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sábado, 18 de junho de 2016

Portugal. ESPREITAR PELA FECHADURA



Domingos Andrade* – Jornal de Notícias, opinião

1. Não há nada mais relevante na nossa vida caseira de país do que saber as contas da Caixa Geral de Depósitos. E nada, mas absolutamente nada, justifica a ausência de explicações sobre a necessidade de o banco do Estado precisar de uma recapitalização de quatro mil milhões de euros, depois de duas injeções de capital nos últimos anos num total de 3600 milhões de euros.

Não o justifica o receio de expor as fragilidades da Caixa sob a alegação não assumida de que tal poderia provocar uma fuga de capitais, ou uma espiral sistémica. Depois do Banif e da sucessão de casos na banca portuguesa, não há muito mais para onde o capital possa fugir (leia-se pequenos aforros, porque o grande capital encontra sempre saída), nem grande risco que se corra.

Não o justifica também o silêncio até que Bruxelas aprove a recapitalização com base num plano que não conhecemos e que devemos conhecer. Ou sequer antes da "avaliação profunda" que a Comissão Europeia diz pretender promover no banco.

Mas também não vamos lá com comissões de inquérito, cujos anúncios funcionam como lama numa ventoinha, trazendo o banco estatal para o terreno da luta partidária, e que para pouco mais servem do que cultivar um voyeurismo cínico.

O que não se pode, de todo, é permitir que sob o manto do silêncio se levantem suspeições atuais e passadas sobre a Caixa Geral de Depósitos, reinando o palpite sobre o que vai acontecer, que passa invariavelmente pelo despedimento de trabalhadores, o fecho de balcões e o pânico dos pequenos clientes.

Sim, precisamos verdadeiramente de saber que atos de gestão foram praticados, em que circunstâncias e por quem. Sem culpas solteiras. Precisamos, mais uma estafada vez, de saber o que andou o regulador e as suas centenas de funcionários a fazer (sim, esse, o Banco de Portugal), se é que andou a fazer alguma coisa. E precisamos, de uma vez por todas, de pôr fim ao descalabro em dominó da banca portuguesa.

Sem um sistema bancário forte não há uma economia forte.

2. Nas imagens de sexo num jardim em Paredes de Coura não choca apenas o ato ter sido praticado sem despudor ao lado de uma criança, filha da mulher. Não, o quadro de miséria é bem mais vasto e devia tocar-nos a todos. Choca a gravação propriamente dita, espreitar pelo buraco da fechadura para depois expor ao mundo das redes sociais. E sim, foi gravado para mostrar a façanha, caso contrário teria apenas servido como prova junto de uma qualquer esquadra da PSP. Choca o convívio pacífico de toda aquela gente a assistir, porque há sempre alguém sem vergonha para ver. Choca a anomia que reina num país onde passamos a conviver pacificamente com comportamentos que em nada dignificam quem os pratica, nem quem a eles assiste impavidamente. Ah, claro, depois ficamos todos muito incomodados quando a coisa flui nos facebooks. É um zoo humano.

*Diretor-Executivo

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