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quinta-feira, 13 de julho de 2017

SÉCULOS DE SOLIDÃO – III



 Martinho Júnior | Luanda

Aproxima-se a data do lançamento do terceiro livro em que comparticipo, desta feita com Leopoldo Baio, que foi o Director do desaparecido semanário “ACTUAL”.

O livro “Angola – Séculos de solidão – do colonialismo à democracia – cronologia histórica baseada numa pesquisa analítica” vai ser lançado em Angola pela Editora LeArtes, com uma tiragem de 1000 exemplares, com produção duma gráfica de Luanda e em resultado de alguns financiamentos locais.

Foi graças ao esforço e à tenacidade de Leopoldo Baio que o livro dá à estampa.

O livro enquadra-se, em época eleitoral, na necessidade de reforçar as linhas progressistas do MPLA, tendo em conta muitas lições que nos acodem não só do seu passado de luta, mas também e inclusive da contemporaneidade.

O prolongamento de “Séculos de solidão” até aos nossos dias é motivo de constante reflexão:

Como Angola poderá ir saindo do subdesenvolvimento crónico a que tem sido secularmente votada?

Como Angola poderá sair da cauda dos Índices de Desenvolvimento Humano para onde tem sido relegada, tendo em conta os trágicos resultados da última guerra injusta que teve que travar no âmbito do choque neoliberal protagonizado por Savimbi?

Quantas cedências, os angolanos vão continuar a fazer, face aos impactos nocivos da terapia neoliberal que aumenta o fosso das desigualdades humanas, a injustiça social ao ponto de se atingir, em algumas zonas urbanas, bolsas de “apartheid” e a ausência de respeito para com a Mãe Terra?

Que opções se devem tomar tendo em conta o estado do mundo e o quadro da globalização, remetido a dois focos de tensão entre o conceito e a prática da hegemonia unipolar e o conceito e a prática da emergência multipolar?

Como vamos equacionar a defesa da paz, do aprofundamento da democracia e a busca pela justiça social, num universo tão conturbado?

Para além das lições que o conteúdo do livro estimula, há uma vastidão de inquietações cujas respostas urge equacionar.

UM CORPO INERTE À ESPERA DE MAURICE!

Um factor que pesou para que o estado angolano viesse a implementar uma estratégia contrastante com aquela tradicionalmente marcada pela “experiência anglo-saxónica” em tantos “séculos de solidão”, foi o comportamento de Maurice Tempelsman, quer por aquilo que ele beneficiou com a descolonização na África Central e Austral, quer pela sua actuação durante várias décadas em relação à região e, por tabela, em relação a Angola.

No que diz respeito à descolonização, necessário se torna relembrar os últimos anos do colonialismo em Angola, no que diz respeito a alguns aspectos históricos relacionados com a actuação do sector dos diamantes, que criou raízes, hábitos e motivações, com interferências nas esferas políticas, económicas, financeiras, sociais e também nos mais diversos matizes operativos que se foram gladiando, até ao presente, com influências ao retardador, directas e indirectas, em todos os acontecimentos que foram posteriormente ocorrendo.

A então toda poderosa “Diamang”, com capitais portugueses e da “De Beers” precisava de encontrar, apesar das leis próprias com laivos de protecção a uma “companhia majestática”, (para muitos um “autêntico estado dentro do estado”), ainda que em pequena expressão, “dealers” dentro do território de Angola, cuja actividade “livre”, servia como indicador para um controlo adicional das actividades possíveis de tráfico de diamantes, à margem dos circuitos oficiais.

De facto, para um território como Angola, o “escândalo geológico” chega ao ponto de indiciar a presença de cerca de 600 “kimberlites” e praticamente todos os seus rios, que nascem na Região Central das Grandes Nascentes coincidente com o centro geográfico do país, passarem os seus caudais por imensos colchões de diamantes aluviais, dispersos ao longo de milhares de anos, durante a acção das suas águas sobre depósitos milenares de formações diamantíferas, o que torna praticamente impossível um controlo a 100% das explorações artesanais existentes e um controlo dos negócios nos seus pontos próximos da boca das minas (em especial quando, como acontecia no fim do colonialismo, se dispunha duma rede comercial retalhista tão extensa e activa.

Cientes desse problema as autoridades coloniais portuguesas, em estreita coordenação com os interesses do cartel de diamantes pela via da “De Beers”, orientou tanto a polícia mineira que dispunha, quanto a própria PIDE/DGS, no sentido de controlarem os eventuais “dealers”, que se iam candidatando a tal, a partir de outros sectores de actividade, particularmente em função da queda dos preços do café no mercado internacional e por insolvência.

