sábado, 4 de agosto de 2018

Leite é vida. E morte lenta

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Pedro Ivo Carvalho | Jornal de Notícias | opinião

Até 2015, a União Europeia usou a régua e o esquadro da teoria económica para regular o mercado leiteiro. As quotas garantiram uma efetiva segurança aos países com índices mais baixos de produção e menos eficientes. Para o bem, Portugal acostumou-se à lógica. Para o mal, está a sentir agora os reflexos dessa mudança brusca. Com o consumo de leite em decréscimo, parece hoje evidente que Bruxelas não soube acautelar o dia seguinte ao fim das políticas protecionistas. Como bem notava ontem no JN o ex-ministro da Agricultura Arlindo Cunha, a liberalização do mercado permitiu que este se tornasse "selvagem". E quando assim é, a história é a que vem nos livros: sobrevivem os fortes, desaparecem os fracos.

É, pois, com alguma incredulidade que vemos os acionistas da Lactogal pagar aos fornecedores para deixarem de produzir. Para desistirem de fazer o que sempre fizeram. Para abandonarem o negócio de uma vida. No total, foram intimados a cortar 60 milhões de litros, meta considerada satisfatória pela gigante dos laticínios para acomodar o impacto negativo resultante do facto de Espanha estar a comprar menos leite e evitar, por outro lado, descidas do preço. Detalhe: a Lactogal passou, há dias, a pagar menos um cêntimo por litro.

Ora, perante isto, o Governo, que tanto gosta de meter o bedelho naquilo que os portugueses consomem, vem dizer que está de mãos atadas, porque a Lactogal é uma empresa privada. Resumir o papel do Estado a essa perspetiva simplista de intervenção não é entendível à luz da realidade económica e do impacto social desta medida num setor que vende o leite como vida mas está a morrer lentamente. Produzimos leite a mais, mas bebemos cada vez menos. Produzimos queijo e iogurtes a menos, mas consumimos cada vez mais. Destruimos o valor acrescentado do que é português e ficamos dependentes do exterior. De certeza que o Governo não quer preocupar-se com isto?

*Subdiretor do JN
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