quinta-feira, 8 de setembro de 2016

GEOPOLÍTICA: NO G20, A ALTERNATIVA DA CHINA




Em contraste à desigualdade, estagnação e ataque aos direitos sociais no Ocidente, Pequim apresenta seu projeto para integrar a Eurásia e desafiar poder de Washington

Pepe Escobar - Outras Palavras

Ministros de Comércio do G20 já concordaram com determinar nove princípios centrais para o investimento global. Na reunião, a China pressionou para que os mercados emergentes tenham voz mais ativa no sistema de Bretton Woods. Mas acima de tudo e principalmente, a China buscará maior apoio do G20 para as suas Novas Rotas da Seda, bem como para o Novo Banco Asiático de Infraestrutura e Investimento.

Assim sendo, no coração do G20 tivemos  os dois projetos que competem, na linha de frente, para modelar geopoliticamente o jovem século 21.

A China traz as Novas Rotas da Seda, um espetacular quadro de conectividade paneurasiana, projetado para configurar uma enorme área de comércio que será, no mínimo, dezvezes maior que o mercado norte-americano, no prazo de duas décadas.

A hiperpotência EUA – não o Ocidente Atlanticista, porque a Europa está afogada em estagnação e medo – “propõe” o status quo neoconservador/neoliberal atual; as velhas táticas de Dividir para Governar (e um governo golpista e horrorosamente incompetente, mal educado, mal formado, mal instruído e mal informado, como o governo golpista que a CIA acaba de implantar no Brasil); e o primado do medo, consagrado na longa lista de “ameaças” que o Pentágono vive a repetir que têm de ser combatidas, de Rússia e China ao Irã.

O rugido geopolítico que se ouve nos bastidores da selva high-tech tem a ver com “conter” os dois principais membros do G20, Rússia e China. Não é preciso ser oráculo para adivinhar qual dos dois projetos mais intriga – e em vários sentidos atrai perigosamente – o sul global, além de várias outras nações que integram o G20.

Naquele frenesi de conectividade que funde o Ocidente e a Ásia, vê-se em qualquer bom mapa e em quase incontáveis formas, o contraste flagrante entre a paralisia e a paranoia, de um lado e, de outro, um projeto imensamente ambicioso de US$ 1,4 trilhões que conecta potencialmente 64 países, nada menos de 4,4 bilhões de pessoas e cerca de 40% da economia global, e que, dentre outros feitos, cria horizontes comerciais “inovadores, revigorados, interconectados e inclusivos” e, pode-se dizer, instala uma era geopolítica de ganha-ganha.

Um conjunto de mecanismos financeiros já está implantado. O Banco de Integração Asiática, que começa com fundo de US$100 bilhões e avançará muito além disso); o Fundo da Rota da Seda (US$ 40 bilhões já integralizados); o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (NBD), inicialmente com US$100 bilhões; mais vários atores dentre os quais o Banco de Desenvolvimento da China e o China Merchants Holdings International, com sede em Hong Kong.

As empresas e fundos estatais chineses estão incansavelmente comprando portos e empresas de tecnologia na Europa Ocidental – da Grécia ao Reino Unido. Trens de carga viajam agora de Zhejiang a Teerã em 14 dias, através do Cazaquistão e do Turcomenistão. Em breve, tudo isso será integrado a uma ferrovia trans-eurasiana de trens de alta velocidade, incluindo uma Transiberiana de alta velocidade.

O Corredor Econômico China-Paquistão [ing. China-Pakistan Economic Corridor, CPEC], de US$ 46 bilhões, tem potencial para desbloquear vastas áreas do Sul da Ásia, com Gwadar, operado pela empresa de portos chineses no ultramar (China Overseas Port Holdings), destinado a tornar-se entroncamento naval chave para as Novas Rotas da Seda.

Portos de águas profundas serão construídos em Kyaukphyu em Myanmar; na ilha Sonadia em Bangladesh; em Hambantota no Sri Lanka. Acrescentem-se a esses portos o Parque Industrial China-Belarus e 33 acordos no Cazaquistão, que cobrem tudo, de mineração e engenharia a petróleo e gás. Em fevereiro passado, PricewaterhouseCoopers já detalhava US$ 250 bilhões em projetos das Novas Rotas da Seda (OBOR) já construídos, recentemente iniciados ou já com contratos assinados. Vasta rede de projetos das Novas Rotas da Seda já alinhavam firmemente entre elas várias áreas da Eurásia, com corredores tecidos em rede entre Oriente e Ocidente e norte e sul, que ligam várias zonas econômicas; há um frenesi de expansão da infraestrutura e de interconectividade entre Rússia, China, Índia, Paquistão, Irã, Ásia do Sul e Central.

