domingo, 8 de julho de 2018

27 DE JUNHO EM CALUEQUE – II

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Martinho Júnior | Luanda  (continuação)

A batalha do Cuito Cuanavale estendeu-se durante 11 meses (entre Julho de 1987 e Junho de 1988) em toda a Frente Sul das FAPLA, abrangendo sobretudo as províncias do Cuando Cubango, Huila e Cunene… todavia, o soco da mão direita a que se referiu o Comandante Fidel de Castro (como o boxeur que com a mão esquerda o mantém e com a direita o golpeia” –https://resistir.info/cuba/cuito_cuanavale.html), no lado africano do Atlântico Sul está aparentemente meio-apagado da corrente da memória, pelo que não se comemorou em Angola, conforme a dignidade assim o determina, o histórico 27 de Junho de 1988 em Calueque, 30 anos depois do acontecimento!...


4- O golpe da aviação a 27 de Junho de 1988 em Calueque, que fez agora 30 anos, teve uma outra repercussão: todas as principais bases da South Africa Air Force (SAAF) no norte da Namíbia ocupada pelo “apartheid”, ficavam à mercê dos reforços cubanos que incluíam tropas de elite, além da, nomeadamente, superioridade aérea imposta pelas bases da Cahama e de Xangongo, da cobertura dos radares de detecção recentemente instalados e do raio-de-acção dos MIG-23 acabados de chegar ao teatro operacional.

As bases assim neutralizadas eram Ruacaná, Oshakati, Ondângua, Grootfontein e Rundu, todavia a cobertura dos radares e as contra-medidas electrónicas passaram, entre outras capacidades operacionais, a permitir a detecção de engenhos aéreos de todo o tipo e das comunicações no teatro da “border war” e na profundidade dos territórios da Namíbia e do Botswana, possibilitando inclusive a detecção dos drones Seeker I, indispensáveis para guiar o tiro dos canhões de longo alcance G-5 e G-6 e para apoio em operações especiais.

Os inovadores drones Seeker I, produzidos pela indústria de armamento sul-africana (tal como os canhões G-5 e G-6, assim como os blindados Ratel e Casspir), foram na sua categoria dos primeiros veículos aéreos não tripulados utilizados em campo de batalha à escala global e não cumpriam missões de bombardeamento pois esses modelos ainda não haviam sido projectados e desenvolvidos para esse efeito.

A mobilidade aérea das SADF simbolizada pelo emprego dos Seeker I, um drone que teve um importante papel na “border war”, foi finalmente perdida conforme o exemplo de Calueque, pelo que a “espinha dorsal” das forças terrestres, a Divisão Mecanizada 61, teve de sair do campo de batalha retirando-se para território da Namíbia, não mais voltando a entrar em Angola.

Sem o domínio do espaço aéreo, com os MIG-23 recém-instalados na Cahama e em Xangongo e com o impasse no Cuito Cuanavale accionado o “travão” do Triângulo do Tumpo, tudo isso, associado ao bloqueio cada vez mais efectivo da venda de armamentos ao“apartheid”, as SADF afundar-se-iam sem outra alternativa no Sudoeste Africano ocupado, pelo que a única saída passou a ser as conversações políticas que iriam trazer a oportunidade às independências da Namíbia, do Zimbabwe e ao colapso do próprio“apartheid” na África do Sul!...

Todo o sistema das SADF empenhado no Sudoeste Africano ocupado e Angola adentro, ficou neutralizado e sob a esgrima dum pré-anunciado colapso.


5- A “visão” da batalha do Cuito Cuanavale, que efectivamente ocorreu em toda a Frente Sul das FAPLA conforme a descrição do Comandante Fidel, com Fidel a desempenhar, conjuntamente com o Presidente José Eduardo dos Santos, um papel decisório de primeira grandeza sobre o amplo teatro operacional de então, tem sido ideológica e interpretativamente corroída, desde que o capitalismo neoliberal multiplicou impactos em Angola!

Ideologias social-democratas ou cristã-democratas de recurso, em “secreta” (?) conformidade com o espírito do “Le Cercle”(http://www.gnosticliberationfront.com/le_cercle.htm) dos “Jogos Africanos” de Jaime Nogueira Pinto (http://artoliterama.blogspot.com/2009/05/jogos-africanos-de-jaime-nogueira-pinto.html) e no rescaldo do Exercício Alcora, sob a plácida concordância de alguns generais angolanos da actualidade e de algumas sensibilidades com expressão em partidos e nas próprias FAA, “estilhaçaram” a Frente Sul por vários “segmentos”, (Cuito Cuanavale, Triângulo de Tumpo, Tchipa, Calueque e Ruacaná), como se essas posições não fizessem parte duma única geoestratégia, como se os braços, o que parou o golpe inimigo e o que socou em contra-ataque, não fizessem parte do mesmo corpo!

