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domingo, 29 de maio de 2016

A RETOMADA DO TERRITÓRIO ANGOLANO HÁ 40 ANOS – III



Martinho Júnior, Luanda 

15 – Poucos minutos depois do dispositivo instalado verifiquei a saída em marcha lenta dum camião Mercedes de cor verde escura, isolado, no percurso sinuoso à saída sul de Tomboco.

Aguardei que ele estivesse numa posição frontal e, conjuntamente com o atirador da PKT, abrimos fogo, dando abertura também ao fogo das duas secções, que além do mais utilizaram os morteiros de 60mm na profundidade e em direcção à entrada do povoado, de modo a inviabilizar qualquer tipo de socorro ao inimigo que vinha na nossa direcção.

O camião imobilizou-se e o pessoal que ia nele saltou desamparado para os lados conforme eu havia previsto; os que seguiam na cabine, deixaram as portas abertas… todos caíram nas duas linhas de fogo que batiam os lados do camião, sendo apanhados pelos nossos tiros: uns ficaram estendidos no asfalto e nas bermas da estrada, outros escaparam-se ribanceiras abaixo, internando-se na vegetação, feridos ou confundidos pela rápida surpresa com que os havíamos presenteado.

De Tomboco recebemos em resposta impactos inimigos de obuses de morteiro 60mm, mas pude verificar que os atiradores se haviam esquecido de rodar a sua cabeça para a posição de fogo… para mim foi mesmo uma sorte, por que um deles enterrou-se enviusado no terreno mole da berma, a menos de 10 metros de mim (que me encontrava fora do veículo) e do BTR-152; se tivesse explodido, causaria danos, até por que o cavado da estrada era uma espécie de caix que tornaria possível uma maior pressão da explosão, um risco a ter em conta para além dos estilhaços.

Juntei as secções e avançámos em posições de combate na direcção do camião Mercedes imobilizado uns 300 metros à frente; quando lá cheguei contei dois tiros em cada porta aberta, os quatro mortos inimigos no chão e espreitei para a carroçaria, carregada de armas, explosivos e minas, tal como aconteceu com o Unimog anterior.

O Mercedes era outra recente aquisição das Forces Armées Zairoises…

O grosso da coluna havia chegado entretanto pelo que dei ordem de regresso aos blindados a fim de progredirmos para Tomboco, enquanto uma equipa se apossava do camião-troféu.

16 – Entrámos em Tomboco abrindo fogo dos blindados em andamento, mas sem disparos dos canhões dos T-34 (para disparar o canhão os tanques tinham de parar).

Capturámos quatro Panhard AML 60 e 90 novas mas aparentemente com os motores sabotados ou avariados (teriam colocado qualquer produto no combustível?), tudo isso sem vestígios de inimigo no terreno, para além daqueles que testemunhavam as pressas de sua fuga.

No meu blindado foi ferido um combatente no pescoço com um tiro de arma ligeira que o tingiu de raspõ, pelo que decidi que fosse evacuado para a retaguarda da coluna, enquanto eu permaneci apeado fente ao edifício da administração de Tomboco, a fim de consumarmos a tomada oficial da localidade.

Foi aí que me encontrou “Alex”, claramente satisfeito com os resultados obtidos…

Tal como na Casa da Telha, distanciámo-nos 3 km a norte do povoado, onde montámos novo dispositivo de contenção e emboscada, na espectativa duma remota contra ofensiva inimiga, antes das ordens para podermos continuar na direcção de Quiende e M’Banza Congo.

O primeiro sinal de gente amiga em Tomboco foi dado por um homem de meia-idade, que se verificou ter a profissão de pintor: teve a ousadia, com um enorme lençol branco amarrado a dois paus erguidos sobre sua cabeça, de se aproximar vencendo a distância bem pelo meio da estrada onde tínhamos a emboscada montada, acabando por ser acolhido e bem recebido.

“Alex” regozijou-se: tinha de ser um pintor, ainda que um pintor de paredes, a ser o primeiro a apresentar-se às nossas forças e a identificar-se como do MPLA, mostrando um cartão que havia escondido nas suas lavras fora de Tomboco e ido buscar a fim de se apresentar!

17 – Consolidada a posição de Tomboco o comando operacional deu ordem para se continuar a avançar agora na direcção de Quiende.

A humidade e o calor iam aumentando, pelo que se aproximavam tempestades.

Recebi ordem para minha viatura se incorporar no meio da coluna, pelo que perdi a oportunidade de viver os acontecimentos na vanguarda.

A progressão foi sendo dificultada pois todas as pontes e pontões haviam sido destruídos, o que nos obrigava a explorar as margens dos pequenos cursos de água de modo a encontrar o melhor local para que os blindados e as viaturas de transporte pudessem passar.

Só o BRDM 2 era anfíbio e por isso as nossas preocupações colocavam-se na oportunidade de avançar no terreno o mais possível em direcção à fronteira.

Alcançámos Quiende onde encontrámos população que não havia abandonado a localidade.

De entre os populares identifiquei uma família luango das muitas que haviam polvilhado o caminho de sua emigração no século XIX, desde a região de origem no Congo, até aos Dembos.

Recebemos notícia que o inimigo não estava mais capacitado a combater pois encontrava-se desorganizado, com imensas deserções e abandonando as fardas e as armas onde quer que fosse.