A conectividade hoje, mais que geografia, é destino. Não é acaso que parte tão significativa da movimentação aconteça entre estados-membros ou observadores da Organização de Cooperação de Xangai (OCX). As Novas Rotas da Seda têm tudo a ver com reprogramar a OCX para convertê-la num guarda-chuva de cooperação econômica e de segurança. Paralelamente, a Rússia, com a progressiva coordenação entre a União Econômica Eurasiana (UEA) e as Novas Rotas da Seda, projeta a parceria estratégica Rússia-China para além da conectividade estratégica, diretamente para a Europa.

Daí que aqueles Códigos para Encontros não Planejados no Mar [ing.Code for Unplanned Encounters at Sea (CUES)] CUES – para a Rota da Seda Marítima – sejam nó crucial no Novo Jogo da Conectividade na Eurásia. O que nos traz de volta à alegada ilegalidade do que a China entende que seja direito seu dentro do círculo dos “nove traços”, área sobre a qual os chineses reclamam a soberania. EUA e Filipinas têm tratado de defesa mútua desde 1951, pelo qual “territórios de ilhas sob a jurisdição [de Manila] devem também ser defendidos.

Washington, numa potencial presidência de Hillary Clinton –, com Kurt Campbell, que inventou o conceito de “pivô para a Ásia”, como possível secretário de Estado – pode ser tentada a declarar que aquele tratado aplica-se a ilhas de alto mar, atóis, “rochedos” e até ‘afloramentos’ de pedras como Scarborough Shoal.

Pequim não esperará para ser apanhado nessa possível armadilha. Em recente reunião realizada no interior da Mongólia, China e a Asean decidiram criam uma linha diplomática de contato rápido e eventualmente adotar um Código para Encontros não Planejados no Mar [ing. CUES].

A ASEAN e potências do leste da Ásia, enquanto isso, continuam a avaliar as vantagens da Parceria Econômica Regional Ampla [ing.Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP)] – 16 nações, 29% do comércio global – como alternativa à Parceria Trans-Pacífico inventada e empurrada por empresas norte-americanas, uma espécie de ‘OTAN comercial’ que exclui a China.

A China está hiperativa em todos os fronts. Estimulará que se aproveite o know how de Cingapura, para fazer avançar projetos das Novas Rotas da Seda. Cingapura, com 75% da população constituída de chineses étnicos, é o maior investidor externo com que a China conta, e grande entreposto fora da China para comércio em yuans. Mais de 20% do PIB de Cingapura é ligado à China.

Ao mesmo tempo, planejando para uma Síria pós-guerra, Pequim está comprometida com fazer avançar a cooperação comercial e econômica com Damasco, outro importante entreposto do projeto Novas Rotas da Seda. E ok se a parceria com Damasco seja também uma espécie de resposta assimétrica à interferência do Pentágono no Mar do Sul da China e à instalação do sistema THAAD na Coreia do Sul. Pequim deixou claro que o Mar do Sul da China não seria discutido no G20.

E o presidente filipino Rodrigo Duterte por sua vez insistiu que “Não estamos correndo para guerra alguma, só temos pressa para começar a conversar”.

O xis da questão no Mar do Sul da China conectado aos projetos das Novas Rotas da Seda não é soberania sobre “rochedos” nem reservas não exploradas de petróleo e gás. As coisas ali só têm a ver com a capacidade da marinha chinesa para controlar e, sendo o caso, negar “acesso” ao Pentágono e à Marinha dos EUA.

Certo é que a marinha dos EUA não economizará e não deixará testemunhas vivas, para impedir que a China alcance domínio estratégico no Pacífico Ocidental; e Washington fará o mesmo, na luta para conseguir que alguma Parceria Trans-Pacífico o mesmo Pacífico Asiático. O ensinamento de Deng Xiaoping – “não assuma a liderança, não revele sua real força, não superdistenda suas próprias capacidades” – agora é passado.

No G20, a China mais uma vez está anunciando que, sim, está assumindo a liderança. E não só assumindo a liderança – como, além disso, já planejando superdistender as próprias habilidades, para fazer funcionar seu super ambicioso plano máster de “Um Cinturão, Uma Estrada”. Podem ver como exercício-monstro de Relações Públicas, ou jogada ganha-ganha de soft power.

Tudo que o Sul Global – e o G20, para falar dele – têm de não esquecer é que o imperialismo humanitário incorporado no Pentágono considera a China uma “grave ameaça”.

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