quinta-feira, 3 de novembro de 2016

UE. Comissão de ética. ALGO ESTÁ PODRE NO REINO DA… UNIÃO EUROPEIA




Apesar da imagem do executivo comunitário ficar, uma vez mais, abalada, podemos já apostar que Juncker não tem qualquer intenção de contrariar a chanceler

Entre um comissário europeu, o alemão Günther Oettinger, que profere declarações racistas que roçam a homofobia e que desdenham a democracia, e uma «comissão de ética» que considera que o ex-presidente da Comissão, José Manuel Durão Barroso, não violou o seu dever «de integridade e de reserva» ao deixar-se contratar pelo banco de negócios americano, Goldman Sachs, a imagem do executivo comunitário fica, uma vez mais, abalada.

Günther Oettinger

O democrata cristão Oettinger, que governava Bade-Würtemberg (estado federal do sudoeste da Alemanha), foi enviado para Bruxelas em 2009 pela Chanceler Angela Merkel que pretendia afastá-lo, denunciou-se, na noite desta quarta-feira, em Hamburgo, perante uma assembleia de dirigentes de empresas.

Chineses: “astutos dissimulados” e “olhos em bico”

As suas declarações, que foram parcialmente filmadas, foram reveladas pelo semanário Der Spiegel. Classificando os Chineses como “astutos dissimulados” e “olhos em bico” (” Schlitzohren und Schlitzaugen”), o comissário afirmou que, aquando da cimeira UE-China, encontrou uma delegação de «homens novos» («do mesmo partido, sem democracia») e que, «da esquerda à direita, estavam  todos “penteados” com graxa preta»…

De seguida, mostrou-se indignado por se poder lançar para a reforma mães de família e se aceitar o casamento homossexual que será «em breve, imposto» na Alemanha.

Valónia: “micro-região gerida por comunistas”

Ou seja, segundo o testemunho de Frank Compernolle, adido comercial da Valónia em Bruxelas, ele atacou a Valónia, «uma micro-região gerida por comunistas, que iria bloquear toda a Europa» ao impedir a assinatura do CETA, o que «não é tolerável». Compernolle levantou-se e abandonou a sala, tal como o cônsul honorário da Bélgica. Tiradas populistas dignas de um Donald Trump que puseram em alvoroço uma parte da classe política alemã e da Valónia.

Também Katherina Barley, a secretária geral do SPD, afirmou que «quem espalha abertamente opiniões racistas e homofóbicas deixa de estar qualificado para altas funções políticas». O porta-voz de Paul Magnette, o ministro-presidente valão, considerou que «estas declarações escandalosas são a prova de um total desprezo pela nossa região, pelos seus representantes, cidadãos e sociedade civil que se mobilizaram». Esta iniciativa democrática deveria ser encorajada em vez de ser «desprezada ou caluniada».

 «Um pouco de coragem» a Juncker

O presidente do CdH, o partido centrista francófono, Benoit Lutgen, pede a Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão, que tenha «um pouco de coragem» e «que demita Günther Oettinger».

O grupo socialista do Parlamento Europeu denuncia:

«as declarações notoriamente racistas e homofóbicas ou estigmatizantes em relação à Valónia por parte do comissário Oettinger (…). Antes mesmo destas intoleráveis declarações, a sua promoção ao cargo de vice-presidente da Comissão Europeia, com alargamento das suas responsabilidades, já causava problemas. Isto significa que a nossa posição é clara : exigimos que a sra. Merkel e o sr. Juncker assumam as suas responsabilidades. A União Europeia não pode tolerar que um dos seus representantes em exercício profira tais declarações abjectas e ultrajantes».

O grupo liberal, pela voz da deputada holandesa, Sophie In’t Velt, partilha esta posição:
«A Comissão, enquanto guardiã dos tratados, deve dar o exemplo, sobretudo num momento em que a confiança nas instituições é débil. Discursos pouco dignos, racistas, sexistas ou homofóbicos são inaceitáveis por parte de um comissário europeu».

Oettinger e a Comissão Barroso

De referir que esta não foi uma estreia de Oettinger. Em Setembro de 2011,em plena crise grega, o então responsável pela energia na Comissão Barroso propôs «colocar a meia haste, nos edifícios da União Europeia, as bandeiras dos incumpridores em matéria de deficit, o que certamente constituiria um símbolo, mas que teria um efeito dissuasor»… Atenas tê-lo-ia apreciado, sem dúvida…

Conselho de especialista!

Depois, em Setembro de 2014, espalhou a consternação entre os deputados europeus, aquando da sua audição de confirmação como comissário responsável pela economia digital, revelando a dimensão da sua ignorância no domínio que iria gerir: «Com a tecnologia, não poderão excluir todos os riscos. Vou dar-vos um exemplo que poderá parecer um pouco, hum… indignificante. Recentemente, numerosas celebridades queixaram-se de que fotos suas, onde estão despidas, foram colocadas na Internet. Nem quis acreditar! Se uma celebridade é tão estúpida que se deixa fotografar despida e envia a foto para a web, não pode esperar que a protejamos. Não podemos proteger as pessoas das suas asneiras».

Uma tirada que não impediu a sua nomeação para o Parlamento já que se trata de um amigo político da chanceler.

Jean-Claude Juncker irá tomar medidas severas após a saída “hamburguesa” do seu comissário, que pretendia nomear vice-presidente titular do orçamento e da administração, após a saída anunciada da comissária búlgara para o Banco Mundial ? É caso para duvidar quando assistimos às suas hesitações face ao drible que o seu antecessor fez à Europa ao ser contratado pela Goldman Sachs, um banco de negócios que teve um importante papel na crise dos subprimes e na crise grega.

Demasiado humano, Juncker hesitou em condená-lo, embora politicamente isso o beneficiasse, pois a esposa de Barroso acabara de falecer, vítima de cancro (o que, de passagem, não impediu Barroso de negociar o seu contrato). E não será o parecer da «comissão de ética» que o fará endurecer o tom. Composto por um antigo juiz holandês no Tribunal Europeu, um antigo director-geral austríaco da Comissão e uma antiga deputada europeia alemã, a comissão declarou que Barroso não violou as regras «de integridade e de reserva» impostas pelos tratados e pelo código de conduta interna, mesmo que «estivesse consciente e informado que, agindo assim, despoletaria críticas e destruiria a reputação da Comissão e da União em geral» e que, «não deu provas do bom comportamento que seria de esperar por parte de alguém que ocupou um cargo de alta responsabilidade durante tantos anos».

Integridade e reserva

Assim, perguntamos: em que condições pode um comissário violar as regras «de integridade e de reserva», uma questão que se coloca também a Oettinger que se encontra ainda em funções. Caso os exemplos de antigos responsáveis políticos se reconvertessem em actividades privadas lucrativas nos estados-membro, seria raro que um ministro de um país-membro sobrevivesse a declarações como as do comissário para a economia digital.

No entanto, podemos já apostar que permanecerá em funções: Juncker não tem qualquer intenção de contrariar a chanceler. E o Parlamento Europeu, que poderia obrigá-lo a demitir-se, está totalmente dominado pela Alemanha. E não seria bom para a imagem da Europa.

Jornal Tornado - Fonte: Libération

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