segunda-feira, 23 de abril de 2018

Nova doença alastra-se em São Tomé e Príncipe: a celulite necrotizante

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Uma equipa médica multidisciplinar portuguesa da Fundação Calouste Gulbenkian, está a estudar várias hipóteses e cenários para determinar a origem da celulite necrotizante que se alastra em Sao Tomé e Príncipe.

Ainda não se conhece a origem da doença que inquieta as autoridades locais por constituir mais um problema de saúde pública em São Tomé e Príncipe. Várias hipóteses e cenários estão a ser estudados por uma equipa multidisciplinar portuguesa para determinar a causa e como combater a celulite necrotizante.

A componente laboratorial e clínica reforça a pesquisa, como refere Maria Hermínia Cabral, diretora do Programa Parcerias para o Desenvolvimento da Fundação Calouste Gulbenkian.

"Todos estão a fazer em prol do mesmo objetivo e todos coordenados, designadamente até através da componente clínica que cada uma das análises vai exigir", assegurou.

Celulite necrotizante resistente ao tratamento

A celulite necrotizante não é contagiante "ela manifesta-se por úlceras da pele, (sobretudo nos membros inferiores), que evoluem muito rapidamente de forma profunda e muito resistente ao tratamento" explica Maria João Simões, responsável da Unidade Laboratorial Integrada do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, que volta a São Tomé em maio.

"É uma doença que, seguramente, é causada por bactérias toxinogénicas. Ou seja, há toxinas responsáveis por esta evolução clínica tão rápida e tão alastrada. Tudo nos leva a crer que existem duas bactérias que são responsáveis por essa doença, mas não percebemos como é que essas bactérias se transmitem." diz.

Maria João Simões, avança ainda que a celulite necrotizante " não é transmissível. Aliás, houve evidências disso porque numa parte do estudo epidemiológico que se conhece, numa mesma casa não há mais do que um doente. Ou seja, parece não se transmitir aos convivas da mesma casa. E se fosse transmissível eu creio que o número de casos seria muitíssimo maior".

Resposta ao surto da doença

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a infeção já afetou aproximadamente 2550 pessoas desde setembro de 2016 até meados deste mês de abril. Não há registos de mortes reportados unicamente a esta doença.

O pico da infeção ocorreu entre setembro e novembro daquele ano, segundo Luzia Gonçalves, técnica de bio-estatística na Unidade de Saúde Pública Internacional do Instituto de Higiene e Medicina Tropical.

Esta responsável analisou os dados divulgados pela OMS e considera que, nos últimos meses, tem havido menos casos. "Os números têm oscilado bastante nas últimas semanas. A tendência tem sido de diminuição para cerca de 20 a 30 casos semanalmente», acrescenta.

"Sabe-se que os números dos finais de 2016 e início de 2017 são superiores aos que estão agora a acontecer durante estes primeiros meses de 2018", refere Luzia Goncalves.

De modo a reforçar o trabalho já efetuado pela OMS, decorre entre abril e maio um inquérito epidemiológico que visa recolher informações acerca das variáveis que possam ajudar a identificar os eventuais fatores de risco associados a esta doença.

"Aquilo que tencionamos fazer é alargar essa recolha de dados a um maior número de variáveis no sentido de poder, eventualmente, identificar algumas variáveis e mesmo algumas medidas de prevenção que as pessoas possam realizar no seu dia-a-dia com vista à prevenção da doença", precisa Luzia Gonçalves.

Campanha de sensibilização a doença

Para dar resposta ao surto da doença, o Governo são-tomense lançou um apelo internacional, na sequência do qual surgiu este projeto, coordenado pela Fundação Calouste Gulbenkian. Conta com o financiamento português e conhecimento técnico de entidades como o Instituto Gulbenkian de Ciência, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e o Instituto de Higiene e Medicina Tropical, bem como o apoio da indústria farmacêutica portuguesa.

A par disso, também será lançada uma campanha de sensibilização à população, em parceria com o Ministério da Saúde de São Tomé e Príncipe.

Segundo Maria Hermínia Cabral o "objetivo deste projeto é também dar contributos para essa campanha de sensibilização. Porque a campanha só faz sentido se tiver uma evidência científica também", indica.

 Com uma antibioterapia correta e, nalguns casos, com intervenção cirúrgica de limpeza da ferida, a evolução será positiva, segundo os conselhos de Maria João Simões. "Naturalmente, uma boa higiene pessoal e o ambiente cuidado são medidas generalistas recomendáveis", adianta. Mas, "as medidas de prevenção serão muito mais efetivas e eficazes depois de se conhecer melhor a epidemiologia e a causa da doença", refere a técnica do Instituto Ricardo Jorge.

João Carlos (Lisboa) | Deutsche Welle
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