sexta-feira, 10 de março de 2017

Angola. E AGORA, JOÃO LOURENÇO?

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Após a sua confirmação como cabeça de lista do MPLA, o general tem um desafio enorme: recheado de dilemas, urgências várias e desígnios internos e externos que continuam por atingir.

O actual ministro da Defesa foi confirmado como número 1 da lista de candidatos a deputado pelo MPLA. As eleições gerais ainda não foram marcadas mas João Lourenço é, desde já, o favorito para o cargo de primeiro presidente da República da era pós-José Eduardo dos Santos. É um desafio enorme: recheado de dilemas, urgências várias e desígnios internos e externos que continuam por atingir.

O perfil político de João Lourenço é marcado por uma longa carreira ao serviço do MPLA e do governo, seja como secretário-geral, comissário político ou como governador do Moxico (de 1983 a 1986) e Benguela (de 1986 a 1989), vice-presidente da Assembleia Nacional (entre 2003 e 2014) e ministro da Defesa (desde 2014 até ao momento).

É um histórico daquele partido, sob qualquer perspectiva. Mesmo ideologicamente, apesar das participações empresariais que possui, continua a ser descrito como um crítico das teorias capitalistas mais radicais (as que defendem a continua desregulação da actividade económica para que o mercado funcione sem constrangimentos).
Em 2003, João Lourenço cometeu um erro que lhe custou uma lição de 11 anos sentado na Assembleia Nacional. Depois de JES ter afirmado publicamente que já não seria o candidato às próximas eleições, Lourenço apressou-se a afirmar que sim senhor, que o “presidente é um homem de palavra e de honra” e que o anúncio era para ser levado a sério.

Esqueceu-se, há cerca de 14 anos, que a política interna tem sido uma belíssima corrida de fundo: óptima para especialistas em longas maratonas e demorados tirocínios; um terror para os sprinters de passada larga. Quem corre rápido demais tem a enorme, quase certa, possibilidade de escorregar numa qualquer casca-de-banana para se despistar sem apelo, nem agravo.

João Lourenço compreendeu a dinâmica da pior forma mas, se era uma pessoa publicamente reservada, a partir dessa altura as suas aparições tornaram-se esporádicas. Mesmo como ministro da Defesa e general na reserva. O que também é um dilema, nesta altura: se não são conhecidas as suas ideias para o país, significa que a sua imagem também não é do total conhecimento da população.

Talvez seja por isso que o candidato a deputado e a presidente da República tenha alertado, no dia 13 de Fevereiro, durante uma actividade partidária, que “na realidade”, o MPLA “tem de trabalhar junto do povo, porque só ele nos levará à vitória”.

“Vamos trabalhar nos bairros, nas aldeias e nas cidades, com o povo e no seio do povo, esclarecendo-os sobre a necessidade do registo eleitoral, sobre a importância do seu voto para a estabilidade do País, para a consolidação da paz e da reconciliação nacional. Vamos falar das perspectivas de resolução dos problemas sociais, que ainda afectam as populações, vamos falar da esperança que se renova”, alertou João Lourenço.

Para um membro de um partido na oposição ouvido pelo Rede Angola, este é mesmo um dos principais problemas que o histórico do MPLA enfrenta.

“Para além do MPLA ser, actualmente, um partido cheio de divisões – facto que pode ser um obstáculo para João Lourenço – nós sabemos que a sua imagem ainda precisa de ser divulgada junto da população. Ele tem pouco apoio das bases do partido e, ao mesmo tempo, precisa de trabalhar fortemente nas zonas peri-urbanas e rurais porque as pessoas não o conhecem bem”, recorda.

O seu passado como militar e enquanto general na reserva é outro dos dilemas que resistem ao passar do tempo. Se, por um lado, é quase pública a consideração que as estruturas castrenses têm por João Lourenço, a experiência militar terá endurecido a sua capacidade de ouvir críticas e de aceitar opiniões diferentes. Em alguns círculos, é descrito como um homem de poucos amigos.

