domingo, 22 de abril de 2018

Portugal | NÃO HÁ CRISE!

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Afonso Camões* | Jornal de Notícias | opinião

O mais pueril dos enganos é aquele em que insistimos contá-lo a nós mesmos, tão bem que chegamos a acreditar nele. Como esse de todos negarem o bloco central, quando ele está aí, na sua máxima força. O problema é que há eleições no ano que vem, cada um pedala a sua bicicleta, e a campanha já está na estrada.

É certo que entre outros cometimentos em comum, e cada um para dentro dos seus respetivos partidos ou para os seus mais próximos, António Costa e Rui Rio já por várias vezes tiveram que elevar a goela para enxotar os fantasmas dessa mítica arca de Noé que juntaria PS e PSD num acordo de Governo. Rio teve de esticar o dedo perante a desconfiança de alguns dos seus maiores detratores internos para lhes dizer que "perdem tempo com o sexo dos anjos". E ontem mesmo, Costa veio dizer que "a ideia de um bloco central que junte os dois maiores partidos empobrece a democracia".

A liberdade de escolha é a assunção da cidadania. Acontece que ambos sabem que as grandes reformas que o país necessita e que a maioria dos portugueses reclamam - da saúde à sustentabilidade da Segurança Social; do sistema político e eleitoral à descentralização e ao ordenamento do território - precisam de consensos alargados e a soma de votos entre os maiores.

O novo líder social-democrata estendeu a mão e foi o primeiro a dizer ao que vinha. E aquele aperto de mãos, que as imagens mostram ser sincero, entre António Costa e Rui Rio não vale apenas pelos acordos que ambos selaram esta semana. Eles simbolizam o reabrir de uma porta de diálogo entre o PSD e o PS. Por ora, para lá da boa aragem na economia e do sucesso que a fórmula política caseira tem revelado no plano europeu, os dois anos de António Costa como primeiro-ministro são, afinal, a demonstração de que é possível, mesmo com um Governo minoritário, polarizar vontades à sua Esquerda e, agora também, à sua Direita. É o PS a servir de charneira e a gozar do melhor de dois mundos.

De um lado e outro agitam-se hostes e insinuam-se ameaças veladas sobre a possibilidade de uma crise política que o presidente da República, em jeito de aviso, já classificou "de todo indesejável". Assim será, pois, até ao final da legislatura, sob pena de quem a provocar se submeter ao risco de pagar cara a fatura eleitoral. Não é preciso um acordo de Governo para que mais acordos se façam e, sistematicamente, se afaste a ideia de um bloco central. Ele afinal existe, e dispensa bem o fantasma da coligação entre os dois maiores partidos. Reúne à sua volta a maior maioria de sempre e tem um nome. É Marcelo.

*Diretor do JN
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