quarta-feira, 27 de junho de 2018

Migrações: Proposta que vai ao Conselho Europeu “é das coisas mais vergonhosas”


Marisa Matias apelou na terça-feira à coragem dos governos europeus para vetarem a proposta de criar mais campos de retenção de migrantes nos países às portas da UE.

As políticas migratórias na Europa e nos Estados Unidos foram o tema da sessão pública promovida pelo Bloco de Esquerda, que juntou esta terça-feira em Lisboa as eurodeputadas Marisa Matias e Ana Gomes e o comentador político Pedro Marques Lopes.

A poucos dias da realização da reunião do Conselho Europeu que tem na agenda a revisão da política migratória, com uma propostada Comissão para replicar o modelo dos campos de retenção de migrantes nos países que fazem fronteira com a UE, como já acontece com a Turquia em relação aos refugiados sírios, Marisa Matias afirmou que “a proposta que vai ao Conselho Europeu desta semana é provavelmente das coisas mais vergonhosas” alguma vez ali aprovada. “Espero que haja governos com a coragem de vetar documentos desta natureza”, defendeu Marisa, acrescentando que esse tipo de medidas contribuem para a “normalização de uma visão colonialista do mundo”, com a UE “a ajudar a este recuperação da visão colonial”.

Também Ana Gomes se referiu à proposta da Comissão como “uma maneira de externalizar as nossas responsabilidades”, lembrando que o acordo com a Turquia para receber financiamento em troca de reter migrantes e refugiados “foi imposto por alguns estados membros”.

Marisa Matias sublinhou ainda que “o Egito, Líbia, Argélia, Turquia não são países seguros” para os migrantes que a UE pretende deixar às suas portas nas chamadas “plataformas de desembarque regionais”. O que devia estar em cima da mesa do Conselho, defenderam Marisa e Ana Gomes, era a revisão das regras de asilo do Acordo de Dublin, que já teve luz verde do Parlamento Europeu e continua a ser adiada e bloqueada pelos decisores políticos governamentais.

Para a eurodeputada socialista Ana Gomes, o modelo do acordo da Turquia está a ser seguido pelo governo italiano em relação à Líbia, onde “fabricaram a ficção de que existe uma guarda costeira”. “O que há são milícias que controlam, detêm e torturam os migrantes”, afirmou Ana Gomes, acrescentando que “um terço do rendimento da Líbia vem do tráfico de seres humanos”, alimentado por “máfias do lado de lá e do lado de cá”.

“É a linha política do grupo de Visegrado que está a dominar as forças da direita europeia”

Estas medidas em debate mostram como o discurso oficial da UE já incorpora as ideias defendidas pelos governos xenófobos. “É a linha política do grupo de Visegrado que está a dominar as forças da direita europeia”, apontou Marisa Matias, alertando que “não há países que estejam imunes à naturalização do racismo e da xenofobia”.

“A Hungria criminalizou há uma semana a ajuda humanitária e não se ouviu uma palavra” dos responsáveis europeus, enquanto “o Partido Popular Europeu convive perfeitamente bem com o partido de Orbán na Hungria”, prosseguiu Marisa, apontando as responsabilidades e sobretudo a “incapacidade das famílias políticas que governaram a europa nesta reconfiguração profunda do espaço político e democrático”.

Marisa Matias contrariou ainda algumas das “mentiras que são reproduzidas diariamente”:  a “mentira da invasão”, quando “já temos fluxos migratórios há muito tempo, e houve a exceção da Síria, que foi o maior êxodo da história da humanidade”; a mentira de que as ONG que salvam migrantes no Mediterrâneo têm ligações às redes criminosas, “quando são as únicas que as combatem”; e a mentira de que é legal cada país limitar a sua participação no acolhimento, uma vez que se trata de uma “violação do direito internacional e dos acordos de proteção da vida humana”.

O colunista e comentador Pedro Marques Lopes também elencou alguns mitos à volta do tema da imigração, defendendo que “os imigrantes não constituem ameaça ao emprego na Europa” e que “o que está a contribuir para a desagregação das nossas sociedades não tem a ver com a imigração, tem a ver com a falta de expectativas”.

Para Pedro Marques Lopes, o centro da questão está “no bloqueio completo do elevador social que temos nas sociedades ocidentais”. “Em particular nos EUA, onde o american dream é a maior treta que alguma vez existiu”, acrescentou, concluindo que “a erguer muros entre nós e esses nossos irmãos concidadãos, não vamos a lado nenhum”.

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