quinta-feira, 5 de julho de 2018

Angola | 27 DE JUNHO EM CALUEQUE – I

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Martinho Júnior | Luanda 

A batalha do Cuito Cuanavale estendeu-se durante 11 meses (entre Julho de 1987 e Junho de 1988) em toda a Frente Sul das FAPLA, abrangendo sobretudo as províncias do Cuando Cubango, Huila e Cunene… todavia, o soco da mão direita a que se referiu o Comandante Fidel de Castro (como o boxeur que com a mão esquerda o mantém e com a direita o golpeia” –https://resistir.info/cuba/cuito_cuanavale.html), no lado africano do Atlântico Sul está aparentemente meio-apagado da corrente da memória, pelo que não se comemorou em Angola, conforme a dignidade assim o determina, o histórico 27 de Junho de 1988 em Calueque, 30 anos depois do acontecimento!...

1- A partir de Março de 1988, fez agora trinta anos, as forças das FAPLA, das FAR (Forças Armadas Revolucionárias, de Cuba) e do PLAN (o braço armado da SWAPO da Namíbia), desencadearam uma poderosa ofensiva a partir do sul da província da Huila e em direcção à fronteira, com o propósito de vencer em definitivo a presença do “apartheid” em Angola e na Namíbia ocupada, obrigando a África do Sul a sentar-se à mesa de conversações…

Essa ofensiva visou taticamente “desempatar” a situação a leste dos dispositivos militares angolanos no Triângulo do Tumpo e foi projectada para, geo-estrategicamente e tirando partido da superioridade aérea (invertendo a correlação de forças), dar um sinal claro ao “apartheid” que iria sofrer pesadas consequências, ainda que tivesse em sua posse seis bombas atómicas para despejar sobre as forças que compunham a aliança em prol do Movimento de Libertação Nacional em África, se não entendesse que era premente para as instituições racistas sul-africanas encontrar soluções políticas de fundo em toda a África Austral e na própria África do Sul.

Nunca antes do “soco” em Calueque, as South Africa Defence Forces haviam experimentado tantas contrariedades juntas, contrariedades que seriam as definitivas e conduziriam ao próprio fim do “apartheid”!

Os conceitos operacionais aplicados em toda a Frente Sul das FAPLA, correspondem a um projecto integrado de ofensiva de que alguns historiadores fiáveis transmitem a noção, todavia os “lavadores da história” trinta anos mais tarde, imbuídos de ideologias neoliberais, social-democratas ou cristã-democratas, reinterpretam a ofensiva polvilhando o terreno onde se registaram o encadeado de acontecimentos, em sucessivas batalhas (Cuito Cuanavale, Triangulo do tumpo, Calueque, Tchipa, Ruacaná…), como se cada uma das acções não resultasse dum processo integrado de conceitos.

É evidente que com isso dão cobertura a interesses que derivam de interpretações elitistas e estruturalistas que ficaram como resíduos umbilicalmente presos ao colonialismo e ao “apartheid”, desde as estimuladas pelo “Le Cercle” até às derivadas do Exercício Alcora e fazem o jeito de “aproximar-se” às interpretações dos historiadores sul-africanos que apenas se circunscreveram aos combates do perímetro do sudeste angolano, seguindo a trilha e a perspectiva das South Africa Defence Forces!

É evidente que esse tipo de sagas que demonstram quão longe progrediram os processos de assimilação em Angola desvirtuando sua própria identidade, é o que mais interessa ao cartel dos diamantes, pelas mesmíssimas razões, corroborando a sua iniciativa expressa nos projectos transfronteiriços do KAZA-TFCA (https://www.kavangozambezi.org/index.php/en/)!

2- A 23 de Março de 2013 o Cubadebate publicou uma incontornável síntese analítica do historiador Piero Gleijeses sobre a batalha do Cuito Cuanacale de acordo com a visão integrada de toda a Frente Sul das FAPLA, onde duma assentada se reflete sobre a correlação de forças em termos políticos, diplomáticos, de geoestratégia militar e de inteligência, que redundaram na derrota definitiva do “apartheid” institucional (http://www.cubadebate.cu/opinion/2013/03/23/cuito-cuanavale-batalla-que-termino-con-el-apartheid/#.VvgGFj72Zy0)!


Em relação ao 27 de Junho de 1988, Piero Gleijeses foca, como em toda a sua investigação, fundamentada e esclarecidamente os acontecimentos da ordem de batalha em sua época.

… “La gran pregunta era: ¿se detendrían los cubanos en la frontera?

Para obtener una respuesta a esta pregunta, Crocker fue a buscar a Risquet: ¿Cuba tiene la intención de detener su avance en la frontera entre Namibia y Angola?

Risquet contestó: si yo le dijera que no van a detenerse yo estaría profiriendo una amenaza. Si yo le dijera que van a detenerse yo le estaría dando un meprobamato y yo ni quiero amenazar ni quiero darle un calmante, lo que he dicho es que solo los acuerdos sobre la independencia de Namibia pueden dar las garantías.

Al día siguiente, 27 de junio de 1988, MIG cubanos atacaron posiciones de las SADF cerca de la presa de Calueque, 11 kilómetros al norte de la frontera de Namibia.