“Esquecem” também, deliberadamente, das justas razões evocadas por Cuba por não participar no ataque contra Mavinga, nas condições em que ele foi feito!

O objectivo era claramente destruir a visão geoestratégica do conjunto de operações, tão singular quão sinteticamente exposta pelo Comandante Fidel e fazer o que os “ocidentais” sempre souberam fazer em África: dividir para melhor reinar, neste caso para reinterpretar de acordo com as suas próprias ideologias de recurso, excluindo, marginalizando, ou diminuindo o papel da aliança do Movimento de Libertação em África com Cuba Revolucionária, quando afinal foi sua sábia interpretação geoestratégica que tanto salvou na batalha do Cuito Cuanavale!

Tudo isso tem sido feito para melhor corresponder à “mudança de época” e enquadrar os esforços do cartel dos diamantes espelhados nas políticas de instalação dos Parques Naturais Transfronteiriços de Paz (KAZA-TFCA): o sudeste angolano é para o cartel “um caso aparte”!

Essa “visão” (http://www.theconmag.co.za/tag/rhodes-mandela-foundation/) integra os conceitos elitistas que se expandem e se difundem a partir da África do Sul, que cooptaram até o próprio Nelson Mandela, quando se decidiu na criação da iniciativa“Rhodes-Mandela Foundation” (https://www.africanamerica.org/topic/mandela-clinton-celebrate-with-new-rhodes-mandela-foundation)!

Vale a pensa verificar como, através de José Ribeiro (http://jornaldeangola.sapo.ao/reportagem/a_derrota_do_apartheid_em_tchipa_e_calueque), os angolanos propensos à “abertura” da lavagem da história “competem” com o historiador Piero Glijeses, não citam o protagonismo do Comandante Fidel e se referem aos “segmentos” da batalha de Cuito Cuanavale na Frente Sul, ao invés de fazer a justa abordagem geoestratégica que levou à vitória:

“Nova frente de guerra.

Assim começou a desenhar-se a batalha decisiva no Cunene. Face à retirada das unidades sul-africanas do Cuando Cubango para o Sudoeste, a força conjunta FAPLA, FAR e PLAN começou a preparar-se para o embate.

Prevendo esse facto, o Presidente José Eduardo dos Santos, Comandante-em-Chefe das FAPLA, tinha já decidido demarcar as duas frentes. A demarcação entre a Frente Sudeste, a Leste do rio Cuito, da Frente Sudoeste, a Oeste do mesmo rio, foi uma decisão de risco tomada pelo Presidente, mas que se mostrou acertada, pois produziu, primeiro, a vitória das FAPLA contra as SADF e as FALA no Triângulo do Tumpo.

Depois isso serviu de suporte à criação da Frente Sudoeste. Essa medida foi importante para salvaguardar a integridade territorial e a soberania de Angola.

Desde 1984 que as FAPLA já se forjavam a resistir na Frente Sudoeste, ocupando uma linha de contenção ao avanço das SADF para o norte que passava por Lubango, Tchibemba, Cahama, Humbe, Xangongo, Môngua, Cuvelai, Cassinga e Jamba Mineira, com muitas forças e meios.

Em Dezembro de 1987, o contingente de reforço cubano, constituído pela 50ª Divisão de Infantaria, chegou ao Porto do Lobito transportado pelos navios Benito Juárez e I Congreso. Os cubanos estavam inicialmente concentrados numa linha defensiva ao longo da linha-férrea do Namibe, via Matala até ao Cuvango.

Mais tarde, por sua conveniência, foi concebida uma linha defensiva que se estendia do Menongue ao Namibe, mas nunca no Cuito Cuanavale. (o sublinhado é meu).

Os seus desdobramentos no Sul foram todos efectuados a Oeste do rio Cuvango (200 Km de Menongue), já que este rio constituía uma protecção natural ao seu flanco esquerdo contra qualquer ataque sul-africano.

