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sábado, 3 de dezembro de 2016

Brasil. LILA RIPOLL (1905-1967): A VOZ DOS EXCLUÍDOS




Quaraí de outros tempos,
Portal da minha infância !   (Quaraí – Lila Ripoll) 

Neste ano de 2016, no mês de agosto, completaram-se os 111 anos do nascimento de uma grande intelectual e expressiva figura humana. Entre tantas gaúchas que, desde o século XIX, despontaram no campo literário, Lila Ripoll se destacou, com maestria, como poetisa, jornalista, pianista, professora, além de ter realizado importante trabalho no campo político, sendo uma presença marcante no Partido Comunista brasileiro (PCB).

Nascida na cidade de Quaraí, no Rio Grande do Sul , em 12 de agosto de 1905, Lila era filha do casal Florentino Ripoll e Dora Pinto de Ripoll.  A origem da sua família está ligada a um antepassado espanhol , nascido  na cidade de  Ripoll,  que veio para a América.

Ao atingir a idade de oito anos, nossa poetisa iniciou, com dedicação absoluta, seus estudos de piano. Sonhando em ser concertista, de acordo com o livro “Lila Ripoll / Obra completa”, de Alice Campos Moreira, Lila Ripoll , em sua adolescência, passou a dar aulas de piano em Quaraí (RS).

 A família se muda para Porto Alegre

Diante dos seus pendores artísticos, em 1927, ou segundo outras fontes, em 1928, o casal se mudou para Porto Alegre, visando a viabilizar o aprimoramento intelectual de sua única filha. Já nesse período, Lila compartilha a companhia de seu primo Waldemar que havia sido adotado por seus pais.

O Magistério

Ao encerrar os seus estudos no Conservatório de Música, na Escola de Belas Artes da UFRGS, ela não conseguiu dar continuidade à sua vida acadêmica, no Rio de Janeiro, devido a problemas de ordem financeira. Ainda como estudante da UFRGS, colaborou na Revista Universitária.  O caminho que se descortinou, após concluir o curso superior, foi o ingresso no magistério.  Em 1930, ela começou a lecionar, na Escola Estadual Venezuela, em seu Coro Orfeônico. Esta atividade foi exercida, por Lila Ripoll, com extrema paixão e dedicação sacerdotal.

Seu primo Waldemar da Silva Ripoll (1906- 1934) estudou na Escola Militar de Porto Alegre e formou-se, em Direito, no ano de 1930. Atuante nos processos políticos, ele participou da Revolução de 30, que colocou o gaúcho Getúlio Vargas (1882-1954) no poder. Adepto do Partido Libertador (PL), o jovem Waldemar acabou divergindo da política centralizadora do presidente Vargas e apoiou o levante paulista de 1932, que exigia uma nova Constituição e a indicação de um paulista para governar o Estado de São Paulo.  

O assassinato que mudou a vida de Lila Ripoll

O posicionamento político, de seu primo e irmão adotivo, desagradou o poder constituído, naquele momento, resultando na prisão do mesmo e exílio, em Portugal. Ao retornar para o Brasil, Waldemar Ripoll passou a viver na zona de fronteira com o Uruguai, defendendo a luta armada. Assumindo, às claras, sua simpatia pelas ideias comunistas, no dia 31 de janeiro de 1934, ele foi assassinado a machadadas enquanto dormia. Segundo o pesquisador e especialista em imprensa operária, João Batista Marçal, esse crime fora encomendado por figuras ligadas a Flores da Cunha (1880-1959). Este fato abalaria profundamente a nossa poetisa, resultando em sua adesão incondicional ao Partido Comunista Brasileiro. A partir daquele momento, um novo caminho marcado por preocupações e engajamentos de cunho sociopolítico passou a ser trilhado por Lila Ripoll.

O Partido Comunista Brasileiro (PCB)

Lila Ripoll se filiou ao Partido Comunista num momento bastante delicado, pois o Partido não era reconhecido. Sobrevivendo na clandestinidade, havia a perseguição política e a rejeição  por parte da ala conservadora da Igreja Católica.  Nossa poetisa admirava Luiz Carlos Prestes (1898-1990) e intensificou, em 1935, ano da Aliança Libertadora Nacional, a ação do “Cavaleiro da Esperança” junto à Frente Intelectual do Partido Comunista.

