sexta-feira, 13 de abril de 2018

PORTUGAL | Ser ou não ser Centeno

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Rafael Barbosa* | Portugal | opinião

Não foi ontem que as condições de atendimento na pediatria do Hospital do S. João (incluindo a oncologia) se tornaram "indignas" e "miseráveis". Não foi ontem que começou a degradação do Serviço Nacional de Saúde. Não foi ontem que se percebeu que há escolas a cair aos pedaços, e outras luxuosamente reformuladas mas sem dinheiro para pagar o ar condicionado. Não foi ontem que se confirmou que as linhas de caminho de ferro estão caducas, razão pela qual os descarrilamentos se vão repetindo. Não foi ontem que professores, trabalhadores da recolha do lixo, enfermeiros, funcionários administrativos ou polícias se afirmaram desmotivados.

Não foi ontem que o Estado se começou a tornar (ainda mais) disfuncional. A degradação dos serviços públicos começou com os excessos de Sócrates, que aceleraram a bancarrota; prosseguiu com a imposição vinda de fora (troika) e a crença vinda de dentro (Passos) relativamente à austeridade; e mantém-se com Costa e Centeno, ainda que o défice esteja melhor (e está), ainda que o país cresça (e cresce), ainda que haja mais emprego (e há), ainda que se reduzam os impostos sobre o trabalho (e reduzem). A degradação que começou com Sócrates, acelerou com Passos e se mantém com Costa não foi nem é ditada, no essencial, por razões ideológicas (menos Estado); foi e é ditada sobretudo por razões de emergência financeira (Estado falido). Numa frase, não havia, nem há, dinheiro para mandar cantar um cego.

Podemos deitar foguetes quando se anuncia um défice de 0,7% do PIB, mas não vale a pena ir apanhar as canas. Quando há défice, a dívida cresce. Pior, a dívida cresce porque não há dinheiro suficiente para pagar os juros dos empréstimos anteriores. Não fosse isso e poder-se-ia dizer que o país dá lucro (o tal saldo primário). Mas não dá. Nem há folga, como ontem argumentavam deputados bloquistas e comunistas, fazendo as contas à diferença entre os objetivos de défice de Centeno (0,7%) e o que estava combinado (1%): 800 milhões de euros. Não é folga, são 800 milhões que é preciso pedir emprestado. Pagam juros. Somam dívida.

É mau? Depende. Mais défice (e dívida) pode representar maior sufoco no futuro (às vezes ao virar da esquina), com corte de salários e pensões, com desemprego e precariedade laboral, com emigração. Menos défice (e dívida) representam uma vida mais difícil no presente, para os que precisam dos hospitais, tribunais, escolas, esquadras ou camiões de recolha do lixo. Como dizia ontem Centeno aos deputados, o dinheiro não é infinito. É preciso fazer escolhas. Ser ou não ser Centeno, eis portanto a questão...

*Editor-executivo
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