domingo, 8 de abril de 2018

11ª Bienal do Mercosul: O Triângulo Atlântico

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"Uma sociedade sem arte é uma sociedade sem ar"Eva Sopher (1923-2018)   

Durante o período de 6 de abril a 3 de junho de 2018, museus e centros culturais de Porto Alegre (RS) serão palco da 11º Bienal do Mercosul cujo tema é “O Triângulo Atlântico”. Nela o visitante poderá usufruir de uma programação, que consta de instalações, exposições, mostra de cinema – em parceria com o Festival de Gramado – espetáculos teatrais, apresentações musicais e encontros literários, entre outras atividades.

“Nossa ideia é que a bienal dialogue com várias formas de cultura”, assim afirmou Gilberto Schwartsmann, presidente da Bienal.  Com o apoio do Ministério da Cultura (MinC), por meio da Lei Rouanet, a Bienal impacta de forma bastante positiva a nossa economia. Desde a sua criação, em 1997, ela tem gerado mais de 11,8 mil empregos diretos e indiretos, possibilitando também a revitalização de áreas urbanas e edifícios, a exemplo do Armazém Cais do Porto, que foi restaurado pela Fundação Bienal do Mercosul, em função da sua quarta edição.

 Espaços expositivos na cidade

Totalizando 77 artistas, estes se distribuem entre 21 africanos, 19 brasileiros, 20 de outros países da América Latina, 11 europeus e 06 oriundos da América do Norte. Sob a responsabilidade do curador Alfons Hug (Alemanha) e da curadoria adjunta de Paula Borghi (Brasil), os trabalhos destes artistas se encontram concentrados no Centro Histórico de Porto Alegre.  Em parceria com a Fundação Bienal do Mercosul, o Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer (Sedactel),  cedeu dois equipamentos para a mostra: o Museu de Arte do Rio Grande do Sul e o Memorial do Rio Grande do Sul.  

Nesta edição, a Bienal do Mercosul, além dos equipamentos do Estado,  está também presente em espaços como o  Santander Cultural, a Igreja Nossa Senhora das Dores e a tradicional e histórica Praça da Alfândega. Na capital, haverá também  residências em comunidades quilombolas, a exemplo do Quilombo do Areal, localizado na Avenida Luiz Guaranha, em Porto Alegre, ocorrendo o mesmo no município de Pelotas, na região sul do Estado. Os artistas Camila Soato e Jaime Lauriano são os responsáveis por trabalhos específicos nestes espaços de resistência cultural das tradições africanas em nosso Estado.

Na Igreja Nossa Senhora das Dores – a mais antiga da capital (1807) - é apresentada uma instalação sonora, totalizando oito línguas da Nigéria e oito línguas indígenas da América Latina. O visitante ouve o murmúrio polifônico de muitas vozes, formando um conjunto de sons, que nos remete à ideia de uma oração coletiva. Ao aproximar-se das caixas de som, as diversas línguas se impõem de forma clara. O curador entende que a cada língua extinta se perde não somente o seu legado de caráter sonoro e identitário, cujo valor é inquestionável e único, mas se extinguem também a visão genuína de mundo e do meio ambiente de determinado povo.

A eterna presença de Jean Baptiste Debret (1768-1848)

A seleção de obras, realizada pelos curadores da Bienal, no Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli (MARGS) e no Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, remete-nos à história do Triângulo Atlântico.

As telas de Jean-Baptiste Debret, que pertencem ao acervo do MARGS, foram pintadas a partir de 1816, durante a Missão Artística Francesa, e irão acompanhar o trabalho de Vasco Araújo. O francês Debret, em suas telas, registrou pontos de intersecção entre as culturas indígena, africana e europeia, constituindo-se num referencial para a história do Brasil, devido à presença de diferentes tipos humanos e de cenas do cotidiano daquela época. Com imagens ligadas ao mar - tema presente nesta 11ª Bienal do Mercosul- as obras de Libindo Ferrás, Ângelo Guido, Francis Pelichek e Hildegard Freidank , que fazem parte do valioso acervo do MARGS, estão expostas junto à instalação do artista André Severo.