Como professora, ela atuou no Departamento Cultural do Sindicato dos Metalúrgicos (1935-1939), ministrando aulas de música e literatura, além de realizar espetáculos teatrais e fundar o Coral dos Metalúrgicos. Ao lado de Delmar Mancuso, montou a peça “Orfeu da Conceição” de Vinícius de Moraes (1913-1980) e também criou o Grupo de Arte que era voltado ao teatro.

Nossa poetisa e jornalista pertenceu à geração de 30, que era composta por nomes importantes do cenário literário do Rio Grande Sul, a exemplo de Dyonélio Machado (1895-1985) Reynaldo Moura (1900-1965), Manoelito de Ornellas (1903-1969), Cyro Martins (1908- 1995), Carlos Reverbel (1912-1997) , Athos Damasceno (1912-1975), Mário Quintana (1906-1994) entre outros nomes importantes.

A poetisa e seus três primeiros livros

No ano de 1938, Lila Ripoll lançou seu primeiro livro “De mãos postas“, no qual está presente a dor e a saudade do seu primo e irmão adotivo que foi brutalmente assassinado.  Nesta obra, composta por 24 poemas, as questões sociais e libertárias ainda não estavam presentes com a intensidade que, ao longo do tempo, far-se-ão no conjunto da sua obra.

 “De mãos postas” nos revela uma poetisa que maneja com intensidade as palavras carregadas de musicalidade, intensa emoção  e rara sensibilidade. O Correio do Povo registrou o lançamento dessa obra, em 07 de agosto de 1938, na sessão “Livros Novos” e o Diário de Notícias (1925-1979) declarou: “Uma das mais vivas e sutis expressões da poesia feminina do Brasil”. Já no Jornal do Brasil (1891-2010), do Rio de Janeiro, o jornalista e crítico Múcio Carneiro leão (1898-1969) afirmou acerca de Lila Ripoll : “tornou-se, desde sua estréia, a grande voz poética da mulher gaúcha”.

   O poema “Vim ao mundo em agosto”, extraído do livro “De mãos postas (1938)”, p. 29, é bastante representativo, pois traz à tona o sentimento de tristeza, que acompanha a poetisa desde o seu nascimento. Segue a primeira estrofe:

Sou triste de nascença e sem remédio.
Vim ao mundo no triste mês de agosto
o mês fatal das chuvas e do tédio,
e nasci quando o sol estava posto.
Vim ao mundo chorando... (o meu presságio!)
Um vento mau marcava na vidraça
O plangente compasso de um adágio,
Anunciando agoirento uma desgraça.  (...).

Ao analisarmos a poesia acima, podemos concluir que o sujeito mulher se sente sufocado pela sua condição, ao afirmar que carrega consigo a tristeza acerca de seu nascimento. Essa atitude parece se alinhar com a época em que Lila Ripoll escreveu o poema, haja vista que apenas uma minoria de mulheres haviam conquistado a sua independência profissional e econômica.

De acordo com Bordini, nas primeiras décadas do século XX, quando não tinham a possibilidade de sobreviver, por meio do casamento, as moças da pequena burguesia saíam do interior do estado, em direção a capital gaúcha, para completar sua educação, visando à profissionalização. Assim ocorreu com a poetisa Lila Ripoll, que saiu de Quaraí (RS), em 1927, para desenvolver seus estudos de piano na capital (1987, p. 20).
  
Na realidade, essa não era a condição da maioria das mulheres da época que, em geral, ainda dependiam, exclusivamente, do casamento, não tendo nenhuma perspectiva de se profissionalizar. Poucas eram as mulheres, até a primeira metade do século XX, no Rio Grande do Sul, que tiveram a possibilidade e o caráter ousado de Lila em atuar na esfera pública, território então ocupado de forma ostensiva pelo sexo masculino.

https://ssl.gstatic.com/ui/v1/icons/mail/images/cleardot.gifO seu segundo livro, “Céu vazio”, publicado, em julho de 1943, ela dedicou “in memoriam” ao seu pai e também aos amigos. A obra mereceu o registro de Cyro Martins (1908-1995) na importante Revista do Globo (1929-1967), nº 300, p.16.  Segue um breve trecho:

“... Não há lugar para o artifício na poesia de Lila Ripoll, porque toda ela está tomada das refrações da alma (...). Todo o livro é um pronunciamento de si mesma, porém diluído no sortilégio das líricas alusões ao inacessível.”

