quarta-feira, 31 de maio de 2017

África da paz é a emergente, capaz de se inserir nas rotas da seda da globalização inclusiva

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Martinho Júnior | Luanda
   
1- As espectativas africanas em relação à paz em pleno século XXI, não são neste momento as dominantes em África, por que o agenciamento neocolonial, avassalado aos expedientes da hegemonia unipolar, típicos da “civilização judaico-cristãocidental”, obrigam uma parte importante do continente a mergulhar na barbárie inerente à completa dependência dos interesses inscritos nessa matriz de domínio no absoluto e nas ramificações derivadas de feição táctica e tácita.

Os interesses gerais africanos são contraditórios a esse processo retrógrado, pois essa matriz para dominar agencia caos, terrorismo, tensões, conflitos e guerras, assim como toda a espécie de divisionismos, porém só com a paz em busca de diálogo, de consensos e com participações abrangentes é capaz de encontrar formas de luta contra o subdesenvolvimento que irão favorecer nos imensos resgates que há que realizar num continente que é ultraperiférico em relação à economia global e cujas culturas vegetam fora do que pode e deve ser aplicado em termos de revolução industrial e da nova revolução tecnológica ao continente e por conseguinte obriga-o a ocupar a cauda dos Índices de Desenvolvimento Humano.

As confluências no sentido da paz encontram-se em vias de consolidação na África Austral, até por que a África do Sul é o expoente maior da aplicação dos termos da revolução industrial e da nova revolução tecnológica e o único membro africano nos BRICS, alimentando uma visão de África abrindo-se do cone sul à amplidão do Sahel…

A África do Sul deve no entanto abandonar as formas elitistas de pensamento e acção estimuladas desde o fim do século XIX desde logo por via de Cecil John Rhodes, formas elitistas eminentemente anglo-saxónicas, que têm vindo a suplantar o seu próprio processo multicultural extensivos, algo que implica alterações muito sensíveis no carácter da sua sociedade, dos expedientes produtivos da sua economia e dos processos sócio-políticos inerentes.

A SADC é uma “via aberta” que poderá influir no abandono progressivo dos termos da inteligência elitista enquanto expediente de supremacia sócio-política, pois o peso da multiculturalidade nesse espaço obriga ao “win-win”, ao diálogo, à incessante busca de consensos e à participação cada vez mais alargada, que caracteriza a multipolaridade que é factor integrante da expressão da globalização inclusiva.

Uma África do Sul capaz de intensificar alterações culturais internas tão importantes, irá reforçar a paz na África Austral e reforçar nesse sentido o papel de Angola como um sério agente de paz em relação às tensões a norte e nordeste do seu território (Golfo da Guiné, África Ocidental, África Central e Grandes Lagos), tensões estimuladas pelos vínculos da hegemonia unipolar, típicos da “civilização judaico-cristão cidental”, cronicamente capaz de rapina e de instauração de processos de vassalagem agora sob conteúdos implicados em conceitos neoliberais e neocoloniais.

Por outro lado, há ainda insuficiências gritantes na estruturação e conjugação de esforços em relação a duas bacias: a do Congo e a do Zambeze, que com as do Níger (África Ocidental) e do Nilo (África do Leste), constituem as 4 bacias decisivas do interior de África, conjuntamente com os Grandes Lagos.

O rio Congo tem um comprimento de 4.667 km e a sua bacia cobre uma área de 3.680.000 km2, enquanto o rio Zambeze tem uma extensão de 2.574 km e sua bacia uma área de 1.390.000 km2.

Precisam-se urgentemente vitalizar as “Congo Basin Initiative” e a “Zambezi Basin Initiative”enquanto iniciativas aglutinadoras que reforçarão as geoestratégias da paz na periferia norte do espaço físico-geográfico da SADC em direcção aos Grandes Lagos (onde nasce a bacia do Nilo), conjugando todos os esforços no cômputo do conjunto.

2- A norte do continente só o Egipto se apresta a estimular uma cultura perseguindo a lógica com sentido de vida e em busca de paz, ultrapassada que foi a crise da “primavera árabe”, mas em luta contra suas sequelas, (dando combate ao Estado Islâmico emanação dos Irmãos Muçulmanos, no Sinai e em todas as “transversalidades” do seu complexo corpo social).

Os cristãos coptas do Egipto têm sido ultimamente vítimas das acções terroristas do Estado islâmico, que actua a partir do leste da Líbia.


