terça-feira, 22 de maio de 2018

Angola: Novo Governo, velhas práticas?

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Angola tem um novo Governo, mas nem tudo mudou: as manifestações continuam a ser reprimidas e as obras nas estradas são meras intervenções paliativas, denunciam analistas.

Angola tem um novo Governo desde setembro de 2017 e um novo Presidente: João Lourenço. O desejo de mudança é grande no país, mas, segundo o investigador Cláudio Fortuna, da Universidade Católica de Angola, há um longo caminho a percorrer uma vez que ainda se sentem os 38 anos de governação do ex-Presidente José Eduardo dos Santos.

"As marcas do passado dificilmente se apagam. Também estamos a dar ainda o benefício da dúvida [ao novo Governo], mas há alguns sinais que são repetitivos", comenta.

À semelhança do que acontecia antes do Presidente José Eduardo dos Santos deixar o poder, há manifestações que continuam a ser reprimidas. Em janeiro, a polícia desmobilizou protestos em Luanda que exigiam o fim da corrupção nas escolas angolanas. Em fevereiro, na Lunda-Norte, mais de 100 cidadãos foram detidos ao reivindicar a autonomia da região diamantífera das Lundas.

Angola "a duas velocidades"

A manutenção de alguns comportamentos característicos da antiga administração levam o analista Cláudio Fortuna a falar num país "a duas velocidades". "Tivemos há bem pouco tempo o problema das Luandas em que uma senhora pelo facto de participar numa manifestação viu a sua casa demolida e teve de se alojar num dos seus anexos. Isto quer dizer que as liberdades fundamentais ainda não são uniformes em todo o país”, denuncia o investigador.

Em fevereiro, cinco cidadãos foram detidos acusados de tentar assassinar o vice-Presidente da República, Bornito de Sousa. Na altura, Eugénia Lucas, esposa de um dos detidos, ficou perplexa com a atitude das autoridades. "O meu marido é chefe de família, as autoridades têm que ver esse assunto… O meu marido nunca roubou, o meu marido é um bom homem. Vivo com ele há 15 anos e tenho com ele cinco filhos. Nunca fez nada disso”, garantiu na altura a esposa do detido. Entretanto, os cidadãos foram colocados em liberdade e as autoridades descartaram a acusação de tentativa de assassinato, segundo a imprensa angolana.

Tapar buracos para as visitas do Presidente

As velhas práticas mantêm-se também noutras áreas. Nas obras públicas, por exemplo, era comum o anterior Governo mandar arranjar as estradas sempre que o Presidente fizesse uma visita de campo a um município ou província. Com o novo Executivo de João Lourenço, pouco mudou. "Nas visitas de campo que o senhor Presidente da República tem estado a realizar, notamos que há uma espécie de trabalho de campo antecipado, no sentido de o Chefe encontrar um cenário diferente daquilo que tem sido o quotidiano", observa Cláudio Fortuna.

Recentemente, o Presidente João Lourenço visitou o hospital Neves Bandinha, uma das poucas unidades de saúde vocacionadas para o tratamento de queimaduras. Nessa altura, os buracos nas estradas do "Bairro Popular" foram tapados e o lixo removido.

"Doze horas antes houve uma limpeza da zona. Limparam a área toda, deram um tratamento no saneamento, tiraram as zungueiras para que parecessem que as coisas estavam bem”, confirma o jornalista Jorge Neto, ouvido pela DW África.

Manuel Luamba (Luanda) | Deutsche Welle
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