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sábado, 9 de julho de 2016

AS PORTAS GIRATÓRIAS



Pedro Ivo Carvalho – Jornal de Notícias, opinião

A expressão soa melhor no original, em inglês: "Revolving doors". É de portas giratórias que falamos quando falamos do fabuloso destino profissional de Durão Barroso, escolhido para ser o presidente não executivo da Goldman Sachs, o "banco do Mundo". É de portas giratórias que falamos quando queremos identificar os caminhos seguidos por uma bem urdida teia que funde interesses corporativos com agendas políticas. O "banco do Mundo" para onde agora vai Durão Barroso, ou "a firma", como também é desdenhosamente apelidado, tem, entre outras medalhas na lapela, a responsabilidade de ter ajudado a maquilhar, durante anos, as contas públicas da Grécia. Quando a coisa correu mal, Atenas caiu do Olimpo com o estrondo conhecido.

A contratação do ex-presidente da Comissão Europeia e ex-primeiro-ministro de Portugal só pode deixar boquiabertos os distraídos ou os ingénuos. No final do ano passado, o "Corporate Europe Observatory", uma organização sem fins lucrativos que se dedica à denúncia e divulgação de más práticas lobistas em Bruxelas, publicou uma investigação interessante: depois de abandonar funções, Durão Barroso assumiu um papel mais ou menos ativo em 22 organizações diferentes. E nove dos 26 comissários da segunda Comissão Barroso que haviam deixado o cargo em 2014 passaram pelas tais portas giratórias em direção a corporações com links a grandes interesses económicos. No aparentemente entediante mundo de Bruxelas, gere-se poder e criam-se leis e regulamentos que afetam 500 milhões de pessoas, vulgo clientes.

Todos temos direito a alimentar ambições profissionais, e a classe política não deve ser impedida de ter um emprego uma vez fora do seu habitat natural. Mas há casos gritantes como este de Durão Barroso, em que só nos é dada a oportunidade de termos futuro porque tivemos um determinado passado.

Não deixa, igualmente, de ser irónico que o mandato do ex-primeiro-ministro português na presidência da União Europeia tenha coincidido com os anos negros da economia no Velho Continente e que tenha sido precisamente um dos rostos mais diabólicos do conjunto dos predadores financeiros que arrastaram países para o fundo a escolhê-lo como empregador.

A ironia (leia-se descaramento) consegue ser tão refinada, que essa mesma Europa deambulante pós-Barroso que mobilizou a saída do Reino Unido esteja agora na base dos motivos invocados pelo gigante Goldman Sachs para recorrer aos serviços de Durão: "mitigar os efeitos negativos" do Brexit.

As portas giratórias são um mistério da carpintaria. Não fecham. Só abrem.

Editor-executivo-adjunto

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