segunda-feira, 9 de abril de 2018

Lula e a difícil luta contra o dinheiro

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Fernando Calado Rodrigues | Jornal de Notícias | opinião

Lula da Silva tirou muitos brasileiros da pobreza nos dois mandatos em que foi presidente do Brasil. Colocou o Brasil entre os países emergentes no Mundo, com um crescimento económico extraordinário.

Já antes lutava para que os mais pobres tivessem acesso a alguns dos direitos que estavam reservados a muito poucos na sociedade brasileira. Como ter três refeições por dia, ou o acesso ao Ensino Superior. Foi o presidente do Brasil que mais investiu na saúde pública e que construiu mais universidades. Foi também o que conseguiu ter um maior nível de popularidade, sobretudo entre o povo. Em contrapartida, a maioria das classes elevadas da sociedade brasileira ficou incomodada com o facto de os mais pobres terem começado a ter uma vida melhor, a estudar, a fazer férias e até a viajar de avião.

Todo um passado político de luta pelos mais desfavorecidos e de denúncia da exploração pelos mais poderosos poderá ficar maculado pela acusação e condenação por um comportamento semelhante aos desmandos dos políticos que antes criticava. Se se vier a provar que ele beneficiou de algum privilégio, obtido em função da sua atividade política, será sempre ilegítimo e condenável. O problema é que acabou por apanhar uma pena de 12 anos de prisão num processo mais fundado em convicções do que em factos e em que não ficou clara a sua culpabilidade.

Uma coisa, no entanto, é evidente: não é fácil resistir ao encantamento do dinheiro e do poder. Ter riqueza ou ter poder, não são, à partida, um mal. A forma como são obtidos ou usufruídos é que pode corromper quem os possui.

O Papa Francisco já classificou o dinheiro como o "esterco do Diabo", recuperando uma expressão de Basílio de Cesareia, um padre da Igreja do século IV, que S. Francisco de Assis utilizava frequentemente. "Quando o dinheiro se torna um ídolo, comanda as escolhas do homem. E então arruína o homem e condena-o", disse o Papa numa audiência no dia 28 de fevereiro de 2015.

Enquanto o dinheiro é assumido como um meio ou uma oportunidade para fazer o bem, ele é ótimo. Quando se torna num objetivo a alcançar só para benefício próprio, então ele corrompe e degrada. O mesmo se pode dizer do poder, da fama, ou de tantos outros valores.

A prisão de Lula comprova que não é fácil combater o poder do dinheiro e a acumulação da riqueza nas mãos de poucos. Não é uma tarefa fácil assumir a defesa dos explorados e oprimidos, dos mais pobres. Mas mais difícil ainda é não perder o pé e não embarcar nos jogos dos poderosos, os quais estão treinados a esmagar e aniquilar quem não compactua com eles.

Lula, por ação ou por omissão, entrou nesse jogo. Sendo certo que ninguém pode estar acima da lei - nem mesmo um presidente que fez tanto bem a tantos pobres e ao Brasil -, também não é menos certo que todas as pessoas têm direito a um julgamento justo, imparcial e equitativo. A justiça tem de ser justa e proporcional - não pode ser uma arma usada por tribunais manipulados pelo poder económico e pelas elites que não viam com bons olhos o progresso que Lula estava a promover entre os mais desfavorecidos do Brasil.

Veremos o que a avaliação de futuros recursos pelo Supremo Tribunal Federal brasileiro nos poderá iluminar sobre este caso.

*Padre
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