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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Reino Unido. BREXIT: “SAÍMOS DE UM AVIÃO QUE SE VAI DESPENHAR. BOM VOO”



Um reformado de 78 anos que votou para o Reino Unido sair da UE e um economista de 27 que queria ficar explicam ao JN em Londres o que sucedeu.

"Não há volta. Se a decisão foi pela saída, sairemos". Glenn Jobs, 78 anos, um reformado que enriqueceu com catering, parece decalcar as palavras do primeiro-ministro David Cameron antes de cair na demissão e no referendo que ditou a extração do Reino Unido da União Europeia (52% pela saída, contra 48%; a diferença é de 1,2 milhões num eleitorado de 46 milhões).

Glenn até usou a metáfora do voo de Cameron, mas para a retorcer: "Se quisermos sair de um avião em andamento, podemos sair, mas depois não há forma de voltar a entrar", disse Cameron em campanha, frase que agora Glenn engrossa: "Mas, quem raio é que quer ir num avião que se vai despenhar? Por isso, bom voo para vocês, os da UE. Mas, se fosse eu, via já onde é que estão os paraquedas, isto é, se os houver...".

"Mas, quem raio é que quer ir num avião que se vai despenhar? Por isso, bom voo para vocês, os da UE. Mas, se fosse eu, via já onde é que estão os paraquedas, isto é, se os houver..."

Glenn, que veio para Londres das Caraíbas em 1959, aos 21 anos, e lembra-se do império de outras eras, é da faixa etária do eleitorado que mais peso imprimiu à saída (61% dos maiores de 65 anos votou "Brexit"). "Eu vi como este país dantes era melhor, antes até da adesão de 1973. Era mais fácil ter emprego, havia mais benefícios, os bancos emprestavam bom dinheiro, não se gastava tanto a assistir emigrantes que não nos trazem riqueza", diz Glenn.

A seguir desfia o que o Reino Unido vai ganhar: "Soberania, total controlo da migração, regulação económica que faça sentido para nós". E diz o que o irrita ("a eurozona é um desastre") e diz o que o fez mesmo votar para sair: "A crise financeira de 2008, que nos afundou no paquiderme da UE, e a contínua crise de refugiados da Síria, aqui tratada com excesso de liberalidade".

Glenn, que se entretinha na tarde londrina deste domingo a apostar em cavalos e no França-Irlanda ("olha, ganhei três vezes o que pus na vitória dos frogs!"), tem uma família grande de seis votantes. Diz que todos estiveram unidos no não à UE. E agora, Glenn, quem quer a governar? "Fácil: o Boris [Johnson, conservador], ele saberá defender-nos do mal da UE".

Mas eles perderam a cabeça?

"Agora vai ficar tudo mais caro! Isto é muito claro. Não sei onde é que eles tinham a cabeça", diz Luke Wright, 27 anos, financeiro na City e que sabe realmente de números.

"Ora bem, a libra já está a desvalorizar, ontem uma libra valia 1.37 dólares e 1.23 euros. Há um ano valia mais: 1.57 dólares e 1.40 euros. É a maior desvalorização desde 1980!", diz ele a consultar o iPhone. E dá exemplos: "Os ingleses que vão de férias para o vosso solarengo país, o Algarve (são os da classe operária e que ganham menos, não é?), bom, a esses agora vai ficar tudo mais caro, comida, hotéis, entretenimento, tudo, simplesmente porque a libra vai deflacionar".

Luke, que faz parte da geração que votou maioritariamente para ficar na UE (56% na faixa etária 25-49 anos; nos de 18-24 anos foi 75%), continua a informar bem: "Mas aqui os preços também vão subir: tudo o que for importado, comida, eletrónica, roupa, gasolina, vai encarecer, não só pelo embate com o dólar, mas pelas novas taxas alfandegárias que se vão criar - o aumento na gasolina vai ser já sentido porque o crude é referenciado em dólares".

No imobiliário, pode haver um efeito curioso, diz ele: "O preço das casas vai descer, algures entre 5% e 15%, pondo fim à subida contínua desde o século passado. É a única coisa boa que vejo. De resto, o céu parece-me muito carregado para nós", diz Luke que acha que quem votou para sair "não é solidário, não é global e é definitivamente racista".

E conclui a olhar para Oeste: "Isto favorece os populistas e os políticos hipócritas. Já viu que nos EUA pode ficar a mandar Donald Trump e aqui Boris Johnson, dois demagogos sem qualidades? E nem vou falar do cabelo ridículo dos dois!".

José Miguel Gaspar, em Londres – Jornal de Notícias

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