quarta-feira, 8 de junho de 2016

VENEZUELA: UM MARCO DE RESISTÊNCIA



Rui Peralta, Luanda

As grandes operações de desestabilização são antecipadas por campanhas de desinformação e manipulação, com o objectivo de descredibilizar e isolar o alvo, de modo a neutralizar a rejeição e a solidariedade face á ingerência em curso. Todas as campanhas imperialistas da actualidade começam desta forma, seja em África, seja na América Latina, seja onde for. Observemos o processo bolivariano na Venezuela, um exemplo (entre muitos outros que ocorrem em simultâneo na América Latina, Médio-Oriente e África) de agressão em curso.

A eleição de Hugo Chávez para a presidência da Venezuela em 1998 marcou o início do processo bolivariano, que promoveu grandes transformações sociais, económicas e políticas, permitindo que milhões de venezuelanos tivessem acesso á saúde, educação, habitação, cultura, melhores condições de vida, água e electricidade em todas as casas. Este processo emancipador foi desde o início desestabilizado pela oligarquia venezuelana e pelos USA, que temeram o âmbito das transformações e o alargamento deste processo na região.

Os efeitos da crise económica foram matéria de fundo. A queda do preço do petróleo – o país é exportador – associado á guerra económica lançada ao país (as associações empresarias e confederações patronais efectuaram acções de boicote), a inflação agravada (consequência, em muito, das acções de boicote económico através do açambarcamento e da especulação, impedindo o acesso a bens essenciais), conduziram às dificuldades sentidas pela população e levaram á derrota nas eleições parlamentares. A acção do governo ficou paralisada e as instituições tornaram-se disfuncionais. Em paralelo os USA decretaram, em 2015, que a Venezuela constituía uma ameaça para a sua segurança na região e tentaram pressionar a Organização dos Estados Americanos (OEA) a isolar o país.

Foi promovida a criação de uma situação caótica. A desconfiança, o temor e a insegurança instalaram-se na sociedade venezuelana. O apelo feito nos USA pelo ex-presidente da Colômbia (um homem com ligações ao narcotráfico e aos grupos paramilitares da extrema-direita colombiana), Álvaro Uribe, a uma intervenção militar na Venezuela, a bem orquestrada campanha de desestabilização e de manipulação efectuada nos oligopólios da comunicação social internacional contra a Venezuela, inserem-se nas ofensivas que as oligarquias nacionais, com o apoio dos USA, têm efectuado contra os processos progressistas na América Latina.

Compreender o que está em causa na América Latina é essencial para África. Os processos de destruturação em curso no continente africano necessitam de respostas soberanas e solidárias. Muito do que se passou na Venezuela, em termos de campanha de desestabilização, manipulação da informação, passa-se em África. Observem-se os constantes planos de desestabilização na RDC, na região dos Grandes Lagos, em Angola, Moçambique, Zimbabwe, as tragédias somalis e líbias, a Nigéria e muito mais. Seria uma lista extensa que cobre o continente de Norte a Sul e do Atlântico ao Indico. Repare-se, com atenção, nas constantes campanhas lançadas contra Angola, que a propósito recebeu um pedido de ajuda da Venezuela para reorganizar a produção artesanal diamantífera venezuelana e nos processos de identificação de novas reservas diamantíferas, além do papel desempenhado por Angola para que a Venezuela deixasse de estar sujeita às sanções impostas no Processo Kimberley.

Compreender o que está em causa na Venezuela, assim como o que está em causa nos processos soberanos que decorrem na América Latina e em África, assim como desmascarar as campanhas de desestabilização e de ingerência nos assuntos internos é um factor central da luta pelo desenvolvimento e pela emancipação dos povos na busca de um mundo melhor. 

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