O Museu de Comunicação Hipólito José da Costa – dirigido atualmente pela jornalista Elizabeth Corbetta - está participando com 20 fotografias do gaúcho Luiz do Nascimento Ramos (1864-1937), conhecido como Lunara, que compõem o álbum “Vistas de Porto Alegre - Photographias Artísticas”, publicado na década de 1900. Este álbum pertence ao acervo do setor de fotografia desta instituição, sendo coordenado pela antropóloga Denise Stumvoll. As imagens, que misturam a visão documental com um olhar artístico do fotógrafo, assumem um pioneirismo ímpar para a época, ao registrar a presença da cultura negra, em Porto Alegre, no início do século 20. O fotógrafo Lunara, de forma talentosa, evidenciou, por meio da sua lente, a mistura étnica ocorrida no processo da formação identitária do Rio Grande do Sul.

Em função de reformas estruturais que estão ocorrendo no Museu de Comunicação Hipólito José da Costa, as fotografias, do famoso Lunara, ficarão, durante o período da Bienal, expostas no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS).

O tema da 11ª Bienal do Mercosul  é um convite para que mergulhemos nas águas do Oceano Atlântico e nas surpreendentes forças atávicas e ancestrais que as impregnaram, possibilitando a constatação de que a história dos povos do Mercosul se entrelaça com a do Velho Mundo de forma  intrínseca e interativa. Ao destacar a arte africana e afro-brasileira, esta 11ª Bienal do Mercosul se volta para os pontos de contato que propiciaram o encontro das culturas indígena, europeia e africana, resultando num novo amálgama americano.  

A religiosidade e o sincretismo

Esta 11ª edição da Bienal do Mercosul se propõe a lançar um olhar sobre o imenso espaço atlântico que os  africanos denominaram de “Calunga Grande”, significando, no dialeto iorubá, cemitério, pois os escravizados que morriam, durante o transporte nos tumbeiros ou navios negreiros, eram jogados ao mar. Este oceano é o Reino de Yemanjá – yèyé omo ejá - cuja tradução do dialeto iorubá é “ Mãe cujos filhos são peixes”, sendo este Orixá a grande matriarca dentro da Teogonia africana.  Ela é a grande mãe geradora e provedora do sustento de toda a Humanidade.

Orixás, voduns ou inkices vieram dentro do coração do escravizado e, por sincretismo e processos de aculturação, foram sendo associados a santos católicos até os dias atuais.  O sincretismo foi a forma da qual o escravizado se utilizou, naquele momento, para burlar o poder dominante, eurocêntrico e cristão, mantendo, desta forma, a sua fé no culto aos orixás.

No Brasil, embora muitos escravizados praticassem o culto aos orixás, é importante que se registre também a presença dos negros Malês, que eram convertidos ao Islamismo, exercendo atividades livres, como negros de ganho (alfaiates, pequenos comerciantes, artesãos e carpinteiros). Estes, em 1835, organizaram uma revolta para tomar o poder, em Salvador, na Bahia, visando à subjugação da população branca, não obtendo êxito por ter sido esta descoberta e denunciada.

Um exemplo marcante do sincretismo religioso, no Brasil, é a associação de Nossa Senhora dos Navegantes com Yemanjá. No dia 02 de fevereiro, ela é reverenciada, por meio de procissões fluviais e marítimas e de rituais de origem africana, que são realizados nas areias das praias brasileiras, reunindo católicos e adeptos dos cultos de matriz africana numa verdadeira simbiose espiritual.  Neste dia, nossas praias e rios se cobrem de flores, perfumes e outras oferendas apreciadas pela Rainha do Mar.

O tráfico Negreiro

No transcorrer do século XV, a expansão de Portugal, ao longo da costa africana, favoreceu, com o aval de bulas papais, o tráfico negreiro. Totalizando 1.552.000 escravizados, trazidos nos tumbeiros ou navios negreiros, a América espanhola perde em índice numérico para o Brasil que, segundo estudos recentes na Universidade de Emory, em Atlanta, atingiu o total de 4,8 milhões de escravizados.

