terça-feira, 26 de junho de 2018

Angola em busca de um relacionamento internacional que se impõe

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Martinho Júnior | Luanda

1- A Europa (e não só a União Europeia), directa e indirectamente está a sentir a necessidade de fluência na direcção do multipolarismo emergente que se vai distendendo desde o leste da Euro-Ásia, sobretudo em função da actividade da Organização para a Cooperação de Shanghai e tendo em conta a oportunidade do “belt and road”, a Nova Rota da Seda que vai integrando parceiros de forma articulada desde o Pacífico.

Essa Europa, que é sobretudo a Europa do Euro, não tem merecido da parte da diplomacia angolana a atenção ao nível do que é importante equacionar para Angola, um país que até passou a ter no Euro a sua moeda internacional de referência.

As diligências agora iniciadas pelo Presidente João Lourenço na direcção da Europa, conforme sua recente visita a França e à Bélgica, (que será complementada com a próxima visita à Alemanha – http://www.vanguarda.co.ao/2018/06/20/visita-de-presidente-angolano-a-alemanha-marcada-para-agosto/), visam colocar num momento oportuno a Europa, na expressão dos seus mais fortes componentes (França e Alemanha sobretudo) como uma prioridade dos relacionamentos externos angolanos, sem prejuízo de outros em curso, que se deverão necessariamente adequar às correcções.

Essa nova ordem do esforço diplomático angolano corresponde a “corrigir o que está mal e melhorar o que está bem”, slogan da própria candidatura do Presidente João Lourenço, ao mesmo tempo que incentivam os mecanismos e procedimentos de paz, desenvolvimento e democracia, prioritários para África, com particular atenção em Angola, nos dois Congo, na região dos Grandes Lagos e no Golfo da Guiné.

É evidente que em relação a essa Europa há razões sobejas de em África se manterem todo o tipo de reservas, tanto pior em relação a uma França que com Macron além do incentivo interno aos procedimentos capitalistas neoliberais, mantém acerrimamente os postulados da FrançAfrique no seu pior estilo, na África do Oeste e ao longo de todo o Sahel, até ao paralelo da República Centro Africana.

Integração e articulação é todavia um pressuposto multipolar em emergência e o lugar a preencher pela Europa nesse sentido, pode começar a ser finalmente preenchido, pelo que numa altura em que há indícios de alterações nos relacionamentos internacionais, a visita do Presidente angolano tem suporte e justificação.


2- A oportunidade das visitas do Presidente João Lourenço, vai beneficiar de forma recíproca as relações entre Angola e a União Europeia, num momento em que a Europa tende a reflectir sobre os laços de vassalagem que se arrastam desde a IIª Guerra Mundial no quadro dos procedimentos típicos do império da hegemonia unipolar e apesar das correntes de inteligência e militares que a prendem a uma NATO, que por seu turno começa a abrir brechas (https://morningstaronline.co.uk/article/nato%E2%80%99s-cracks-are-beginning-show)…

A Europa, sob os pontos de vista económico e financeiro (http://misionverdad.com/trama-global/adios-al-dolar-o-la-verdad-detras-del-g7), ao fluir na direcção leste no imenso continente euro-asiático, requalifica seus interesses, aptidões, conveniências e propósitos, obrigando a uma revisão dos parâmetros de sua defesa e segurança (incluindo uma revisão do seu papel no quadro da NATO) e um reequacionamento de relacionamentos com outros continentes e estados desses continentes.

Durante a última reunião do G-7 no Canadá (http://www.defenddemocracy.press/united-states-and-europe-now-two-strategies-collide/), assistiu-se à antecâmara dessa fluência, correspondendo ao que está a determinar a deriva da Turquia, ainda que seja um dos mais fortes componentes da NATO.

Chegar à Europa, chegar a França e Alemanha, no preciso momento do início dessa fluência, é um sinal de clarividência da diplomacia angolana e dos esforços do novo Presidente apostado em mudanças, ainda que numa época global imersa em todo o tipo de riscos.

Esse facto vai influir também na prioridade de segurança comum, conforme o que inspira por exemplo a iniciativa da criação e exploração dos dois Nord Stream no Mar Báltico (https://euobserver.com/foreign/141756), eles próprios componentes avançados, a oeste, dos conceitos inerentes à Nova Rota da Seda e África precisa urgentemente duma reformulação dos termos de segurança, uma vez que o caos, o terrorismo, o divisionismo e a desagregação, são frutos proibidos que só têm vindo a beneficiar os que persistem nos conteúdos do império de hegemonia unipolar e seus poderosos instrumentos em África, entre eles o USAFRICOM e a NATO (https://paginaglobal.blogspot.com/2018/06/a-guerra-psicologica-do-imperio-da.html).