La CIA informó que: la manera exitosa con que Cuba ha utilizado su fuerza aérea y la aparente debilidad de las defensas antiaéreas de Pretoria subrayaban el hecho de que la Habana había logrado la superioridad aérea en el sur de Angola y en el norte de Namibia.

Unas pocas horas después del ataque exitoso de los cubanos, las SADF destruyeron un puente cercano a Calueque sobre el río Cunene.

Lo destruyeron —la CIA opinó— para dificultar a las tropas cubanas y angolanas el cruce de la frontera con Namibia y para reducir el número de posiciones que deben defender.

El peligro de un avance cubano sobre Namibia nunca antes había parecido tan real.

Los últimos soldados sudafricanos salieron de Angola el 30 de agosto, cuando los negociadores ni siquiera habían empezado a discutir el cronograma de la retirada cubana de Angola”…


3- Como as SADF sentiram a progressão das FAPLA, das FAR e do PLAN no braço oeste da Frente Sul angolana?

Como sentiram o golpe da aviação em Calueque?

Constate-se, por exemplo, aqui, entre as “heroicas” mas afinal tão improdutivas bravatas do costume (https://mobile.facebook.com/southafricanlegion/photos/a.145635755606165.1073741836.142385935931147/302881963214876/?type=3):

“27th June is a tragic day on the South African Military calendar, here Trooper Gregory Scott from 2 Special Service Battalion comes home. he and 11 other SADF men where Killed in Action during the Calueque Dam attack, here he is been loaded with full military honours onto a transport aircraft for the trip home.

On the 27th June 1988, a combined Angolan FAPLA-Cuban force launched an unexpected ground attack against the Calueque Water Scheme SADF positions, close to the South West Africa/Namibia and Angola border. This was followed shortly thereafter by an air attack with MiG fighters.

The ground attack was halted by a combined SADF and SWATF protection force. However, the first wave of enemy aircraft bombed the bridge and sluice gates, killing a South African soldier in the process. Another wave of Migs bombed the pump and generator station, while a third strike destroyed the water pipeline to Ovamboland.

Significantly and tragically a SADF Buffel troop carrier suffered a direct hit by one of the bombs, killing all aboard. An Eland 90 Armoured Car was also hit by a bomb, killing the crew.

Twelve SA soldiers and more than 300 Cuban and Angolan soldiers died in the two skirmishes.

Let us always remember our fallen brothers in arms, the brave South Africans killed in action on this day were:

80468341BG Lieutenant Noah Tucker of 8 SAI. He was 23.

84247501BG Corporal Ewert Phillipus Koorts of 8 SAI. He was 19.

84481994BG Lance Corporal Johannes Reinhard Gerhardus Holder from the SA Medical Corps attached 8 SAI. He was 19.

84241694BG Rifleman Johannes Mattheus Strauss Venter of 8 SAI. He was 19.

8448141BG Rifleman Thomas Benjamin Rudman of 8 SAI. He was 20.

84458074BG Rifleman Phillipus Rudolph Marx of 8 SAI. He was 19.

84382407BG Rifleman Michael John van Heerden of 10 Armoured Car Squadron. He was 19

85434181BG Rifleman Andries Stephanus Johannes Els of 8 SAI. He was 19.

84450683BG Lance Corporal Wynand Albert van Wyk of 1 SSB Attached 10 Armoured Car Squadron. He was 19.

84246024BG Trooper Gregory Scott of 2 SSB Attached 10 Armoured Car Squadron. He was 19.

84432756BG Trooper Emile Erasmus of 10 Armoured Car Squadron. He was 20.

85445708BG 2/Lieutenant Muller Meiring of 61 Mechanised Battalion was Killed in Action North East of Calueque. His Ratel received a direct hit by a Soviet PG-7 Anti-Tank Rocket on the Commanders position, killing him instantly. He was 19.

Lest we forget.

A special thank you to Graham Du Toit for the Honour Roll and his tireless work to keep the veterans community in remembrance of those who went before us”.

É evidente que o “apartheid” na “border war”, entre outros contenciosos que marcavam a sua retumbante derrota, já nada mais podia justificar perante aqueles que mobilizavam a “carne para canhão” de tão insustentável aventura, o próprio Partido Nacional!...

Continua

Martinho Júnior - Luanda, 1 de Julho de 2018

Imagens:
Mapa da Frente Sul das FAPLA, de acordo com “Cuito Cuanavale revisitado” – https://resistir.info/cuba/cuito_cuanavale.html;
Aeródromo da Cahama – conjuntamente com a pista de Xangongo, serviu de base operacional para os MIG 23, junto à fronteira sul, ganharem o domínio do espaço aéreo inclusive no norte da Namíbia ocupada pelo “apartheid”;
Mapa das South Africa Defence Forces no norte da Namíbia ocupada;
Blindado Ratel atingido por bombardeamento de MIG 23 em Calueque, no dia 27 de Junho de 1988;
Honras militares no embarque do corpo de um dos militares sul-africanos mortos durante o bombardeamento dos MIG 23 e Calueque.
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