A imprensa da época

O Diário de Notícias (1925-1979) de Porto Alegre, em 20 de julho de 1943 , comentou acerca da homenagem que a Associação Riograndense de Imprensa (ARI) prestaria à Lila Ripoll no dia 24 de julho daquele ano.  A ARI, com esta iniciativa, reconhecia, publicamente, o talento  da nossa poetisa, que, aliás, era jornalista. Graças à obra “Céu Vazio”, ela recebeu o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras (ABL). Esta obra consta de 30 poemas e foi editada também pela famosa Livraria do Globo, a exemplo do seu primeiro livro “De mãos postas”.  O livro “Céu Vazio” mereceu também o registro de Cyro Martins no Correio do Povo de julho de 1943, e Justino Martins, na importante Revista do Globo (1929-1967), homenageou na edição 344, em forma de artigo, a figura de Lila Ripoll.

No ano de 1945, com a legalização do Partido Comunista, Lila Ripoll intensificou sua participação política, lutando por reivindicações do operariado e também passou a colaborar  na importante revista Província de São Pedro, criada por Moysés Vellinho (1902-1980), em 1945,circulando por alguns anos, até  1957.

 Seu terceiro livro “Por Quê?” contém 25 poemas e foi editado, no Rio de Janeiro, pela Editora  Vitória, em 1947. Esta era considerada a porta-voz dos intelectuais comunistas do Brasil. Lila Ripoll dedicou esta obra à sua mãe e ao engenheiro  Alfredo Luis Guedes com o qual se casou, em 1944.  Após cinco anos de convívio, ele faleceu de derrame cerebral, e a nossa poetisa passou a dedicar-se, de forma ainda mais intensa, à militância política. Nesta obra, podemos perceber a proximidade poética de Lila Ripoll com Cecília Meireles (1901-1964). Esta última  nutria uma solidão das ilhas oceânicas, herdada da avó açoriana, e a nossa poetisa, em seus primeiros livros, sempre se volta às memórias da infância.

O conjunto da obra

A obra completa de Lila Ripoll totaliza oito livros, que foram editados, de 1938 a 1965, nesta respectiva ordem: “De mão postas “, “Céu Vazio”, “Por quê?”, “ Novos poemas”, “ Primeiro de Maio”, “Poemas e canções” , “ O Coração descoberto” e “ Águas Móveis”. Além destes livros, há poemas inéditos recuperados e organizados por Alice C. Moreira na publicação “ Lila Ripoll – Obra completa”, cuja pesquisa se efetivou no Centro de Memória do Programa de Pós-graduação da Faculdade de Letras (PUCRS). Nossa poetisa escreveu também uma peça chamada ”Um colar de vidro” (1958) que é uma crítica aos valores burgueses.  Em Porto Alegre, a peça teve uma excelente aceitação pelo público e pela crítica, resultando num sucesso expressivo no Teatro São Pedro.

A campanha eleitoral em 1950

Em 1950, Lila Ripoll foi candidata à deputada estadual pelo Partido, porém enfrentou intensa reação da elite conservadora e de determinadas correntes religiosas, que inviabilizaram a sua  vitória. Nossa poetisa chegou a percorrer, em campanha, um número considerável de cidades do Rio Grande do Sul. Em Quaraí, sua terra natal, durante seu discurso na Praça Gen. Osório, ela foi agredida com vaias e pedradas. Uma pedra chegou a atingir um dos candidatos que se encontravam no palanque com Lila, porém nossa poetisa não interrompeu o seu discurso e nem se intimidou com esta ostensiva demostração de hostilidade.

A importante Revista Horizonte


Nossa poetisa manteve uma intensa ligação com a importante revista gaúcha “Horizonte”, no período de 1949 a 1956, exercendo, em 1951, o jornalismo no comitê editorial da revista. Esta publicação contou com escritores, jornalistas e artistas visuais ligados à esquerda, que difundiam os ideais do Partido Comunista.  Nela, participaram importantes artistas plásticos do Rio Grande do Sul, como Carlos Scliar (1920-2001), Iberê Camargo (1914-1994), Vasco Prado (1914-1998), entre outros nomes. Objetivando apoiar economicamente a “Horizonte’, o Clube de Gravura de Porto Alegre (CGPA) foi criado no ano 1950. Na realidade, a agremiação foi mais do que financiadora da revista, pois, por meio de cursos de formação artística e de exposições,  otimizou o ambiente cultural local. Ainda em 1951, Lila Ripoll participou da organização do 4º Congresso Brasileiro de Escritores.