A polícia política portuguesa da época, levou de tal maneira a sério essa “missão”, que chegou a aproveitar alguns dos seus mais importantes inspectores nesse quadro, como o inspector Ernesto Lopes Ramos, que “queimado” pela sua implicação no assassinato do general Humberto Delgado, acabou por voltar a Luanda, onde podia enquadrar-se numa estratégia relativa ao controlo e acompanhamento de traficantes, tal como aliás outros inspectores, colocados noutras regiões do país faziam em relação às suas respectivas áreas de jurisdição.

Entre estes últimos, citamos o caso do inspector Óscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso, que para além de criador dos “Flechas” no Cuando Cubango, foi um dos principais operativos que se passou“de armas e bagagens” para a África do Sul, onde desempenhou importantes missões de desestabilização contra Angola, após a independência, no quadro das forças de que dispôs o regime do “apartheid” e ainda posteriormente, já com a “nação arco íris”.

Essas mudanças de orientação, que contrastaram com os procedimentos usados na década de 50 e primeira metade da década de 60, tinham como “guarda-chuva”, uma aproximação evidente, entre as políticas do estado colonial português e as políticas preconizadas por Washington, em direcção a África e muito em particular, em direcção à então considerada “África branca”, tendo como fonte a estratégia de Cecil John Rhodes.

Os “progressistas” portugueses, alguns deles reconhecidos como amigos de Angola, quase nunca ousaram levantar o véu desse segredo que tem vindo a pesar sobre os destinos do nosso país e, quando em 1983 os serviços de segurança de Angola começaram a levantar esse véu, um véu que na altura já estava, em parte, preso aos circuitos que passavam pelo Zaire e estavam disponíveis à acção de Maurice Tempelsman, acabaram por ser enredados na malha das manipulações e dos interesses, mais a mais numa ocasião que se afigurava muito propícia: o estado angolano estava já ansioso por encontrar soluções político-diplomáticas a fim de encetar relações com os Estados Unidos e abrir o país à democracia, conforme ao aliciante figurino que se desenhava no horizonte para a década de 90.

O facto de profissionais como Ernesto Lopes Ramos e Óscar Aníbal Piçarra de Castro Cardoso se instalarem, na sequência do 25 de Abril de 1974, em países como o Brasil e a África do Sul, à ilharga do sistema em que a PIDE/DGS havia dominado como instrumento do poder do estado português fascista e colonial em Angola, dá indícios de corresponder já por si, a uma resposta incentivada a partir de outros sistemas de inteligência, como a CIA, em relação ao primeiro e a BOSS/NIS, em relação ao segundo (numa primeira fase pelo menos), podendo reforçar, no que diz respeito aos “dealers” dos diamantes controlados pelo cartel, os circuitos instalados e disponíveis no Zaire de Mobutu, cujo regime, por excelência, correspondia aos interesses personalizados por Maurice Tempelsman (“Lazard & Kaplan Inn.”) e também pelo Visconde Étienne de Avignon (“Socété Générale de Belgique”).

De entre os circuitos disponíveis no então Zaire, os que demonstravam maior operacionalidade, para além dos negócios de diamantes em direcção a Angola, estavam apontados para o rico vale do Cuango, praticamente desde a independência em 1975, tendo para este caso, como bases próximas, Tembo Aluma e Kasongo Lunda, o que era um indício, por si, de que tinham resguardos importantes, quer no aparelho de estado do regime de Mobutu (onde pontificava o luso-zairense João Nunes Seti Yale), quer naqueles que lhe davam orientação (homens como Lawrence Devlin, seja no quadro dos serviços de inteligência norte-americanos, seja no âmbito das actividades dum Maurice Tempelsman).

Um dos circuitos, financiava as operações encobertas de Savimbi na primeira metade da década de 80, em direcção a Malange e Luanda e, apesar do seu mentor ter sido julgado e condenado à revelia no quadro do processo 105/83, depois das profundas alterações ocorridas na década de 90, tornou-se hoje numa figura de referência na capital do país, “incontornável” nas cores do seu clube.

Aqueles que se ligaram a Ernesto Lopes Ramos, tiveram sorte diferente uns dos outros: uns chegaram a responder a interesses dos serviços de inteligência da África do Sul, durante o regime do “apartheid” e cumpriram com algumas “missões de ligação” reactivando circuitos operativos ligados a Savimbi, (como aconteceu com a primeira tentativa de instalação dos Batalhões 360 e 517 nos Dembos, em 1983/1984), outros pelo contrário, ainda hoje estão em contacto com o advogado, que se mantém no Brasil e no quadro do neoliberalismo característico do início do século XXI, é uma pessoa muito preocupada com assuntos de ética …

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