terça-feira, 26 de junho de 2018

O Livro de bolso no Brasil: pioneirismo gaúcho

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“O livro traz a dupla delícia de a gente estar só e acompanhado ao mesmo tempo” / Mário Quintana (1906 -1994)
   
Muitos podem pensar que o livro de bolso não é uma invenção tão antiga. Trata-se de um erro.  Formato reduzido e com o preço acessível, o livro de bolso se popularizou na Europa do século 19, a exemplo da Coleção Charpentier na França, das edições Tauchnitz na Alemanha e dos livros oferecidos nas estações de trem da Inglaterra.

No Rio Grande do Sul, o livro de bolso, de acordo com alguns autores, remete-nos à poetisa cega Delfina Benigna Cunha (1791-1857), nascida em S. José do Norte (RS), na Estância do Pontal. Entre outras obras, ela é autora de Poesias oferecidas às senhoras rio-grandenses (1834), considerado o primeiro livro de poesia impresso no Rio Grande do Sul, reeditado, em 1838, no Rio de Janeiro.
   
No livro 50 anos de Literatura / Perfil das Patronas (1993), pág.25, organizado pela Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul (ALFRS), a escritora Marília Beatriz Cibils Becker registrou sobre a poetisa cega: “(...) seus livros são de pequeno tamanho, fáceis de manusear e delicados para a leitura das senhoras (livro de bolso)”.  Esta escritora ocupa, na ALFRS, a cadeira nº 1, da qual Delfina Benigna Cunha é a patrona.  Já o autor Eloy Terra, em seu livro As Ruas de Porto Alegre (2001), da Editora AGE, pág. 69, ao se referir à obra da poetisa cega, complementou: “ (...) Era um livro de pequeno formato. Cabia na bolsa das senhoras da sociedade.”

No Brasil, os primeiros livros de bolso, em série, são creditados à Coleção Globo, lançada, em 1933, pela Livraria do Globo de Porto Alegre. Totalizando 24 títulos, os livros mediam 11 x 16 cm. Em 1942, o seu editor e empresário Henrique Bertaso (1906-1977) lançou a Coleção Tucano. Infelizmente, ambas as iniciativas tiveram um sucesso apenas parcial. 
  
 Nos anos 60, diante do êxito de venda do “pocket book”, nos supermercados dos Estados Unidos, novamente a Editora Globo decidiu investir no livro de bolso. Ao lançar, em 1961, a Coleção Catavento, a editora manteve a sua proposta inicial de difundir os clássicos literários a preços populares, saindo, assim, do restrito circuito das livrarias consideradas, à época, elitistas.

Segundo A. Coutinho Leite, em seu artigo Difusão do livro de bôlso, publicado na revista literária Prêto e Branco, da Editora Globo, nº 3, de 1961, a Coleção Catavento  foi  colocada à venda, em Porto Alegre, em farmácias, confeitarias, supermercados e bares, sendo acondicionada em modernas estantes de madeira. Alguns números desta revista fazem parte do acervo do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, atualmente dirigido pela jornalista Elizabeth Corbetta.

A verdade é que o livro de bolso esperou algumas décadas, para conquistar um espaço definitivo no mercado, embora os esforços da Editora Globo, da Edibolso, em consórcio liderado pela Editora Abril, em 1971, seguido pelas Coleções Sagarana da José Olympio e Saraiva. Ainda, no final da década de 70, o presidente da Brasiliense Caio Graco Júnior e o editor da Companhia das Letras Luiz Schwarcz também adotaram o formato 11x 16 cm na Coleção Primeiros Passos.

Historicamente, é notório de que havia restrições quanto ao livro de bolso. Como os exemplares eram vendidos a preços mais baixos, o livreiro não se sentia atraído em receber margens menores por produto.

Finalmente, em fevereiro de 1997, com o lançamento de uma série, pela editora L&PM, composta de 12 clássicos da literatura universal, o “pocket book” iniciaria a sua consolidação no mercado. Ivan Pinheiro Machado - um dos fundadores da L&PM - declarou que a editora, em 2004, já havia alcançando a marca de 1.500 displays dos pockets “do Belém à avenida Paulista”. Em 2011, a editora atingia a venda expressiva de mais de dois milhões de livros de bolso em todo o Brasil.

Quanto a nossa tradicional Editora Globo, em 1986, foi vendida à carioca Rio Gráfica Editora. Fundada em Porto Alegre, em 1883, sua história permanece viva na memória cultural dos gaúchos. Entre novidades e tantos sucessos, a Editora Globo foi pioneira, no Brasil, ao introduzir no mercado o livro de bolso.
                                  
*Pesquisador e coordenador do setor de imprensa do Museu da Comunicação HJC

Texto publicado no jornal gaúcho Zero Hora de 13/06/2018

Bibliografia:
Hallewell, Laurence. O Livro no Brasil / Sua história. São Paulo:  Edusp, 1985

Imagens:
1-  Coleção: Collection of British Authors
Editora: Bernhard Tauchnitz, Alemanha /1902
2- Ora Bolas / O humor de Mário Quintana - Juarez Fonseca - L&PM  POCKET /2007 
3-- Delfina Benigna Cunha (1791-1857),
4-- Poesias oferecidas às senhoras rio-grandenses  (1838) / 2ª edição no Rio de Janeiro. 
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