O Museu de Comunicação Hipólito José da Costa (Musecom) criado, em 10 de setembro de 1974, pelo jornalista e escritor Sérgio Dillenburg, com o apoio da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) e por meio do seu saudoso presidente Alberto André (1915-2001), guarda e preserva, em seu acervo de periódicos, alguns exemplares da importante revista “Horizonte”, cuja circulação se constituiu num marco da história da nossa imprensa regional e nacional.
         
De acordo com Luciana H. Balbueno: “A revista “Horizonte” nasce como um dos aparelhos de difusão cultural ”revolucionário” que divulga não somente a causa do Partido como reflexo dos movimentos soviéticos, mas também a preocupação com os fenômenos sociais no Brasil, a luta pela paz mundial, pelo antifascismo, pela educação para todos, enfim, por causas universais, mais amplas dos que os condicionados pelo esquema soviético.” (Balbueno, p.15).

Ao publicar os seus poemas, na importante revista “Horizonte”, com forte apelo social de transformação da mentalidade burguesa, individualista e competitiva, Lila Ripoll denunciou as desigualdades sociais e suas mazelas, cuja consequência é o sofrimento humano, a exemplo do poema “Andantino”.  Nele, ela retrata a árdua luta, pela sobrevivência, de um menino negro e morador de rua, que deseja ser reconhecido e visto como um ser humano pela sociedade.  Já no poema intitulado “Retrato”, Lila Ripoll enaltece a figura de Luíz Carlos Prestes (1898-1990), que ficou conhecido como “ O Cavaleiro da Esperança” ; e noutro importante poema,  chamado “Elegia”, ocorre uma exaltação aos mártires da causa socialista.

 O poema Andantino: infância, exclusão e o racismo

Em “Andantino”, publicado no ano de 1951, no seu livro “Novos Poemas”, Lila Ripoll  traz a lume um sério problema social: o menino de rua,  pobre e negro, excluído pela sociedade classista e preconceituosa.   Segue um trecho, em forma de poema, desta denúncia social:

“MENINO pretinho vestido de andrajos, teu rosto rebrilha debaixo da chuva que cai e se esvai. Teu cesto de flores, molhado, desfeito, sugere motivos que fazem pensar... ..ANDEMOS, menino, andemos, andemos com chuva ou luar. - O chão não floresce sozinho por nós. E é tempo de andar. Nas altas montanhas, nas rasas planícies, com chuva ou luar, plantemos, menino, que é tempo de andar!” (Novos Poemas, 1951).

O livro “Novos Poemas” fez com que Lila Ripoll, em 1951, fosse agraciada com o Prêmio Neruda da Paz, em Praga, na Tchecoslováquia, representando um orgulho para todos os gaúchos e um marco importante para a literatura presente em nosso estado.
   
Os intelectuais da época

No Rio grande do Sul, colaboravam na propagação dos ideários do Partido Comunista nomes importantes do nosso cenário cultural, a exemplo de Cyro Martins (1908-1995), Dyonélio Machado (1895-1985), Josué Guimarães (1921-1986), entre outros. Na época, o grupo de intelectuais conhecidos internacionalmente e que apoiava as causas socialistas, era composto por personalidades, como: Pablo Neruda (1904-1973), Paul Éluard (1895 -1952), Jean Paul Sartre (1905- 1980), Bertold Brecht (1898-1956), Gabriela Mistral (1889-1957), entre outras figuras de destaque no cenário mundial. Dentro deste contexto, Lila Ripoll estava vinculada, admirava e lia a produção desses artistas, filósofos e escritores. No ano de 1953, Lila Ripoll participa de um encontro internacional pela paz em Buenos Aires.