3- Angola precisa por outro lado de levar muito em linha de conta a necessidade de iniciar a reformulação inteligente dos procedimentos de independência, soberania e segurança, em relação aos contextos e conjunturas em seu próprio território, mediante novos processos de integração e articulação.

Essa reformulação prende-se também à necessidade de se implementar uma outra doutrina, filosofia e ideologia a fim de aprimorar o carácter do próprio estado angolano e sua vocação de fiel depositário dos interesses de todo o povo angolano.

A primeira Rota da Seda que existiu em África, foi em tempo de Império Britânico e foi expressa de forma elitista pelo que foi aplicado nesse âmbito “do Cabo ao Cairo”, conforme o génio geoestratégico de Cecil John Rhodes (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ferrovia_Cabo-Cairo).

No século XXI o pensamento elitista aplicado desde então a África, por aquilo que ele acarreta de exclusivismo, deve ser alvo de crítica descolonizadora, anti-imperialista e ao mesmo tempo substituído pelo desenvolvimento das potencialidades inerentes aos processos de integração e articulação no continente.

Angola está a ser alvo de aplicações decorrentes do pensamento elitista que em África tem como base a África do Sul, algo que contraria os pressupostos da emergência multipolar, quando a própria África do Sul é o único membro africano do grupo BRICS (https://www.odiario.info/brics-reunidos-na-africa-do-sul/)!

Por essa razão, Angola tem tido imensas dificuldades em perceber as potencialidades duma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável que priorize fluências e linhas de força decorrentes da Região Central das Grandes Nascentes (https://paginaglobal.blogspot.com/2016/01/geoestrategia-para-um-desenvolvimento.html), pois está a ser deliberadamente atraída na sua atenção para as periferias, conforme o exemplo das motivações da criação dos Parques Naturais Transfronteiriços, no âmbito do KAZA-TFCA (https://www.kavangozambezi.org/index.php/en/).

É evidente que esses Parques Naturais são muito importantes para a paz, para melhor definir a sustentabilidade do desenvolvimento humano, para o turismo, para a protecção da fauna e da flora, até para reforço das medidas de respeito que a Mãe Terra merece, mas não são a prioridade máxima para os pressupostos básicos duma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável (http://www.redeangola.info/roteiros/marco-geodesico-de-angola/), conforme a atenção prioritária que se deve conferir ao perímetro circular da Região Central das Grandes Nascentes (cujo centro coincide praticamente com o centro geográfico do espaço nacional angolano – https://run.unl.pt/bitstream/10362/14542/1/TSIG0103.pdf).

Por outro lado, o verdadeiro motor por detrás da confluência de interesses que adensam o KAZA-TFCA, têm sido instrumentalizados pelo “lobby” dos minerais nos Estados Unidos, em estreita consonância histórica com os interesses do cartel dos diamantes, que se aplica em tirar proveito do processo Kimberley e do deslocamento do grosso dos seus interesses, investimentos e acção para o Botswana.

As abordagens no quadro das emergências multipolares facilitam mesmo assim um outro equacionamento dos fenómenos físico-geográficos correlacionados com os fenómenos humanos, algo que se a Europa começa a experimentar ao ser atraída a expedientes integradores e articulados; a Europa pode assim começar a contribuir para em África se abandonar o pensamento elitista que tem tanto a ver com colonialismo, império, “lobby” dos minerais e cartel dos diamantes, reforçando as integrações articuladas que tenham a ver com a sustentabilidade do desenvolvimento e com uma geoestratégia que é uma base potencial para alicerçar os mais amplos processos de inteligência e de segurança.

É também essa nova forma de focar e interpretar, que pode melhor equacionar os processos que conduzem à paz na RDC e nos Grandes Lagos, a imprescindível plataforma que abre as portas do desenvolvimento sustentável em África.

Depois das viagens do Presidente João Lourenço à Europa, têm a palavra os relacionamentos de Angola com os mais poderosos emergentes multipolares, uma espectativa que fica em aberto.

Martinho Júnior - Luanda, 23 de Junho de 2018

Imagens:
Presidente João Lourenço visita a França;
Presidente João Lourenço visita a Bélgica;
Visita ao Bié (a 26 de Fevereiro de 2017), do candidato à Presidência da República de Angola, João Lourenço – http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/mpla_desafia_a_oposicao);
Marco geodésico central de Angola, em Camacupa (reinaugurado a 9 de Julho de 2015);
Mapa de Angola com a localização do marco geodésico central.
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