domingo, 15 de abril de 2018

PESADAS PENAS NEOCOLONIAIS PARA ÁFRICA - I

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(ALERTA A TODOS OS PROGRESSISTAS DO MUNDO)

“Não temos de nos ajoelhar diante dos imperialistas”, palavras do Presidente António Agostinho Neto, a 29 de Março de 1979 – http://agostinhoneto.org/index.php?option=com_content&view=article&id=691:nao-temos-de-nos-ajoelhar-diante-dos-imperialistas&catid=48:discursos&Itemid=232

Martinho Júnior | Luanda 

1- O império da hegemonia unipolar não necessita duma doutrina ao nível da doutrina Monroe, enquanto recurso histórico, sócio-político e económico, a fim de moldar o seu relacionamento para com África no seu todo.

África viu-se livre muito tardiamente do colonialismo e do “apartheid”, um pouco mais de 150 anos depois das identidades americanas, pelo que a ênfase dos relacionamentos, particularmente depois da IIª Guerra Mundial, foi feita de forma progressiva, com os Estados Unidos a, pouco a pouco, substituir o papel das potências coloniais (todas elas membros da NATO), integrando-as cada vez mais nas suas próprias geoestratégias findo o colonialismo.

Podem-se distinguir três fases cronológicas das articulações postas em marcha de então para cá e com esse objectivo:

- De 1945 a 1990 (período do equilíbrio de forças com o campo socialista, vulgarmente tido como período da “Guerra Fria”);

- De 1990 a 2011 (período de prevalência do choque capitalista neoliberal em função do domínio absoluto do império em relação aos processos de globalização);

- De 2011 até ao presente (período de utilização tácita do caos e do terrorismo como justificação de presença militar a norte do Equador, enquanto se disseminou a terapia neoliberal a sul, na medida do surgimento dos emergentes e do início da globalização multipolar).

2- De 1945 a 1990 os Estados Unidos começaram por ter um relacionamento relativamente afastado e limitado em relação ao continente africano, mas aproximando-se gradualmente dele, desde que se aceleraram os processos de descolonização na década de 60 do século XX.

Até 1960 os interesses das multinacionais dos Estados Unidos foram-se instalando paulatinamente, emparceiradas quase sempre com os interesses das potências coloniais, ou recorrendo a sucursais já instaladas na Europa e mesmo em África (África do Sul), particularmente no que diz respeito às indústrias minerais extractivas, pelo que o “lobby” dos minerais foi determinante nessa época, em relação aos mecanismos de poder (democrata) nos Estados Unidos.

Sendo as casas bancárias da aristocracia financeira mundial originárias da Europa e de cunho anglo-saxónico, não foi difícil sobretudo em relação à África do Sul “alavancar” os relacionamentos, integrando as perspectivas do “cartel” do ouro, da platina e dos diamantes, na sequência do estro imperial de Cecil John Rhodes (financiado pela “casa Rothschield”) e aproveitando, intimamente associado a isso, a lenta decadência do império britânico.

Na África do Sul o surgimento do “apartheid” tem que ver, enquanto processo aparentemente contraditório a essa dinâmica, com o crescendo dos interesses da aristocracia financeira mundial eminentemente anglo-saxónicos perseguindo a trilha da British South Africa Company.

A exploração do cobre na Zâmbia e no Catanga resultaram também dessa aproximação, até por que a aristocracia financeira mundial, controlando o miolo das indústrias típicas da revolução industrial em ambos os lados do Atlântico Norte no após IIª Guerra Mundial, tornou-se vértice da pirâmide financeira global já nessa altura, quando sintomaticamente fez proliferar os “think tanks” de suporte e com a sensibilidade virada para seus próprios interesses no futuro, com vista a melhor os poder consolidar.

Assim em 1960 o Congo tornou-se num “dilecto alvo”, com a Bélgica a ser integrada de forma submissa na transitoriedade da colonização para a neocolonização, projectando-se a instrumentalização da “autenticidade” de Mobutu, ou seja, influindo directamente na superestrutura ideológica do estado vassalo e neocolonial do Zaíre.

Dominante de forma geoestratégica no Zaíre, os Estados Unidos realizaram as primeiras abordagens mais críticas em relação ao domínio sobre a água interior do continente, levando desde logo em atenção o facto de África possuir os maiores desertos quentes do globo precisamente para norte da bacia do Congo, que com os Grandes Lagos e os cursos do Zambeze e do Nilo constituem o manancial de vida fundamental para África.

Ganhou também a experiência inicial da aglutinação dum poder colonial tornado vassalo à sua geoestratégia, pois a Bélgica, uma das potências coloniais mais “versáteis” (até por que a coroa belga é um artifício singular na Europa), foi ficando à disposição dos dispositivos dos interesses imperiais.

A Bélgica preencheu assim rapidamente os quesitos úteis à aristocracia financeira mundial e seus interesses, desde as minas, às indústrias do aço, do cobre, do estanho, do alumínio e derivados, até à manufactura mais avançada das máquinas e máquinas-ferramentas contemporâneas.

Todo o circuito desde as minas aos produtos acabados, até às máquinas que se tornaram motoras da revolução industrial, foi duma forma ou de outra passando para o controlo das poderosas multinacionais tuteladas pela aristocracia financeira mundial instalada no vértice da pirâmide económica e financeira global em construção e só o bloco socialista tinha alguma capacidade de contraposição, influindo nos apoios à Luta de Libertação Nacional que se projectou pela via armada contra o renitente mas frágil colonialismo português, ele próprio subsidiário dos interesses do império.

Todo o exercício colonial português de 1961 a 1975, espelhou essa incontornável vassalagem e só a aliança secreta do fascismo português com o “apartheid” e o efémero regime de Ian Smith na Rodésia, impediu o seu mais rápido colapso.