1ª de maio: O massacre dos operários na cidade de Rio Grande (RS) / 1950

Em 1954, Lila Ripoll lançou o livro ”Primeiro de Maio”, no qual ela registrou o massacre ocorrido no Dia Internacional do Trabalho, na cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. A passeata operária foi interrompida com os disparos das armas dos policiais, que cumpriam ordens superiores. O governo de Walter Jobim (1892-1974), de acordo com o jornalista e pesquisador João Batista Marçal, irá se despedir com as mãos “sujas de sangue”. Além de Angelita, foram mortos, pelos cães da repressão, o líder operário Euclides Pinto, o portuário Honório Porto e o ferroviário Osvaldino Correia. O vereador Antônio Réchia, durante o confronto, foi atingido por um disparo que atingiu a sua espinha dorsal, ficando este paralítico. O sangue operário foi derramado no pampa gaúcho...

O poema “Angelina”, que faz parte dessa obra, trata do assassinato de uma jovem tecelã durante uma passeata de operários ocorrida em 1º de maio de 1950. A jovem Angelina Gonçalves carregava a bandeira do Brasil e trazia pela mão a sua filha de 9 anos, quando foi atingida por um disparo e caiu morta. Este fato se constitui numa página muito triste e de profunda consternação na história do movimento operário no Rio Grande do Sul.

Observem a densidade das duas primeiras estrofes deste poema:

A massa resiste
rebelde,
indomável,
Erguendo muralhas,
de peitos e braços,
Às frias espadas,
Aos altos fuzis.
A rua tranquila
Tão cheia de cantos, encheu-se de cinza,
De sangue e de pó. (...)

 A Tribuna Gaúcha: o jornal maldito

 Em 1955, Lila Ripoll passou a colaborar no importante periódico “Tribuna Gaúcha’ que era ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). O nome desse periódico se alternava entre Tribuna Gaúcha ou simplesmente Tribuna. Esta mudança no título do periódico se dava quando havia a necessidade dos comunistas em confundirem a vigilância policial, principalmente, no período em que o Partido esteve proibido de atuar, funcionando de forma clandestina no Brasil. Seu primeiro número começou a circular em 17 de fevereiro de 1946. Durante um decênio, seus diretores, repórteres e redatores vivenciaram a rotina de entradas e saídas das prisões metropolitanas. A sede, que ficou famosa, localizava -se  na Rua da Ladeira, atual General Câmara). Este local foi cenário de confrontos, com prisões e espancamentos,  manchando com sangue  esta tradicional rua do centro de Porto Alegre,  Ainda no ano de 1955, a nossa poetisa e jornalista vai a Moscou para o Congresso Internacional dos Partidários da Paz como delegada do Brasil.

Manoelito de Ornellas e Lila Ripoll

Lila Ripoll era amiga do círculo familiar do escritor Manoelito de Ornellas (1903-1969), que fez parte da geração de 30, em nosso Estado, e escreveu um clássico da nossa literatura: “Gaúchos e Beduínos” – a origem étnica e a formação social do Rio Grande do Sul” (1948). Nossa poetisa figura entre os destaques literários presentes em “Máscaras e murais de minha terra” que foi publicado em 1965. Nesta obra, o escritor faz uma referência extremamente positiva em relação à figura de Lila Ripoll, considerando o trabalho da poetisa repleto de sensibilidade e de extrema compreensão quanto aos problemas humanos. Manoelito de Ornellas também registrou, nesta obra, a sua admiração (1965), considerando louvável o senso de justiça e de igualdade social presentes na obra de Lila Ripoll. O escritor Manoelito de Ornellas assim definiu a nossa poetisa: “o poeta sofre o drama que surpreende, a cada passo, e a sua angústia se transforma em canto“ (idem, p.62)

Os pesquisadores da obra de Lila Ripoll

Ao longo do tempo, qualificados pesquisadores têm contribuído para divulgar o talento e as atividades às quais Lila Ripoll  se dedicou durante a sua profícua existência. Importante, entre outras, as seguintes produções: “Antologia poética “(1967) de Walmyr Ayala , “Ilha difícil – antologia poética” de Maria da Glória Bordini e  “Lila Ripoll - Obra Completa” (1998) de Alice Campos Moreira.  A autora Maria da Glória Bordini também é responsável pela análise do conjunto da obra de Lila Ripoll que foi publicada, em 1987, no fascículo nº 9, do Instituto Estadual do Livro (IEL).