18 – Procurámos seguir para M’Banza Congo mas num vau de curso de água maior, havia que calcetar o leito seco com pedra a fim de ganhar consistência para a travessia da coluna no vau do rio.

Trabalhou-se nisso afincadamente durante todo o dia, mas à noite um tremendo aguaceiro desabou e todo o trabalho que havíamos feito acabou por ir água abaixo, impedindo-nos de progredir.

Como as outras colunas haviam já alcançado as fronteiras, o comando operacional decidiu fazer regressar todo o efectivo da coluna na direcção do Soio.

Quando cheguei ao Soio a nossa dieta foi melhorada: havia muita conserva de frutas sul-africana abandonada pela logística dos mercenários…

A minha unidade ficou alguns dias no Soio a fim de explorar a costa e as ilhas adjacentes, onde se dizia haver baterias da FNLA.

Numa dessas explorações detectou-se e capturou-se material abandonado duma bateria que constava ter sido colocada às ordens do Comandante Barreiros.

Essas incursões foram feitas com recurso a traineiras de pesca, requisitadas aos seus proprietários para esse efeito.

Não havendo mais justificação para nossa permanência havia que regressar a Luanda, o que foi feito a bordo duma lancha de fiscalização grande, da classe Argos, a Escorpião, que os portugueses haviam deixado de oferta à Marinha de Guerra Angolana.

Foi aliás a bordo da LFG Escorpião que o Camarada Presidente Agostinho Neto deu voz à constituição da Marinha de Guerra Angolana.

Foi um retorno rápido e “em primeira classe” e postos em Luanda haveríamos de rapidamente receber novas missões, pois havia muito mais a fazer para se garantir independência e soberania, nos dez primeiros e conturbados anos…

19 – Em honra à Operação Carlota e a todo o esforço em prol do MPLA e do Movimento de Libertação em África, a 2 de Outubro de 2004 no desaparecido semanário ACTUAL, evoquei a necessidade de Cuba Revolucionária dar continuidade sobretudo no âmbito da saúde e da educação, à saga comum na perspectiva dos imensos resgates que há a realizar na longa luta contra o subdesenvolvimento que antropológica e historicamente afecta o povo angolano.

Essa cultura é para mim uma questão essencial para fazer prevalecer a lógica com sentido de vida capaz de dar oportunidade à projecção de mais felicidade, dignidade e justiça histórica em benefício dos povos dos dois continentes separados pelo Atlântico Sul.

Ao lembrar-me de como o povo angolano vivia na época do colonialismo, comparando ao modo de sua vida colectiva hoje, apesar dos impactos tão negativos dos fenómenos da globalização capitalista neoliberal e do aquecimento global conjugados, sinto-me consciente da enorme dívida que há que pagar para com África e respeito todos aqueles que com sua contribuição quantas vezes anónima, assumiram essa responsabilidade imensa, que em Angola passa outrossim pela construção da identidade nacional.

No fundo há toda uma legitimidade histórica que assiste aos esforços de várias gerações consecutivas de angolanos, legitimidade que prevalece e coloca àqueles que se propõem conjugar numa lógica com sentido de vida, na vanguarda e na pedagogia das opções possíveis, acima das alternâncias circunstanciais de ocasião, as capacidades que marcam as aspirações dum Programa Maior que confere rumo a Angola.

Fotos:
Cerimónia comemorativa dos 40 anos da Operação Carlota, em Triunvirato, Cuba, junto à estátua que simboliza a revolta dos escravos de origem africana em Cuba, ocorrida há 172 anos;
Lancha de Fiscalização Grande da classe Argos, que integrava uma pequena frota que a Marinha de Guerra Portuguesa ofereceu a Angola, antes do 25 de Novembro e numa altura em que o Presidente Agostinho Neto reconhecia que o Movimento das Forças Armadas Portuguesas, livre dos spinolistas e dos que engrossaram as fileiras do ELP, do FRA, do ESINA ou da FUA, entre outros, era de facto mais um Movimento de Libertação;
Capa do “ACTUAL” de 2 de Outubro de 2004, apelando à sensibilidade comum Angola-Cuba no sentido de dar continuidade à Operação Carlota na luta contra o subdesenvolvimento crónico que antropológica e historicamente havia prevalecido como um flagelo contínuo e penoso em prejuízo do povo angolano e dos povos de África.

A consultar de Martinho Júnior:
Operação Carlota II – A possível nova ajuda internacionalista cubana em prol da educação, formação e saúde do povo angolano – http://paginaglobal.blogspot.com/2012/02/angola-cuba-operacao-carlota-ii.html 

Consultas na Net:
Como os Estados Unidos foram derrotados na independência de Angola – http://www.verdade.co.mz/cultura/20683-como-os-eua-foram-derrotados-na-independencia-de-angola 
A derradeira tentativa – http://petrinus.com.sapo.pt/tentativa.htm
Cuba comemora 40 anos de campanha militar em Angola – http://www.africa21online.com/artigo.php?a=17341&e=Pol%C3%ADtica 
La Operación Carlota constituyó una extraordinaria hazaña de nuestro Pueblo – http://www.juventudrebelde.cu/cuba/2015-11-05/la-operacion-carlota-constituyo-una-extraordinaria-hazana-de-nuestro-pueblo-fotos/ 

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