segunda-feira, 18 de junho de 2018

FRANÇA | Greve em todas as frentes

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Rémy Herrera

Nestes últimos meses, desde a intensificação dos conflitos sociais em França, os media dominantes do país cumprem o seu papel na perfeição: eles difundem de modo permanente uma propaganda destinada a minar a moral dos trabalhadores em luta e transmitem servilmente os discursos mentirosos do governo do presidente Emmanuel Macron – mantido pela alta finança e ocultando sob a palavra de "reformas" uma vontade de destruição sistemática dos serviços públicos.

Depois de ter pretendido que o número de grevistas e manifestantes opostos às medidas neoliberais efectuadas em todas as direcções para diminuí-las, agora estes media anunciam "o fim próximo da greve dos ferroviários"... No entanto, os sindicatos mais combativos do sector ferroviário (CGD, SUD...) discutem actualmente a possibilidade de prosseguir o movimento na SCNF para além do calendário de greves intermitentes previsto inicialmente (28 de Junho).

É verdade que a simples leitura da lista das múltiplas greves que decorreram recentemente ou continuam a decorrer em França esgotaria o tempo de antena dos jornais televisivos! Os comentadores subordinados ao poder falam, a propósito destes conflitos, num "mal francês" que seria preciso erradicar. Um deputado da maioria presidencial chegou mesmo a falar em "grevicultura" (ou cultura da greve).

Quanto a nós, devemos ver nesta multiplicação das lutas sociais um motivo de optimismo. São nestes movimentos que os trabalhadores, sobretudo os mais jovens, se formam, reaprendem a construir os laços indispensáveis de solidariedade, estruturam as formas locais de organização, fazem surgir os líderes do futuro. Apesar das numerosas dificuldades encontradas, estas lutas serão ampliadas pouco a pouco e darão os seus frutos. É preciso ser paciente. A consciência de classe progride e, com ela, a coragem de trabalhadores cada vez mais numerosos que saem da inércia e da resignação.

Em certa medida alguns destes movimentos sociais são insólitos, ou mesmo históricos.

Exemplos:

O número de sindicalizados entre os empregados das lojas fast food aumenta fortemente. No McDonalds, grevistas – alguns deles lutaram mais de seis meses – reivindicam melhores condições de trabalho e de salários, mas denunciam também a evasão fiscal e a captação dos lucros praticada pelos proprietários do grupo. Empregados de outras cadeias não hesitam mais em revelar casos de exploração e de maus-tratos no trabalho. No rastro da mobilização de empregados dos supermercados franceses do Carrefour, o movimento estendeu-se à Bélgica, onde uma centena de lojas Lidl têve de fechar por causa de uma greve espontânea.

Desde há vários meses, os empregados dos estabelecimentos para pessoas idosas dependentes manifestaram-se para denunciar os salários irrisórios, as cadências de trabalho, o pessoal insuficiente, mas também as más condições de vida provocadas aos pensionistas e as despesas exorbitantes que lhes são exigidas.

Em Maio, os turistas puderam observar que os trabalhadores do lixo e dos esgotos de Paris estão mobilizados. Eles pretendiam que se reconhecesse a dureza das suas profissões e obter reformas antecipadas.

Em meados de Junho, agricultores bloquearam 14 refinarias de petróleo do país para protestar contra a decisão governamental de autorizar a importação de óleo de palma (da Indonésia, nomeadamente) destinado a alimentar as fábricas de bio-carburante, mas ameaçando a linha da colza francesa.

Sob a nova pressão neoliberal, o mal-estar social é tão profundo que atinge até mesmo profissões que, na memória dos observadores, jamais se manifestaram. Em Maio, um milhar de revisores oficiais de contas desceram à rua contra um projecto de lei que prevê a anulação da obrigação às pequenas e médias empresas de certificarem as suas contas por gabinetes de peritos em contabilidade (daí um deixar de ganhar para eles).

Um mês antes, magistrados e advogados estavam em greve para protestar contra o anúncio feito pelo Ministério da Justiça de "fundir" (na realidade, de encerrar) os tribunais habilitados a julgar os pequenos litígios (cujo pedido de indemnização não ultrapasse 5000 euros) com as jurisdições superiores, o que implicaria, além das reduções de orçamentos e de postos de trabalho, um justiça desumanizada e privatizada, dissuadindo os pobres de se empenharem em procedimentos judiciais para defenderem seus direitos.

Em Maio, foi a vez dos trabalhadores das Catacumbas (ossuário subterrâneo da praça Denfert-Rochereau), depois da Cripta arqueológica, de efectuar a mais longa greve jamais efectuada nos Museus de Paris. Os empregados reclamam condições de trabalho "dignas e equitativas", segurança para os agentes e para este sítio turístico, assim como um prémio por trabalhar no subsolo em condições difíceis. 

17/Junho/2018

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ 

Na foto: Os trabalhadores das catacumbas protestam
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