A caminho do Rio de Janeiro, que era a porta principal de entrada de navios negreiros, 300 mil morreram, tendo o mar como sepultura.   Tratados como animais, os escravos eram transportados nos tumbeiros (navios negreiros), nos quais se misturavam negros de diferentes locais da África, falando dialetos diversos. Esta era a forma de dificultar a comunicação entre os mesmos, enfraquecer a sua identidade cultural, enquanto grupo étnico, visando a anular, desta forma, uma articulação de insurreição, durante o transporte, ou uma fuga em massa.

O Triângulo Atlântico

Sob uma perspectiva contemporânea e multicultural, aliada à força poética, em simbiose com a história, o conjunto expositivo tem como fio condutor uma linha de pensamento que aborda problemáticas relativas à miscigenação oceânica em encontro com as artes. Sob a ótica atenta aos fluxos migratórios que se realizaram de forma forçada (tráfico negreiro) ou voluntária, busca-se compreender a relação entre indivíduo e sociedade estabelecida, tendo como ponto de partida a travessia desse Atlântico, os processos de aculturação e as novas formas de organização sociopolítica e cultural.

Esta nova configuração se dá a partir deste caldeirão multirracial, resultando numa complexa e fascinante diversidade cultural, ainda que maculada por uma herança de conflitos, genocídios, sofrimentos e choques culturais resultantes dos processos eurocêntricos de dominação econômica e cultural. É incontestável que a diáspora do Atlântico Negro estabeleceu-se num intenso trânsito de religiões, idiomas, tecnologias e artes.

A miscigenação

Embora o Brasil fosse, em sua origem, uma nação indígena, nosso país foi forjado por diversos povos e etnias. Na realidade, o brasileiro é fruto de uma contínua e incessante miscigenação que, no decorrer dos séculos, adicionou ao sangue indígena a carga genética do negro (trazido da Mãe África como escravizado); do branco (primeiro portugueses, franceses e holandeses e, a partir do século XIX, os imigrantes alemães, italianos, eslavos, judeus, entre outros) e do amarelo (imigrantes chineses vindos no período de 1810 a 1820, e  japoneses que aqui chegaram no ano 1908).

Nossa diversidade Cultural

O resultado de tantas combinações é um povo cuja diversidade étnico-cultural é de uma riqueza genuína. Composta por tradições remanescentes dos quilombos, em diversos estados do Brasil, a esta se somaram as festas tradicionais de junho, a Folia de Reis ou a Festa do Divino, que se constituem em heranças do período colonial. Acrescente-se a este quadro as datas comemorativas de santos padroeiros italianos, as celebrações do calendário judaico, as festividades alemãs - a exemplo da Oktoberfest – que formam um mosaico de diversas nacionalidades, etnias e religiões, representando a nação e a identidade do povo brasileiro. Ao cruzarem o Atlântico, em 1500, os portugueses chegaram, de acordo com a Carta de Pero Vaz de Caminha ao El Rei Dom Manuel, à Ilha de Vera Cruz, iniciando uma história de lutas, guerras, conquistas e sonhos, ainda, inacabada em “Nossa Pátria Mãe Gentil.”
                                                         
*Pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Musecom

*A nominata dos artistas, que participam da Bienal do Mercosul / 2018,  encontra-se disponível neste endereço : http://www.fundacaobienal.art.br/11bienal/

Imagens
1 - Museu de Arte do Rio Grande do Sul
2 - Memorial do Rio Grande do Sul
3 - Igreja das Dores

Bibliografia
BERND, Zilá. Literatura e identidade nacional. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2011. 
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo Caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. 
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LOPES, Luiz Roberto. A Aventura dos Descobrimentos. Porto Alegre: Editora Novo Século, 1999. 
QUEVEDO, Júlio e ORDOÑEZ Marlene. A Escravidão no Brasil / Trabalho e Resistência. São Paulo: FTD, 1999.
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ZUBARAN Maria Angélica. Comemorações da liberdade de memórias negras diaspóricas. Anos 90 / Revista do Programa de Pós-Graduação em História. Porto Alegre, v.15, n. 27, Ed. UFRGS, 2008.
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