domingo, 13 de maio de 2018

Timor-Leste/Eleições | Sucesso na governação dos novos-velhos eleitos, um sonho possível?

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Beatriz Gamboa, opinião

As eleições em Timor-Leste, das legislativas antecipadas, tiveram ontem o seu dia maior com o país no habitual frenesim eleitoral e centenas de milhares de eleitores a caminharem rumo às suas secções de voto, algumas longe de onde habitam. Em alguns casos o governo ainda vigente disponibilizou transportes. Impossível de beneficiar todos os que precisaram, é o costume dos governos do país, deixam a maior parte daquilo que pode beneficiar as populações a meio dos objetivos, registando-se frequentemente que nem a meio chegam porque nem lhes dão início. Que fique esclarecido que tal política tem acontecido com todos os governos e nem se pode afirmar que assim aconteça por falta de verbas orçamentais. Quais os destinos que levam tais verbas é que muitas vezes não ficamos sabendo.

É notícia pelo mundo que os resultados eleitorais em Timor-Leste já foram apurados provisoriamente e que a nova AMP – Aliança de Mudança e Progresso – atingiu a maioria absoluta, indo ocupar pelo menos 33 lugares do total de 65 no Parlamento Nacional. Os resultados são provisórios mas os vencedores absolutos esperam ainda conseguir mais um lugar, somando 34. O segundo partido político mais votado foi a FRETILIN, partido histórico que após o golpe de estado de 2006 nunca mais atingiu maioria absoluta. Sendo sempre a partir daí Xanana Gusmão o grande vencedor eleitoral, assim como vencedor noutras vertentes.

Para muitos instalou-se a surpresa com esta vitória de Xanana Gusmão – não duvidem os que a ele se aliaram que sem Xanana não conseguiriam fazer parte de uma expressiva maioria – mas tal surpresa não é justificável. Quem não sabia que os resultados eleitorais iriam bafejar Xanana Gusmão com esta maioria? Ou será que os ingénuos ou menos a par da influência preponderante do líder histórico e sistemático dirigente dos governos de Timor-Leste desconhecem que no país acontece o que Xanana Gusmão quer porque as suas capacidades e visionismo político lhe permitem antecipar a obtenção das condições para vencer e impor-se? Só distraídos ignoram o facto.

Temos então novamente Xanana na chefia do governo eleito e no Parlamento Nacional a maioria que representa a AMP que ele chefia. Taur Matan Ruak, ex-presidente da república, será o número dois do governo. Taur estará sempre predestinado a secundarizar Xanana. Foi eleito presidente da república anteriormente porque Xanana o apoiou, caso contrário não o seria. Os que “o pai” da nação maubere apoia são e serão sempre eleitos. Tal é o seu poder sobre o consciente e o inconsciente da maioria dos timorenses.

Xanana Gusmão atreveu-se inclusive a aliar-se também a um partido político de representação ínfima que possui por direção adeptos da anulação do país através da agregação à Indonésia, com uma autonomia para o território do leste, Timor. São os chamados autonomistas. Esses dirigentes fazem também parte do grupo de artes marciais que o professam como uma religião doentia e que em 1999 foram parte integrante dos assassínios e destruição do país no período que conduziu ao referendo de libertação da ocupação indonésia. É esse o Khunto, o partido que juntamente com o CNRT de Xanana e o PLP de Taur Matan Ruak, forma a AMP, a aliança vencedora destas eleições. Para Xanana vale quase tudo para vencer, de acordo com os seus critérios. Taur Matan Ruak vai aprendendo, tem em Xanana o professor de há décadas, o comandante, “o pai da nação”. E não é? Pelo visto e mais uma vez expresso em votos nestas eleições Xanana é mesmo isso. Quando falecer teme-se que a orfandade de Timor-Leste e dos timorenses seus aduladores e seguidores os deixem perdidos, desorientados, e que o futuro do país perca pelo menos a paz podre em que vai vivendo.

Apesar de tudo podemos dizer hoje que Timor-Leste é um país de sucesso na região em que está inserido e que é o país mais democrático e de maior liberdade no sudeste asiático. Se há quem veja Xanana como um mal será melhor verificar os índices positivos que são destinados ao país por organizações de direitos humanos, da imprensa livre e democrática, etc. Mas que há fome, há. Que a corrupção galga os índices de admissibilidade também. Que o fosso entre muito ricos e pobres continua a ser de dimensões escandalosas é facto. Que os classificados de carenciados abrangem mais de metade da população é indesmentível. E então Xanana Gusmão é um mal necessário? Quem diria.

Cumpriu-se a democracia em Timor-Leste em mais estas eleições. É indubitável. Cumpra-se a entrega do poder governativo e legislativo aos maioritariamente eleitos e que se lhes deseje o maior sucesso para bafejarem com medidas adequadas os imensos governados (por Xanana) que há tantos anos sobrevivem na miséria. Que Taur Matan Ruak, também eleito, não se esqueça do que declarava em prol desses miseráveis quando era presidente da república, nem que todos os eleitos se esqueçam das promessas fartas que fizeram ao longo da campanha eleitoral. O melhor dos mundos de justiça social, transparência e democracia para o país é o mínimo a desejar do desempenho destes novos (velhos) eleitos. Porque não? Todos têm direito a sonhar.

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