Berço duma civilização milenária que tem no vale do rio Nilo (nascido nos Grandes Lagos) um eixo antropológico e físico-geográfico exponencial, o Egipto moderno é incontornável para as realizações do único projecto digno do século XXI: o “Belt and Road”, ramal africano:

- Pelo Canal do Suez transita uma das mais frequentadas “rotas da seda” marítimas entre a costa do Pacífico chinesa e o Atlântico (Europa Ocidental e Estados Unidos) via Índico-Mar Vermelho-Mediterrâneo; o Canal de Suez continua suas obras de melhoramento com vista a possibilitar serviços a navios com maior calado e capacidade de transporte;

- Pela sua posição geoestratégica o Egipto é incontornável para uma deriva para dentro de África do “Belt and road” terrestre, capaz de alimentar um sonho secular, a ligação do meridiano do Cabo ao Cairo, desta feita por via multipolar e no quadro duma globalização inclusiva, já que antes, mesmo com as capacidades da revolução industrial acrescidas das capacidades da nova revolução tecnológica, as inteligências elitistas que potenciaram a hegemonia unipolar a partir das culturas anglo-saxónicas conforme Cecil John Rhodes, pelo seu carácter não o permitiram, apesar do lúcido enunciado geoestratégico que propuseram na sua visão vanguardista;

- Por via da “Nile Basin Initiative”, que reúne para além do Egipto os países da maior bacia hidrográfica em comprimento de África (o mais comprido rio do mundo, com 6.853 km e uma bacia com 3.400.000 km2 de área total), como o Sudão, o Sudão do Sul, o Uganda, o Quénia, o Ruanda, o Burundi, a Etiópia, a Tanzânia e a RDC, é o Egipto que pode estimular as políticas de paz em conjugação com a África Austral e com Angola na parte norte da “Belt and road” que vai do Cairo ao Cabo, apesar da aguda crise no Sudão do Sul;

- Pelo potenciamento da luta contra as correntes simultaneamente estimuladas desde o colonialismo britânico e francês, crónicos aliados das monarquias arábicas wahabitas-sunitas que ficam a leste do seu território, correntes que tendo origem nos Irmãos Muçulmanos, derivam para o caos e o terrorismo dos fundamentalistas conforme o exemplo do Estado Islâmico; nesse sentido o Egipto permite consolidar as linhas da “rota da seda” para dentro de África, que vençam o espaço de ninguém do Sahel e confluam em direcção ao potenciamento da paz na África austral.

Essa posição privilegiada do Egipto no âmbito da “Nile Basim Initiative” joga também em contraste com o domínio da “FrançAfrique” sobre o paralelo e meridiano da bacia do Níger, no espaço ocidental de África.

O Egipto está assim claramente identificado como um aliado das aspirações da África Austral (espaço SADC, desde que potenciando a “Congo Basin Initiative” e a “Zambezi Basin Initiative”), confluente nos interesses do “Belt and road” do Cairo ao Cabo e como uma potência africana capaz de inscrever suas capacidades no contrabalanço aos processos da hegemonia unipolar neste momento dominantes na África do Oeste (Marrocos como “correia de transmissão”) e no Sahel, que são também correntemente dominantes nas instituições da União Africana.

Os países da África Austral ciosos de paz e de desenvolvimento numa trilha de multipolaridade motivada pela luta contra o subdesenvolvimento, devem incrementar relações e esforços com o Egipto que, por via do eixo do meridiano do curso do Nilo e apesar do pântano de crises no Sudão, pode tornar-se um factor em reforço dos estímulos de paz pelo menos na direcção dos Grandes Lagos, do Sudão do Sul, da República Centro Africana e da RDC, conjugando esforços com Angola sustentada pela África do Sul e pelos restantes componentes da África Austral.

Em relação a África a globalização emergente e inclusiva deve criar assim a sua visão geoestratégica, aprendendo com o elitismo aplicado ao pensamento originado por Cecil John Rhodes, mas introduzindo os seus próprios e complexos relacionamentos sócio-culturais abertos à busca de consensos, à busca de diálogo e motivados pelas políticas económicas do “win-win”, capazes de estabelecer plataformas que vençam letargias, atrasos, dependências e o neocolonialismo de rapina que avassala o corpo inerte de África, imposto sobretudo pela“civilização judaico-cristã ocidental”, como se ainda estivéssemos no tempo das cruzadas! 

Ilustrações: A água interior de África (4 principais bacias hidrográficas e os Grandes Lagos); Bacia do Nilo (componentes da “Nile Basin Initiative”); Bacia do Congo (componentes da “Congo Basin Initiative”); Bacia do Zambeze (componentes da “Zambezi Basin Initiative”)

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