Entre Janeiro e Março de 1988, enquanto os cubanos e a SWAPO consolidavam posições por trás da linha defensiva das FAPLA, estas,sozinhas, na Frente Sudeste, travaram todas as investidas das tropas do apartheid e de Savimbi desencadeadas com as Operações Hooper e Packer, derrotando-as de forma retumbante a 23 de Março desse ano.

Só depois deste feito heróico das FAPLA é que as tropas cubanas começaram a ir na direcção Sul, tendo a certeza de que os sul-africanos, completamente debilitados, não iriam reagir de forma violenta a esta movimentação, por estarem mais preocupados com a integridade das suas unidades em retirada do Cuito Cuanavale.

Entre Janeiro e Abril de 1988, cerca de 3.500 cubanos foram enviados para trás do sistema defensivo da 5ª Região Militar das FAPLA (Huila, Cunene e Namibe). Por seu lado, o PLAN contava com três batalhões mistos e estabeleceu bases na Cahama, Xangongo e Mupa.

A Base Aérea da Cahama, símbolo da resistência ao invasor, foi alargada para permitir que o maior número de aviões Mig-23 operasse a partir dali e a pista do Aeródromo de Xangongo foi aumentada em 542 metros, passando a ter 2.414 metros e obter o estatuto de aeródromo de manobra e basificação do Regimento Aéreo de Caça do Lubango.

Depois da derrota que sofreram no Cuito Cuanavale, os sul-africanos olharam para este dispositivo na Frente Sudoeste com muita preocupação. Significava uma séria ameaça para o apartheid. As informações que lhes chegavam do teatro de operações na Frente Sudoeste confirmavam que os cubanos, cientes de que os angolanos tinham sido imbatíveis no Cuando Cubango, começaram a preparar-se para entrar em acção antes que os sul-africanos pudessem reorganizar as unidades derrotadas pelas FAPLA no Tumpo para serem transferidas para Sudoeste.

Para os sul-africanos, uma operação lançada a partir do território da Namíbia, naquela altura, cruzando a fronteira em direcção a Angola, era impraticável, particularmente quando se vivia já um clima de desanuviamento internacional.

A 15 de Março de 1988, a possibilidade de se realizarem negociações foi analisada à pressa pelo ministro sul-africano Pik Botha e pelo Assistente do Secretário de Estado norte-americano para os Assuntos Africanos, Chester Crocker. Crocker deslocou-se também a Luanda. Ao mesmo tempo, os sul-africanos tentavam conversar com os soviéticos.

A 28 de Março, Angola confirmou que aceitava que os EUA mediassem as conversações com a África do Sul e que já tinha sido redigido um projecto de acordo para a cessação dos combates entre as FAPLA e as SADF, a retirada das tropas estrangeiras do território de Angola e a aplicação da Resolução 435/78 do Conselho de Segurança da ONU, que determinava a  independência da Namíbia. 

Com este pano de fundo, a única preocupação dos sul-africanos, na sua mentalidade racista, era afastarem a imagem vergonhosa de terem sido derrotados pelas FAPLA no Triângulo do Tumpo, tentando atribuir os louros aos cubanos. Em simultâneo procuravam, com o compadrio dos EUA, não perder tudo.”


6- A manobra ideológica e de reinterpretação da evolução da situação na Frente Sul das FAPLA nos anos de 1987 e 1988, não passou despercebida a Cuba, que muito legitimamente recorda em “O Carnaval de Cuito Cuanavale” antecedentes que por razão lógica de apreciação, não tiveram o concurso directo das Forças Armadas Revolucionárias:


“Após várias tentativas fracassadas, o alto comando do exército angolano resolveu empreender, nesse ano, a Operação Saudando Outubro, que incluiu entre seus objetivos a libertação de Mavinga, uma posição controlada pelos bandos armados de Jonas Savimbi.

Desta vez, tal como nas incursões anteriores, o comando cubano alertou sobre a complexidade logística de tal manobra, sem descartar a possível intervenção direta das unidades regulares do exército sul-africano, em apoio à Unita.

Os avisos foram confirmados.

Assim que as tropas angolanas começaram a cruzar o rio Lomba, a norte de Mavinga, o inimigo impediu o avanço das tropas da FAPLA, que foram forçadas a recuar, perante o perigo de um completo colapso.

Um propósito claro encorajou os invasores: tirar proveito da posição vantajosa alcançada no campo militar para impor suas condições na mesa de negociações, inclusive exigindo a retirada total das tropas cubanas de Angola.