Importante também que se registre a dissertação de Luciana Haesbaert.  Com o título “A produção de Lila Ripoll na Revista Horizonte”, ela foi defendida, em 2001, na PUCRS.  Nela, a autora demonstrou que a revista foi um marco referencial da nossa poetisa ligada às causas sociais, sendo ferrenha defensora dos direitos políticos como militante do Partido Comunista Brasileiro. De acordo com a autora, o período mais rico e produtivo de Lila Ripoll  foi quando estava atuante na importante revista gaúcha “Horizonte” (1949-1956).

A prisão em 1964 e a doença

As atividades políticas e intelectuais de Lila Ripoll, ligadas ao Partido Comunista Brasileiro, foram de encontro a Ditatura Militar (1964-1985) que se instalaria no País em 1964. O resultado foi a prisão da nossa poetisa, que, devido a um câncer em estágio bastante avançado, acabou sendo liberta.
  
Ao pressentir que seus dias se esvaiam e a morte era inevitável, ela deixou um recado para os amigos em forma de poema:

Agradeço tudo a todos,
Não merecia tanto.
Levo esta única saudade: deixá-los
Aos amigos desejo incorporar
Mais os novos amigos que conhecemos.
E aos inúmeros amigos que conhecemos
Deixo a minha grande saudade, (Moreira. p.7)

A morte de Lila Ripoll

Em 07 de fevereiro de 67, a foice - um símbolo arquétipo da morte-, cortou o fio da sua existência, que nos deixou um legado de luta e de esperança, por dias melhores, numa sociedade que, infelizmente, ainda exclui e relega à invisibilidade social e ao abandono milhares de pessoas às quais foi sonegado o passaporte da cidadania. Com certeza, Lila Ripoll vive nos corações de todos que acreditam na fraternidade e na construção de uma sociedade mais igualitária e com menos desigualdades, onde as promessas governamentais e eleitoreiras se tornem uma realidade palpável e não apenas palavras verbalizadas e impressas.

O crítico Sérgio Ribeiro Rosa, em 29 de janeiro de 1967, ao falar da nossa poetisa, no Diário de Notícias (1925-1979), em seu ensaio “Lila Ripoll solidão e êxtase”, comentou:

“Sua poética impõe-se no concerto internacional da arte lírica como solidão que se sublimou em êxtase de expressividade total. (,,,) ”

No Correio do povo, de fevereiro de 1967, Hugo Ramirez escreveu “Lembrança de Lila Ripoll”, onde afirmou: “Com Lila Ripoll a contribuição feminina à poesia, no RGS, atingiu a um ponto de singular destaque”. Nossa poetisa é patrona da cadeira nº 26 da Academia Literária do Rio Grande do Sul e a sala de eventos no Instituto Estadual do Livro (IEL) chama-se, numa justa homenagem, Lila Ripoll. Em sua homenagem, criou-se, no ano de 2005, o Prêmio Lila Ripoll de Poesia, promovido pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, sendo aberto a todos que desejarem se expressar sobre assuntos vinculados às causas sociais e ao gênero.
    
No dia 07 fevereiro de 1967, Lila Ripoll faleceu em Porto Alegre, aos sessenta e um anos, e seu corpo foi enterrado por seus companheiros partidários no Cemitério da Santa Casa de Misericórdia.  Sua obra e sua voz libertária seguem encantando a todos, que lutam e sonham com um mundo melhor...

Bibliografia
BALBUENO, Luciana Haesbaert. A Produção de  Lila Ripoll na revista horizonte. Dissertação de mestrado. PUCRS, 2001.
BORDINI, Maria da Glória. Ilha difícil. – antologia poética. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1987.
------------ Lila Ripoll. Letras Rio Grandenses. nº 09. Porto Alegre: IEL, 1987.
BRAGA, Maria Alice da Silva. Manoelito de Ornellas / Vida e obra de um ex-presidente da ARI. Porto Alegre: Megalupa, 2015.
FlORES,  Hilda A. Hübner. Presença Literária / 2005. Porto Alegre: Ediplat, 2005.
MARÇAL, João Batista ; MARTINS, Mariângela. Dicionário Ilustrado da Esquerda Gaúcha. Porto Alegre: Libretos, 2008.
MOREIRA, Alice Campos. (org,). Lila Ripoll - obra completa. Porto Alegre: IEL/ Movimento, 1998.
SCHULER, Donaldo. A poesia no Rio Grande do Sul.  Porto Alegre: Mercado Aberto,1987.

Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite é pesquisador e coordenador do Setor de Imprensa do Musecom

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