formar um governo do tipo albergue espanhol, que seria sempre ingovernável. Dito de outra forma: António Costa não pode piscar os olhos a tudo e a todos.

Deixando a ironia de parte. É muito provável que António Costa seja o próximo primeiro-ministro de Portugal depois das legislativas do próximo ano. Percebe-se que os eleitores já interiorizaram que o líder do PS "é o próximo que se segue". Essa ideia, contudo, pode ser colocada em causa com a actual estratégia de ziguezague, como a Rita Tavares bem descreve na pág. 4. Um ziguezague que, refira-se, tem uma sensação de déjà-vu. Faz lembrar os tempos gloriosos do guterrismo em que o PS negociava tudo e cedia a todos, um tempo em que o Orçamento do Estado era viabilizado à conta do queijo limiano e das greves de fome do deputado Daniel Campelo. Infelizmente, nenhum desses exemplos é um bom prenúncio para o que podemos esperar de um governo liderado por António Costa.

Costa veio ontem a público queixar-se de que foi mal interpretado nos elogios que fez a Mário Soares como líder do Bloco Central. A tentativa de desmentido acaba por ser irrelevante porque a ideia de uma aliança entre PS e PSD em 2015, na ausência de uma vitória por maioria absoluta por parte do PS, corresponde ao desejo do Presidente Cavaco Silva, de boa parte da elite empresarial do país e, direi mesmo, à expectativa geral da população.

Só há um problema: o PSD desejará apoiar um governo Costa, sabendo de antemão que a política que vai ser aplicada será necessariamente a mesma que está a ser aplicada por Passos Coelho? Não tenhamos ilusões: enquanto a Alemanha não permitir outro tipo de política, a austeridade continuará a ser o caminho. Obviamente que o primeiro-ministro António Costa chamar-lhe-á outra coisa, mas a política de contenção orçamental para diminuir o défice e reduzir a dívida pública será a mesma. Ora, uma parte importante do PSD não quer continuar a ser responsabilizado por essa política, até porque sabe que um falhanço de um novo Bloco Central pode provocar uma grave crise de regime. A ironia, voltemos a ela, é precisamente essa: o maior apoiante de um governo de bloco central poderá chamar-se Pedro Passos Coelho, caso queira continuar como líder do PSD após uma eventual derrota eleitoral.

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