domingo, 15 de abril de 2018

ANGOLA | Recomeçar de novo

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Victor Silva* | Jornal de Angola | opinião

Paira uma enorme ansiedade entre os cidadãos, quanto à velocidade das mudanças que o país está a conhecer desde que se encetou este novo ciclo político.

Todos aspiram que os problemas sejam resolvidos num abrir e fechar de olhos, tipo milagre que fez nascer muitos dos nossos endinheirados, que se deitaram pobres e acordaram milionários. Sabe-se, contudo, que na vida a excepção não é regra, e que os milagres raras vezes acontecem.

Exigir que em seis meses se resolvam todos os desequilíbrios acumulados ao longo de décadas, é viver noutro mundo, noutra realidade, que nada tem a ver com panfletos e palavras de ordem vasculhadas à pressa na bibliografia política universal.

Vive-se um período de transição política que, como é evidente, tem reflexos na economia e noutros sectores, todos eles influenciados pelas posições de alguma coragem que têm sido assumidas pela nova direcção do país.

A transição está a decorrer de forma planeada, ordeira e pacífica, com os percalços próprios de qualquer processo e que até podem ser um teste à maturidade dos cidadãos, tantas vezes postos à prova pelo empolamento das circunstâncias que contrastam com a realidade que se vive.

A ansiedade gerada pela mudança vai no sentido da satisfação imediata das necessidades básicas da população, que aspira, legitimamente, por melhores condições de vida perante uma barreira de dificuldades que acompanha o seu dia-a-dia.

Se do ponto de vista meramente político, a transição segue o seu rumo sem sobressaltos de maior, temos um país a acontecer e que tem pressa nos efeitos da reforma, contrariando as barreiras dos que esperavam que tudo mudasse para que tudo ficasse igual ao que estava.O cidadão comum está completamente indiferente para as alegadas disputas intestinas, mas exige ver resultados palpáveis de propostas anunciadas em prol do desenvolvimento e de uma melhor distribuição da riqueza.

Parece elementar que só se pode distribuir melhor quando se produz e é difícil ver melhorias nesse sentido sem as adequadas medidas políticas. Elas têm sido tomadas, no que concerne ao combate à corrupção e ao fim da impunidade, sobretudo quando se sabe serem estes, entre outros, os grandes responsáveis pelo condicionamento da situação aflitiva da maior parte dos cidadãos angolanos.

É evidente que não basta moralizar a sociedade, nem constituir arguidos pessoas que se pensavam intocáveis, todas elas beneficiando do princípio da presunção de inocência, mas são sinais que são dados à sociedade no sentido de que nada será como dantes, e que por este caminho será possível mobilizar gente, que partilhe mais recursos para os diversos programas da governação.

Todos os dias somos confrontados com notícias que nos mostram o país real, com uma imensidão de obras por concluir, outras por iniciar e outras tantas simplesmente abandonadas com o único argumento da falta de dinheiro. Basta ver o estado das estradas nacionais para se ter uma ideia da situação que o país vive em termos de infra-estruturas e aquilatar as dificuldades na definição das prioridades nacionais.Simultaneamente continuamos a ter elevados índices de mortalidade,por falta de um plano de saúde alargado a toda a população, e com a educação, nos diferentes graus de ensino, num estado a raiar o descalabro. Isto apenas para falarmos de situações que são só parte do quotidiano difícil do País e que comprometem o seu desenvolvimento a curto e médio prazo.

A transição passa, também, pela redefinição das prioridades, de acordo com os propósitos políticos enunciados, não apenas nos aspectos políticos, mas também nos domínios económico e social, porque gerir sob uma manta curta pode propiciar desequilíbrios superiores aos que já existem.

Há, contudo, quem afirme que a manta não está assim tão curta, “até porque o preço do barril de petróleo está acima do esperado e que, por força disso, haverá mais receitas para o Estado”. Ledo engano, até no princípio básico que esse aumento, na prática, não significa mais dinheiro no imediato, e que mesmo fundamentado nesse diagnóstico de alguma leviandade seriam exigíveis alguns anos ‘dourados’ consecutivos, para se conseguir a desejada estabilidade.

Mas não será à espera desse ‘milagre’ que não se vão resolvendo alguns problemas essenciais. A doutrina agora é fazer mais com menos e por isso assiste-se à recuperação da malha rodoviária nacional, com estradas mais largas, tapete asfáltico mais resistente e um maior rigor na sua reabilitação, construção e, acima de tudo fiscalização. As infra-estruturas que permitem a dinâmica da economia estão a ser recuperadas e, com isso, a restabelecem-se os alicerces para que os investimentos cheguem mais facilmente e os empregos regressem numa base sólida e duradoura, sustentando o desenvolvimento de uma economia rural indispensável para combater as assimetrias do País, nunca resolvidas nestes 16 anos de Paz.

São alguns efeitos das novas políticas, das novas prioridades, que contemplam um maior controlo dos indicadores económicos, com a inflação a patinar sem derrapar, e a economia informal a deixar de ser quem determina o consumo e os rendimentos.

Não será exagero dizer que se está a recomeçar de novo, passe a redundância. E isso deriva de muitas interpretações, porque acima de tudo a capacidade de execução está aquém das expectativas e não é pessoalizando as situações que se conseguem as mudanças desejadas, porque elas levam tempo.

Há um programa de reajuste macroeconómico em curso, que aliado a outras medidas que têm vindo a ser tomadas estão a conduzir para uma maior estabilidade financeira, mesmo que os resultados ainda estejam longe de uma realidade que entusiasme.

*Diretor do JA
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