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quarta-feira, 29 de junho de 2016

Angola. NÃO HÁ REGIME QUE CORTE A RAIZ DA NOSSA LIBERDADE



A hora é para enaltecer (festejar ainda não) a gloriosa e imortal luta dos nossos jovens activistas. Eles, como nós, como muitos outros, como cada vez mais, lutamos pela liberdade, pela democracia e por um Estado de Direito. À sombra da legítima e humana euforia, o regime aproveitou para nos enviar (se calhar aconteceu também com outros) uns tantos recados e avisos.

Orlando Castro* - Folha 8, opinião

Sim. Temos medo, senhor Presidente José Eduardo dos Santos. Mas sabemos como o combater, como o vencer. Na mesma proporção em que (usando os jovens activistas como exemplo do seu poder) o senhor aumentou o medo em Angola, nós aumentamos a nossa resistência a esse vírus canibalesco que alimenta o seu regime.

Como sempre, o regime de sua majestade o rei de Angola, José Eduardo dos Santos, não aceita que no seu reino existam pessoas que pensem de forma diferente. Não admira, por isso, que o Folha 8 esteja para o regime como o semanário francês “Charlie Hebdo” estava, em Janeiro de 2015, para os fanáticos… pouco importa se eram árabes, europeus ou africanos.

Por cá, a liberdade de expressão (quando não coincide com a verdade oficial) representa um atentado contra a segurança do Estado e as Redacções livres são um bando de malfeitores. Por cá, ou seja por Angola, todos os poderes instituídos defendem oficialmente a liberdade de expressão e de imprensa… nos outros países. A nível interno isso é uma chatice.

E por falar em jornalistas lusófonos, relembremos que o jornalista Carlos Cardoso foi assassinado, em Moçambique, no dia 22 de Novembro de 2000 porque, como Jornalista, fazia uma séria investigação à corrupção que rodeava o programa de privatizações apoiado pelo Fundo Monetário Internacional.

Para Mia Couto, “não foi apenas Carlos Cardoso que morreu. Não mataram somente um Jornalista moçambicano. Foi assassinado um homem bom, que amava a sua família e o seu país e que lutava pelos outros, os mais simples. Mas mais do que uma pessoa: morreu um pedaço do país, uma parte de todos nós”.

Embora sejam uma espécie em vias de extinção, os Jornalistas continuam (em todo o mundo) a ser uma espinha na garganta dos ditadores.

Por cá, o regime de José Eduardo dos Santos – perante a criminosa indiferença da comunidade internacional – já elaborou o seu plano e já estão contratados os assassinos, para eliminar – sem deixar rasto – os mais incómodos. Nada de cadeias, de julgamentos, de “habeas corpus”.

No Folha 8 o principal visado é, continua a ser, o nosso director, William Tonet. Razões? A palavra aos energúmenos do regime: “Pela rudeza dos escritos, no seu jornal, onde não falta a regularidade de publicação de segredos do Estado, calúnia e difamação, contra o camarada Presidente José Eduardo dos Santos, sua família e dirigentes do partido, o MPLA, e membros do governo”.

O tom ameaçador sobe sempre ao seu mais alto patamar quando algum facto ou acontecimento pode indiciar minimamente uma vitória, uma pequena vitória, do Folha 8. A gloriosa e imortal luta dos nossos jovens activistas e a vitória, embora parcelar, dos direitos humanos agora consumada trouxeram ao atrofiado cérebro do regime um, entre muitos outros de muito mais relevo, fantasma chamado Folha 8.

Segundo os recados do regime – por coincidência hoje mesmo chegaram alguns – devemos “parar de falar mal do camarada Presidente, porque é graças a ele” que nós (“cabrões de merda”, segundo o vernáculo português dos sipaios) “ainda estamos vivos”!

Carlos Cardoso, segundo Mia Couto, morreu porque “a sua aposta era mostrar que a transparência e a honestidade eram não apenas valores éticos mas a forma mais eficiente de governar”. É uma boa causa para morrer.

Carlos Cardoso morreu, “por ser puro e ter as mãos limpas”. Morreu “por ter recusado sempre as vantagens do Poder”. Morreu por ter sido, por continuar a ser, o que muito poucos conseguem: Jornalista. Está a ver senhor Presidente Eduardo dos Santos onde está a força da nossa razão?

“Liquidaram um defensor da fronteira que nos separa do crime, dos negócios sujos, dos que vendem a pátria e a consciência. Ele era um vigilante de uma coragem e inteligência raras”, afirmou Mia Couto num testemunho que deveria figurar em todos os manuais de Jornalismo, que deveria estar colocado em todas (apesar de poucas) Redacções onde se faz Jornalismo. Como se compreende, qualquer semelhança entre Jornal de Angola, TPA, RNA e Angop com Jornalismo é mera e casual coincidência.

O sentimento que nos fica é o de estarmos a ser cercados pela selvajaria, pela ausência de escrúpulos dos que enriquecem à custa de tudo e de todos. Dos que acumulam fortunas à custa da droga, do roubo, do branqueamento de dinheiro e do tráfico de armas. E o fazem, tantas vezes, sob o olhar passivo de quem devia garantir a ordem e punir a barbárie.

Por cá os algozes do regime continuam apostados em matar os mensageiros. Ainda não se convenceram que matar o mensageiro não resulta. A liberdade continua viva.

*Orlando Castro é diretor-adjunto do Folha 8

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