De facto os interesses da aristocracia financeira mundial, que tinham uma poderosa mão no “cartel” do ouro, da platina e dos diamantes na África do Sul, determinavam a longevidade dos componentes da internacional fascista na África Austral. 

3- Com Mobutu, membro do “club 1001” (os oligarcas da natureza), instalado e consolidado no Zaíre, os Estados Unidos passaram a ter capacidade geoestratégica de intervenção multiforme em África, anda que se servisse de instrumentos mercenários por via da interposta bandeira da Bélgica, com todos os sentidos postos na água interior do continente, pois o Congo, com fronteira com outros 11 estados, era também uma preciosa plataforma em função da qual se poderiam irradiar todo o tipo de iniciativas sobre o cerne do espaço vital africano.

Desse modo os Estados Unidos adoptaram uma via distinta na abordagem geoestratégica em relação a África:

Enquanto na América os Estados Unidos haviam feito tudo para acabar com a colonização das potências europeias, adaptando para o efeito a doutrina Monroe como fundamento da expansão imperialista, em África, sem doutrina Monroe e levando em conta a Conferência de Berlim, (que havia imposto colocar todo o continente economicamente em dependência ultraperiférica, limitando-se ao papel de simples fornecedor de matérias-primas e mão-de-obra barata), determinou-se a poder substituir paulatinamente os vínculos económicos efinanceiros das potências coloniais, integrando-as todavia como instrumentos “domesticados” e aglutinados aos seus próprios interesses e funcionalidades.

Descolonizar nesse sentido abria todas as avenidas ao neocolonialismo que incluía a inteligência económica das potências europeias e mesmo os renitentes como o fascismo-colonialismo português (Estado Novo), foram ficando sem alternativas, ainda que procurassem produzir doutrinas híbridas como “Portugal e o futuro” do General Spínola.

De facto um spinolismo sem Spínola serviria às-mil-maravilhas depois do golpe de 25 de Novembro de 1975, para que os governos do “arco de governação” fossem subtilmente instrumentalizados, inclusive via NATO, nos relacionamentos com as ex-colónias portuguesas, ao mesmo tempo que, com processos abertos ou clandestinos, aproveitavam a inércia do Exercício Alcora recorrendo aos mais diversos nexos com o “apartheid” da África do Sul e alimentando até onde desse as sequelas históricas desse desempenho.

A aristocracia financeira mundial era já de tal modo poderosa, que as alternativas híbridas foram aglutinadas aos seus propósitos em África, enquanto outro sector de interesse era dinamizado pelas multinacionais afins: o petróleo.

Assim enquanto os Democratas nos Estados Unidos se tornavam dominantes em relação às indústrias minerais extractivas, instrumentalizando expedientes pelo interior profundo do continente, (estendendo o domínio da bacia do Congo aos Grandes Lagos), já os Republicanos passaram a dominar nas explorações das suas multinacionais de petróleo a sul do Sahara, na Nigéria, em Angola e um pouco por todo o Golfo da Guiné (“offshore”).

Os apoios mais conservadores como os democratas-cristãos, ou os social-democratas, desde os que integraram o Le Cercle, até aos“socialistas do centro-esquerda”, foram sendo assim paulatinamente atraídos à órbitra de conveniência, calcorreando o tapete da inteligência económica, fortalecendo os processos globais nos termos dum império de hegemonia unipolar que manteve para o efeito, sem obstáculos ou impedimentos maiores os desígnios da própria NATO.

As acções de algumas das redes “stay behind” da NATO em África, foram passando de clandestinidade em clandestinidade das plataformas europeias para as plataformas africanas, actuando sobre alvos pré-determinados, um manancial que viria a ser tido em conta quando o capitalismo neoliberal passou a ser motor na globalização segundo os parâmetros do império da hegemonia unipolar.

Com o neocolonialismo o império deixou de ter encargos com a administração dos territórios, permitindo-se assim “capitalizar os lucros” da aristocracia financeira mundial e a procurar velada ou abertamente, que fossem os que levaram sobretudo a cabo com armas na mão a luta de libertação em África e seus aliados socialistas, a “socializarem as perdas”, agravando ainda mais o fosso das desigualdades e aumentando os desequilíbrios sobre os africanos.

Em 1990 entrou finalmente em colapso a internacional fascista na África Austral, com o fim do “apartheid”, reduzindo-se em África o colonialismo ao Sahara ancorado a Marrocos, mas o poder do império da hegemonia unipolar chegava ao apogeu: provocou o colapso do socialismo, à excepção da resistente e heroica Cuba, enfraquecida ao ponto de ser obrigada a levar a cabo o “período especial”.

África ultraperiférica, apesar das vitórias do Movimento de Libertação sobre o colonialismo, o “apartheid” e algumas das suas sequelas, veria aumentar a pressão sobre suas próprias elites, com o objectivo de as formatar, agenciar, instrumentalizar e manipular ao mesmo tempo que se escancaravam as portas do “mercado global”, ou seja: as elites ficavam sem alternativas ao asfixiante domínio do império da hegemonia unipolar e a inteligência económica dos interessados abrigados pelo quadro da hegemonia unipolar fez o resto.

- Continua -

Martinho Júnior | Luanda, 14 de Abril de 2018

Ilustrações:
Cartoon relativo ao imperialismo em África;
Mapa do império britânico no mundo e em África;
Cecil John Rhodes, cartoon “do Cabo ao Cairo”;
O “copperbelt” zambiano-catanguês;
Capa de “A ascensão de Mobutu”, livro da autoria de Ludo de Witte.
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