“O que o torna diferente dos outros militares é o facto de ter passado pela administração do Estado como governador. Primeiro no Moxico, depois em Benguela. Penso que mesmo se tratando de uma experiência feita no contexto da guerra, deu-lhe conhecimento sobre os meandros da actuação política, o que faz com que não seja mais um militar entre vários”, conta um jornalista em conversa com o Rede Angola.

A descrição, a lealdade e o não envolvimento, que se saiba, em escândalos de favorecimento pessoal e de corrupção jogam a seu favor. Mesmo assim, algumas correntes julgam que 2017 será a maior oportunidade de sempre para oferecer um estágio ao MPLA, mas agora na bancada da oposição.

Família ajuda

João Lourenço é casado e pai de seis filhos, gosta de xadrez e de equitação. Domina o português, inglês, russo e espanhol, segundo a sua biografia oficial no Ministério da Defesa. Tem formação em artilharia pesada e viveu, entre 1978 e 1982, na antiga União Soviética, onde também se formou em Ciências Históricas.

É casado com a antiga ministra do Planeamento, Ana Dias Lourenço, que até Outubro de 2016 ocupou um lugar no Banco Mundial, em Washington (capital política dos EUA). Diversas fontes contactadas pelo Rede Angola acreditam que Ana Dias Lourenço pode ser uma ajuda importante, caso o marido seja eleito para o cargo de presidente da República.

Depois de também ter sido apanhada pela violência que envolveu os acontecimentos de 27 de Maio de 1977, onde acabou detida, Ana Dias Lourenço (formada em Economia pela Universidade Agostinho Neto) subiu na hierarquia do partido. Foi ministra do Planeamento durante muitos anos, o que lhe garante um profundo conhecimento de como funciona a acção governativa.

Também no plano externo apresenta credenciais: a já referida passagem pelo Banco Mundial e o forte envolvimento nas questões da SADC, por exemplo, o bloco regional onde Angola se insere. Ana Dias Lourenço transmite uma ideia moderna sobre a mulher angolana, algo que pode se tornar um trunfo eleitoral.

Mas para lá das questões pessoais e do perfil familiar, que pode ser importante para compreender a pessoa, os enigmas estão centrados na actividade política e nas ideias que poderão ser implementadas no próximo governo.

A saída de JES começou a ser ventilada há algum tempo, sobretudo através de fugas cirúrgicas de informação que trouxeram o assunto para as capas dos jornais privados. Depois, alguns membros do MPLA foram utilizando a sua visibilidade mediática para analisar e deixar várias pistas sobre o que estaria a acontecer no seio do partido.

A sociedade em geral reagiu sempre com desconfiança e o jogo acabou por ser pessoalizado, longe das disputas ideológicas ou de grandes propostas de mudança.

João Melo, jornalista, escritor e militante do MPLA, foi um dos que foram abordando esta questão no espaço público. No ano passado, citado pelo Expresso (um semanário português), explicou o que pensa sobre Lourenço.

“Não há nada de novo nem surpreendente [na altura, em Setembro de 2016, tinha sido indicado como vice-presidente do partido, um sinal do que viria a suceder em Dezembro]. Dentro do MPLA ele sempre foi cogitado e falado como um dos três ou quatro nomes que podem suceder a José Eduardo dos Santos”, explicou Melo.

Questões como o combate à pobreza, a melhoria dos serviços públicos em geral, o combate ao clientelismo, à corrupção e ao enriquecimento ilícito, passando pela definitiva abertura dos meios de comunicação social públicos a todos os angolanos, estão no topo das preocupações dos eleitores.

Mas às doenças crónicas soma-se agora uma intempérie sem fim à vista: a profunda crise económica que afecta o país e a sua principal fonte de receitas, a Sonangol. O desafio é grande e o exercício do poder tem sempre a capacidade de provocar grandes mudanças a nível pessoal.

João Lourenço será pressionado a seguir o seu próprio caminho, ao mesmo tempo que continuará a ter um governo-sombra nos olhos de JES.

Miguel Gomes. – Rede Angola – Foto:  Ampe Rogério/RA – em  17/02/2017

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