sábado, 28 de julho de 2018

Como ativistas europeus lutam contra deportações

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A sueca Elin Ersson, que chamou atenção ao tentar impedir a deportação de um afegão, não foi a primeira a embarcar num avião para protestar. Em contato com centros de deportação, ativistas se organizam via internet.

Os ativistas antideportação costumam se comunicar via Facebook. Na última segunda-feira (23/07) um evento foi marcado na plataforma, intitulado "Impedir deportação de Gotemburgo para Afeganistão" e no qual 79 usuários clicaram em "interessado" e 13 em "participar". Entre estes, estava a sueca Elin Ersson, que impediu a suposta repatriação do afegão Ismael Khawari.

O vídeo em que a estudante e ativista de 21 anos mostra como evitou a decolagem de um voo da Turkish Airlines da cidade sueca para Istambul atraiu atenção por todo o mundo. Também a Deutsche Welle divulgou trechos, atraindo mais de 10 milhões de cliques em dois dias.

O que Ersson documentou se baseia em suas próprias afirmações, não há relatos de testemunhas oculares, e a companhia aérea não atendeu ao pedido de declarações sobre os acontecimentos a bordo.

Ersson participa de uma rede informal de ativistas, reunindo organizações de maior e menor porte da Suécia e de toda a Europa, como a Ecada (acrônimo em inglês para "Cidadãos Europeus contra a Deportação para o Afeganistão"). Não existe um órgão supervisor.

Por vezes formam-se grupos no Facebook em que os ativistas se conectam, como, por exemplo o Don't send Afghans back – a platform for positive action. Outras vezes amigos e conhecidos se reúnem com a intenção de atuar politicamente. O que os une é a repulsa ao repatriamento para o Afeganistão de requerentes de asilo rejeitados – como fez a Suécia 415 vezes em 2017.

Não é um caso isolado

O vídeo de Ersson foi assistido milhões de vezes e compartilhado centenas de milhares, por ser emocionante e perturbador, mostrando uma jovem estressada fazendo algo que muitos à sua volta condenam. No entanto, ela não foi a primeira a evitar uma deportação recusando-se a tomar seu assento.

Pouco menos de uma semana antes, em 17 de julho, Eva Märta Granqvist embarcara num avião que transportaria um homem para o Afeganistão, após escala em Istambul. Segundo relatou à DW, ela comprou uma passagem, juntamente com outra ativista, e embarcou em Copenhague, na Dinamarca.

O rapaz de 19 anos que deveria ser extraditado encontrava-se nos últimos assentos da aeronave, acompanhado de pessoal de segurança. "Fomos para a parte de trás e o ouvimos chorar. Nós o conhecíamos de fotos e conseguimos reconhecê-lo."

A ação despertou curiosidade, outros passageiros se levantaram para saber o que estava acontecendo. Após cerca de dez minutos, o piloto decidiu não transportar o afegão, pois o avião não poderia levantar voo com diversos passageiros de pé.

O repatriamento foi temporariamente impedido, o jovem afegão pôde deixar a aeronave. Segundo Granqvist, ele se encontra novamente num centro para deportação. Jornais suecos noticiaram o caso, e as ativistas publicaram um vídeo do ato de protesto no Youtube.

"Deus abençoe seu grande coração"

Granqvist conta como os ativistas se organizam para impedir voos de repatriamento: "Estamos em contato diário com as pessoas dos centros de deportação" e, assim que há informações sobre o procedimento, o dinheiro para as passagens é coletado dentro dos diversos grupos.

"Aí nós procuramos descobrir de onde o voo parte. E então a questão é: quem pode estar no aeroporto dentro de uma hora? Quem mora nas proximidades, quem tem o dinheiro coletado e um passaporte?"

Nem sempre o plano vinga. Como no caso de Ersson, que na verdade partira do princípio de que haveria dois migrantes rejeitados a bordo. O outro, no entanto, fora colocado em outro voo, fora do radar dos ativistas.

Por todo o mundo, muitos celebram Ersson e Granqvist como heroínas. "Deus abençoe o seu grande coração, moça incrível, corajosa", comentou uma usuária sob o vídeo de Ersson. Ou: "Que garota valente!"

Porém, também há críticos que condenam iniciativas como essas, acusando as ativistas de não quererem saber o suficiente sobre aqueles pelos quais elas se engajam assim. "Era para ele ser mandado para casa, e elas pensaram que as opiniões delas são mais importantes do que as leis do país", lê-se num dos comentários.

"Se a gente for 'salvar' todo mundo que está para ser deportado, em que caos o mundo iria se transformar", critica outro usuário do Facebook, e pergunta: "O motivo e a decisão pela deportação são super importantes. Então, qual é o motivo?"

"Muita emoção e poucos argumentos"

Até o momento não se sabe por que Khawari estava sendo repatriado. Indagada pela DW, a polícia sueca, responsável pelo procedimento, replicou que não se pronuncia sobre casos concretos.

Tampouco a própria Ersson conhecia o afegão de 21 anos do qual tomou o partido. Mas para ela e seus colegas ativistas os motivos são antes insignificantes: "Minha profunda convicção é que ninguém deveria ser deportado para um país em guerra", afirma.

O especialista em conflitos Andreas Heinemann-Grüder vê esse posicionamento com olhos críticos. "A senhora Ersson apresentou muitas emoções e não suficientes argumentos", avalia. "Ela não sabia nada sobre o caso concreto. O afegão era um elemento perigoso? Para onde ele iria ser deportado? Nem todas as regiões do Afeganistão são de risco."

Heinemann-Grüder explica que formas de protesto baseadas em poucos fatos podem produzir agitação emocional imediata, mas também voltar a se dissipar rapidamente, pois lhes falta uma espinha dorsal organizatória.

"Aqui é provável que Ersson não vá alcançar as suas metas, pois pode ser muito rapidamente desacreditada por sua falta de profissionalismo. A ação toda pode ser descartada como 'bom-mocismo'", afirma.

Transformar a sociedade ativamente

A polícia sueca está investigando se, com seu protesto, Ersson cometeu um delito penal. De resto, "esse é um debate político, não temos nada a dizer a respeito", declarou um porta-voz à DW.

De acordo com a agência de notícias alemã dpa, a Procuradoria da Suécia confirmou nesta sexta-feira que abriu uma investigação contra Ersson por suspeita de violação da regulamentação aérea. "Se houver condenação, ela pode resultar em multa ou numa pena de seis meses de prisão”, afirmou o porta-voz do órgão Robin Simonsson.

As críticas e uma eventual pena provavelmente não vão fazer com que Ersson, Granqvist e os demais ativistas parem de lutar por suas causas.

"Quero transformar a sociedade através de cada uma de minhas ações", declarou Ersson numa coletiva de imprensa nesta quinta-feira. "Democracias são os seres humanos. E eu sou um ser humano", pontifica. Seus colegas ativistas já planejaram as próximas ações através do Facebook.

Rahel Klein (av) | Deutsche Welle
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