sábado, 21 de abril de 2018

PORTUGAL | Eles nunca se enganam

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Pedro Silva Pereira* | Jornal de Notícias | opinião

Colapso de democracia, colapso da economia, colapso do Estado - foi assim, sempre à beira de um ataque de nervos, que a Direita foi descrevendo, em ondas sucessivas, os seus tenebrosos presságios sobre as reversões e outras generosidades do Governo das famigeradas "esquerdas unidas". Depois, à medida que a maioria de Esquerda foi tranquilamente aprovando orçamentos e apresentando resultados que desmentiam as diabólicas previsões de catástrofe, a Direita quis convencer-nos de que não se enganou em nada - o Governo, esse malvado, é que mudou de política.

Tornou a acontecer agora. Conhecidos os excelentes resultados de 2017 (2,7% de crescimento da economia, queda da taxa de desemprego para 7,8%, redução da dívida pública para 125,7% e redução do défice para 0,9%) lá veio outra vez a mesma conversa: os resultados só são melhores do que o previsto porque, "à socapa", o Governo mudou de política.

Está encontrada, portanto, a fórmula mágica da infalibilidade: aconteça o que acontecer, a Direita e os seus porta-vozes nunca se enganam, nem mesmo quando preveem uma catástrofe que não se confirma. Se os resultados, afinal, são bons, a explicação só pode ser uma: o Governo "fez batota" e mudou de política sem ninguém dar por isso.

A verdade, evidentemente, é outra. A Direita construiu todo o seu discurso de Oposição - e as suas previsões - com base num erro político fundamental: a ideia, mil vezes repetida, de que o PS, ao assinar os acordos à Esquerda, ficou "refém" dos partidos da "Esquerda radical", consentindo na descaracterização do seu programa, resignando-se a um despesismo irresponsável e virando, ele próprio, à Esquerda, a ponto de trair a sua identidade como partido moderado de centro-esquerda, fiel ao ideal europeu.

Naturalmente, a narrativa da radicalização do PS nunca passou de uma fantasia sem qualquer correspondência com a realidade. Como foi claro desde o primeiro dia, o Governo do PS sempre aspirou a conciliar a devolução dos rendimentos e o crescimento da economia e do emprego com o respeito integral pelos compromissos europeus de redução do défice e da dívida pública. Que tenha feito o que sempre disse que iria fazer só será motivo de surpresa para quem acabou por acreditar na sua própria mentira.

Ao contrário do que parece continuar a ser hoje a crença da Direita, nem o Centro político é terreno abandonado, nem mora lá ninguém que ainda se assuste com o "papão" das "esquerdas unidas". Quem acredita nisso é bom que se prepare para mais surpresas.

*Eurodeputado
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