sábado, 12 de maio de 2018

Macron: o “mito” desmascara-se e derrete

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Na França, até o velho jornalismo já zomba do presidente que dizia ser “apolítico”. Crescem as greves e a esquerda autêntica. Mas ainda falta muito para romper consenso conservador

Eduardo Febbro, no Página|12 | Tradução: IHU | em Outras Palavras

O humor com o qual o matutino Libération celebra o primeiro ano da presidência de Emmanuel Macron é um espelho do que todas as pesquisas de opinião refletem: “A direita tem, por fim, seu presidente”. O homem que em um momento disse “sou socialista” (2014) e que depois postulou à presidência com uma proposta “nem de esquerda, nem de direita” ou “ao mesmo tempo”, seja “de esquerda e de direita”, se afirmou como um dirigente percebido como de direita. O ritmo acelerado das reformas e seu corte liberal lhe valeram o qualificativo de “presidente dos ricos”, ao qual se acrescentou a outra sentença pronunciada pelo ex-presidente François Hollande, de quem Macron foi ministro de Finanças: “o presidente dos muito ricos”.

Tudo muito paradoxal nesta história política. Primeiro porque o próprio Macron é uma criação dos socialistas, depois porque seu “ao mesmo tempo” não resistiu ao exame da realidade. Uma pesquisa realizada pelo Cevipof (Centro de Pesquisas políticas da Universidade de Ciências políticas), junto à consultora Ipsos-Sopra Steria e Le Monde, oferece uma densa radiografia sobre o mandatário: 70% o veem como um “presidente de direita”, 55% dos franceses sentem que estes 365 dias de mandato foram “negativos”, ao passo que 45% o julgam positivo. Todos os indicadores o retratam como um Chefe do Estado pouco social.

Segundo a mesma pesquisa, 78% dos entrevistados opinam que naquilo que diz respeito à diminuição das desigualdades e o poder aquisitivo, a política do Executivo vai na direção incorreta. O qualificativo de “presidente dos ricos” também fica refletido na opinião majoritária: 76% estimam que sua política “beneficia as classes mais acomodadas”.

Ao longo deste ano transcorrido, o macronismo executou uma sinfonia de reformas de caráter pouco social: retocou o imposto aplicado às grandes fortunas (ISF) e, entre outras modificações, deixou fora dos gravames as ações da bolsa, recalculou e rebaixou o imposto dos lucros do capital, suprimiu um imposto pago pelas fortunas que se instalavam no estrangeiro, instaurado por Nicolas Sarkozy, em 2011, para lutar contra a evasão fiscal (a exit tax), diminuiu várias ajudas sociais, aumentou o imposto aos aposentados, flexibilizou, mediante decretos, o mercado de trabalho (com isso aprofundou a reforma da lei trabalhista realizada por François Hollande), reforçou os poderes do Ministério do Interior em detrimento do Judiciário, lançou uma reforma da Companhia Nacional de Ferrovias (SCNF), que acarretou em greves, modificou o funcionamento das universidades e fortificou a política migratória da França.

Tudo isto sem consentir na mínima negociação com os sindicatos. “O hemisfério esquerdo do presidente ainda dorme: somente o outro funciona plenamente”, escreve o semanário Le Nouvel Observateur. Para muitos analistas, a ação do presidente não é senão a exata aplicação do programa do Medef, o organismo que reúne o patronato francês. Com um presidente “nem de esquerda, nem de direita”, seus sonhos se tornaram realidade: cortaram as cargas sociais, facilitaram as demissões, empreendeu-se uma cruzada contra o déficit orçamentário, iniciou-se uma cura de emagrecimento dos funcionários do setor público e, globalmente, se desenhou uma política para fazer da França um refúgio atrativo para os capitais. O prêmio veio da revista Forbes. Em sua primeira página, com uma foto de Macron com pose de feliz ganhador da loteria, a Forbes intitulou: Leader of the Free Markets (Líder dos Mercados Livres). O macronismo tem irmandades evidentes com o macrismo na Argentina. Conforme o escreve o portal Mediapart: “o governo instalado por Emmanuel Macron encarna o caráter poroso entre as grandes esferas do Estado e os interesses dos grupos privados”.

O maior êxito da retórica “nem de esquerda, nem de direita”, que se traduz pela simpática definição de “extremo centro”, radica em que Emmanuel Macron aspirou quase tudo o que estava na direita e também na chamada “esquerda de governo”, entenda-se como a socialdemocracia do Partido Socialista. O PS busca a si mesmo entre um montão de espelhos fragmentados e a parte da direita moderada, que antes votava pelo partido do ex-presidente Nicolás Sarkozy, os Republicanos, não restou outro remédio a não ser ir disputar o território com a também convulsionada extrema-direita da Frente Nacional. Em boa medida, seus eleitores se ampararam sob o guarda-sol macronista e o mesmo fizeram os socialistas. Com o qual Macron reina no espaço do “ao mesmo tempo”, ou seja, pela antiga esquerda e direita de governo.

Esta configuração deixou no cenário a esquerda radical de Jean-Luc Mélenchon como principal frente opositora (França Insubmissa). Essa esquerda radical não conta, no momento, com a possibilidade de se tornar uma força de governo. Mélenchon mobilizou muita gente na rua contra a reforma trabalhista, por exemplo, sem ter sido capaz de fazer o Executivo cambalear. Emmanuel Macron acabou encarnando, um ano depois, uma espécie de direita liberal de corte autoritário. A decomposição do socialismo e dos conservadores dos republicanos facilitaram seu passeio anual como presidente.

Estes dois eixos opositores só lhe fazem cócegas. Macron foi um camaleão implacável. Realiza seu grande projeto eleitoral que consiste em “reformar a fundo” a França, sem se preocupar pela condição estrutural que, antes, dava tantas dores de cabeça a seus predecessores: a negociação com os atores sociais. A greve dos ferroviários persiste (está em seu segundo mês), muitas universidades continuam ocupadas, os aposentados denunciam o sacrifício de seu poder aquisitivo e, dias atrás, o presidente do grupo Air France renunciou porque foi incapaz de colocar fim à greve da companhia.

Emmanuel Macron encaminhou a negociação em grande parte por conta da fraqueza dos opositores tradicionais e da perda de eficácia do movimento sindical. Na realidade, seus adversários tradicionais se destruíram antes de poder enfrentá-lo. O PS se decompôs muito antes da eleição presidencial e a direita viveu um martírio semelhante. Só a esquerda radical prospera, embora, no momento, ainda não consiga ir além de seus territórios cativos. Os analistas franceses acordaram recentemente da letargia. Durante muitos meses, perguntaram-se o que era exatamente o macronismo. Não há mais mistério. É um habilidoso sedutor que irrompeu em um castelo para o pintar secretamente com as cores do mobiliário liberal.
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