Tais objetivos diplomáticos claros tiveram um forte apoio militar, baseado em golpes de aviação e artilharia, cujo fogo submeteu a um feroz assédio as brigadas da FAPLA que tinham passado à defesa a leste de Cuito Cuanavale.”

É evidente que ao engodo de atacar Mavinga, criado pelo cartel e seus vínculos no terreno, a fim de salvaguardar a continuidade da internacional fascista na África Austral, (no sudeste o teatro de operações ocorreu sobre a área de prospecção da De Beers e sobre as kimberlites que jazem até hoje inertes, à espera dos interesses que, com origem na África do Sul, são tão dominantes no Botswana e espreitam a janela mais a norte), justifica hoje a “lavagem cerebral” a que se propõem os ideólogos oportunistas da ocasião!

Mais à frente, o mesmo artigo lembra:

“Foi neste ponto do conflito que o governo angolano solicitou o apoio de Cuba para reverter a complexa situação criada e evitar o desastre militar que se aproximava, com consequências imprevisíveis para o destino dessa nação africana irmã.

Naqueles dias, a Missão Militar Cubana em Angola era o centro da implementação de importantes decisões adotadas em Havana, cujas autoridades, em 15 de novembro de 1987, concordaram em enfrentar o desafio e dar uma forte resposta.

A máxima liderança cubana aconselhou não usar as tropas que defendiam a linha do Namibe-Menongue, mas aplicar uma variante mais ousada: reforçar o contingente com forças e meios enviados de Cuba, incluindo os melhores pilotos.

Em 5 de dezembro, um grupo de trabalho do Estado Maior da Missão Militar partiu para a área de operações, cujo chefe, o então general-de-brigada Álvaro López Miera, tinha a tarefa de organizar o comando e fortalecer a fraca defesa.

Colocar ordem era uma tarefa colossal sob fogo inimigo, que tinha como alvo fixo a cidade de Cuito Cuanavale, com uma obsessiva preferência pelo aeroporto e a ponte localizada muito próxima da confluência dos dois rios que dão nome ao local.

Após os primeiros cubanos, no final do mês chegaram outros 200 assessores, em várias especialidades, que se deslocaram para as brigadas da FAPLA duramente atingidas pelas ações armadas, que tinham como objetivo desmoralizar os soldados.

Esses oficiais e combatentes assumiram o enorme desafio de fazer causa comum com os angolanos e parar o ímpeto da maquinaria racista, que não perdeu um minuto para lançar seus ataques e tentar aniquilar o grupo atolado na área.”

Em “Quatrocentos e noventa e três dias em Cuito Cuanavale” (http://m.redeangola.info/memorias-cubanas-da-batalha-de-cuito-cuanavale/), o mito da não presença cubana no sudeste da Frente Sul das FAPLA fica desfeito, mas os ideólogos angolanos no seu afã, 30 anos depois dos acontecimentos, ficam muito mal na foto por via de sua deliberada e complacente filtragem neoliberal e assimilada, algo que ocorreu depois das “Conferências Militares” levadas a cabo no ISEM em Angola, por “filtros” portugueses da NATO, entre eles Nuno Rogeiro, Miguel Freitas da Costa e Jaime Nogueira Pinto, conforme foto publicada em “Jogos Africanos”!...

Continua

Martinho Júnior - Luanda, 3 de Julho de 2018

Imagens:
- Mapa da Frente Sul das FAPLA, de acordo com “Cuito Cuanavale revisitado” – https://resistir.info/cuba/cuito_cuanavale.html;
- Mapa referente ao espectro das acções do “apartheid” na Namíbia e em Angola;
- O Seeker I, numa foto tirada em área operacional das SADF;
- “Quatrocentos e noventa e três dias no Cuito Cuanavale”, explica a presença cubana no esforço armado no sudeste de Angola, desmentindo algumas versões postas a circular por correntes oportunistas de carácter neoliberal no Jornal de Angola;
- Foto publicada nos “Jogos Africanos”, do cristão-democrata e membro do “Le Cercle”, Jaime Nogueira Pinto, com a seguinte descrição: “Conferências militares, ISEM, Angola. O Nuno Rogeiro, o Miguel Freitas da Costa e eu com um grupo de oficiais e participantes nos cursos do ISEM e o adido militar da embaixada de Portugal. O segundo a contar da esquerda é o general José Maria. Os cursos foram integrados na cooperação técnico-militar portuguesa”.
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