Drop Down MenusCSS Drop Down MenuPure CSS Dropdown Menu

quinta-feira, 25 de maio de 2017

APONTAMENTOS DA HISTÓRIA ANGOLANA | por Martinho Júnior


A DERROTA DE MANDUME, 100 ANOS DEPOIS DO DIA DE SUA MORTE A 6 DE FEVEREIRO DE 1917

Martinho Júnior | Luanda 

1- Poucos anos separaram as resistências e revoltas que procuraram a todo o transe impedir os portugueses de ocupar território em toda a extensão do país e o início da Luta Armada de Libertação Nacional em Angola.

As resistências e as revoltas à progressão do colonialismo português para o interior do espaço nacional definido em Berlim entre 15 de Novembro de 1884 e 26 de Fevereiro de 1885. procuraram que as linhas do colonialismo português não se pudessem consumar, mas ocorreram de forma desordenada, sem qualquer hipótese de homogeneidade, apesar de sua cadência e potência ser superior, comparativamente a outros acontecimentos análogos noutras partes de África.

O historiador René Pélissier dá conta que foi o ramo herero dos cuvales, no sudoeste e entre 1940 e 1941, a encerrar o período das resistências e revoltas, que durante os três primeiros decénios do século XX foram bastante intensas e desgastantes, pelo que assim considerando, foram apenas 20 anos que mediaram até à eclosão do início da Luta Armada de Libertação Nacional no âmbito do Movimento de Libertação em África, em Fevereiro de 1961, se considerarmos que a revolta da Baixa de Cassange ainda se pudesse considerar não abrangida por esse esforço moderno, integrador e unificador.

Os angolanos não ganharam no imediato a consciência da necessidade de se juntarem e juntar esforços para derrotar o colonialismo português, por que estavam longe de assumir os termos duma identidade nacional unificadora e integradora, impossibilitados de perceber o todo, quando eram os reinos, os dembados e os sobados que estavam no horizonte dos seus ambientes sócio-políticos e económicos de então e dos seus interesses vitais (de sobrevivência sobretudo), que os levavam quantas vezes, estimulados pelas autoridades coloniais, a guerrearem-se, a dividirem-se entre si, ou entrando em negócios subservientes com os portugueses.

É previsível que os termos da Conferência de Berlim se tivessem mantido secretos para os africanos, tanto quanto foi possível às potências coloniais: quanto mais tarde eles acordassem, mais tempo de domínio ficava garantido.

Foi esse o fundo humano que impossibilitou uma geoestratégia elaborada em todo o território por parte dos autóctones, pelo que pouco a pouco, face ao avanço da ocupação, o colonialismo foi dominando espaço vital e preponderância no acesso à água interior, sem remissão, deixando para a intervenção o imenso leste e sudeste “além Cunene”.

As transformações globais operadas ao longo do século XX e particularmente as duas Guerras Mundiais, foram muito importantes para que os angolanos começassem a elaborar a sua legítima plataforma de Luta de Libertação Nacional, face à teimosia do fascismo-colonialismo do Estado Novo.

2- De entre as resistências mais formidáveis que o colonialismo português experimentou na sua fase de expansão (segunda metade do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX), está a série de acontecimentos que se sucederam, obstruindo a passagem para o “além Cunene”, progredindo desde a margem esquerda até ao canto sudeste do território.

Primeiro foram os povos humbes, ainda na margem esquerda, que obrigaram o colonialismo ao“pântano” do sudoeste (aquém Cunene”), depois foram os cuamatos e os cuanhamas que ofereceram as resistências mais difíceis de transpor, em especial os cuanhamas, amparados pelo jogo comum com os cuamatos (a ocidente) e os ovambos (a sul).

Só depois de vencidos os cuanhamas o colonialismo português conseguiu chegar de forma consolidada às “terras do fim do mundo”, Cuando Cubango adentro (no que entre 1967 e 1975 viria a ser a parte angolana do “território ALCORA”).

A campanha na região dos cuanhamas por parte do expansionismo colonial português, tornou-se decisiva entre 1915 e 1917, depois das forças sul-africanas do general Louis Botha terem derrotado os alemães de von Trotta e do general Victor Franke, acabando com a ameaça deles aos portugueses… antes disso os alemães haviam derrotado os portugueses em Naulila e no Cuangar, ou seja, precisamente entre o Cunene e o Cubango, regiões que envolviam o cuanhama, o que lhes facilitou a implantação e o fortalecimento.

Essa derrota portuguesa face aos alemães retardou a progressão “além Cunene” e só a tomada do Sudoeste Africano pelos sul-africanos comandados pelo general bóer Louis Botha, deu hipótese aos portugueses de aumentar a tensão sobre o cuanhama-ovambo, de forma sincronizada com os sul-africanos e assim derrotar o rei Mandume em Môngua, entre 17 e 20 de Agosto de 1915, com um novo contingente sob as ordens do general Pereira d’Eça.

No dia 22 de Agosto o rei Mandume retirou-se para a Ovambolândia, no outro lado da fronteira, mas a pressão sul-africana obrigou-o a regressar a solo de Angola quando teve de abandonar Ehole, na zona neutra, depois duma emboscada vitoriosa a 30 de Outubro de 1916, apressando o seu fim, consumado a 6 de Fevereiro de 1917 no seu “kraal” em Ehole, próximo de Namacunde.

Uma conjugação desses factores, de ordem estratégica uns, de ordem táctica outros, provocou a derrota do rei Mandume: a seca, a fome, a tropa do general Pereira d´Éça e a tropa sul-africana do general Louis Botha, foram os elementos tácticos influentes na pressão exercida sobre ele, que se adensou com sua derrota em Môngua, aproximando-o do fim!...

Pela primeira vez os portugueses dispunham de camiões para a logística numa campanha de conquista em Angola e, entre outros erros, os camiões não foram alguma vez atacados nos seus trajectos, reabastecendo directamente e sem percalços as forças empenhadas em Môngua!...

Por seu turno em Môngua as forças do rei perderam as cacimbas e sofreram imediatamente as contingências disso, quando a seca já se fazia sentir por todo o sul, pelo que a 5 de Setembro de 1915 os efectivos portugueses ocuparam N’Giva, onde o general Pereira d’Eça considerou:

“Atacar três dias seguidos um destacamento constituído por duas baterias de artilharia de campanha, quatro baterias de metralhadoras, dois batalhões de infantaria e dois esquadrões de cavalaria, estando estas forças em quadrado e aproximando-se delas com uma insistência que no último combate durou dez horas a uma distância que chegou a ser de 50 metros, revela um moral e uma instrução de tiro e de aproveitamento dos abrigos que fariam honra às melhores tropas brancas”…


3- O fim do rei Mandume marca não só a expansão colonial em Angola e no Sudoeste Africano, mas também a aproximação inicial dos portugueses aos sul-africanos no sul de Angola e norte de Namíbia (Ovambolândia).

Até naqueles tempos haviam Bothas nos caminhos dos angolanos!

Agora que eles deixaram de haver, os angolanos de Cabinda ao Cunene, do mar ao leste, têm em paz todo um país com futuro por construir; em NGiva, capital da província do Cunene e cidade mártir da Linha da Frente contra o “apartheid”, as estruturas vão-se disseminando e tornando a vida consentânea com o século XXI. 

Figuras e fotos: O rei Mandume segundo uma imagem referente à época; Croqui sobre a batalha de Môngua e o avanço das forças do general Pereira d’Eça sobre N’Giva; Túmulo do rei Mandume, na sua embala em Ehole, a sudeste de N’Giva; A nova gare do aeroporto 11 de Novembro em N’Giva.

Sem comentários: