segunda-feira, 17 de setembro de 2018

O PRIMEIRO COMANDANTE-EM-CHEFE DE ANGOLA INDEPENDENTE

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Martinho Júnior | Luanda 

1- No dia 13 de Setembro de 2018, na Sala de Reuniões do Estado-Maior do Exército das FAA em Luanda, numa iniciativa conjunta do Estado-Maior das FAA com a Fundação António Agostinho Neto, foi dignamente homenageado aquele que foi o primeiro Comandante-em-Chefe duma Angola finalmente libertada, independente e soberana!

Além da presença da Presidente da Fundação António Agostinho Neto, Maria Eugénia Neto, ela própria, pela sua vivência enquanto esposa e viúva, merecedora da homenagem, esteve presente o general Moracén Limonta, herói de Cuba e um dos instrutores enviados pelo Comandante Fidel a fim de instruir as guerrilhas do MPLA no seguimento da visita do Comandante Ernesto Che Guevara à sede do MPLA em Brazaville a 2 de Janeiro de 1965, alguns membros Adidos Militares das Embaixadas acreditadas na capital angolana, o general Sá Miranda, Chefe do Estado-Maior do Exército e outros Altos dignitários das Forças Armadas Angolanas, entre oficiais generais, superiores, capitães e subalternos.

A convite da Fundação António Agostinho Neto, o emérito professor Fernando Jaime, meu camarada e amigo, foi o conferencista do dia, nos curtos 45 minutos de intervenção que deram apenas para uma introdução, comunicativa e vibrante, à vida e obra de António Agostinho Neto, que para melhor compreensão da audiência foi dividida em 5 fases, do seu nascimento à morte.

O próprio conferencista declarou com justa razão e a propósito, que no mínimo seriam precisas 5 horas para a abordagem à altura do desafio da decifragem da vida e obra de António Agostinho Neto e dos seus ensinamentos e memórias!...

2- A saga da libertação por via armada foi legitimamente iniciada em 1794, quando os escravos no Haiti (na altura haviam 465.000 escravos na ilha) se revoltaram contra os seus amos e foi possível a independência do mais populoso país membro do que constitui hoje o CARICOM, (“Comunidade das Caraíbas”) em 1804, com o vexame da derrota, triste e inglória, das tropas napoleónicas.

Essa é uma das gestas narradas por Eduardo Galeano em “Haiti, país ocupado”:

… “Consulte qualquer enciclopédia. Pergunte qual foi o primeiro país livre na América. Receberá sempre a mesma resposta: os Estados Unidos. Porém, os Estados Unidos declararam sua independência quando eram uma nação com seiscentos e cinquenta mil escravos, que continuaram escravos durante um século, e em sua primeira Constituição estabeleceram que um negro equivalia a três quintas partes de uma pessoa.

E se procuramos em qualquer enciclopédia qual foi o primeiro país que aboliu a escravidão, receberá sempre a mesma resposta: a Inglaterra. Porém, o primeiro país que aboliu a escravidão não foi a Inglaterra, mas o Haiti, que ainda continua expiando o pecado de sua dignidade.

Os negros escravos do Haiti haviam derrotado o glorioso exército de Napoleão Bonaparte e a Europa nunca perdoou essa humilhação. O Haiti pagou para a França, durante um século e meio, uma indenização gigantesca por ser culpado por sua liberdade; porém, nem isso alcançou. Aquela insolência negra continua doendo aos amos brancos do mundo.

Sabemos muito pouco ou quase nada sobre tudo isso.

O Haiti é um país invisível”…

3- Essa saga esteve por dentro do espírito de luta armada contra a colonização na América Latina com muitos dos escravos libertos a integrarem e fortalecerem as forças independentistas, nas Caraíbas, na América Central e na América do Sul, uma inspiradora fonte em cujas águas foi beber a revolução cubana, onde vai beber a luta pelo socialismo bolivariano na Venezuela e uma fonte inspiradora para a decisão do Comandante Fidel, no sentido de aliar-se aos movimentos de libertação em África, apenas dois anos decorridos após o triunfo da revolução em Cuba (1961)!

A história dessa saga emergiu quase desconhecida desde finais do século XVIII até hoje, com África a manter-se na generalidade arredia do conhecimento dela por que o poder dominante se nutriu dos interesses e auspícios daqueles que forjaram as doutrinas, as filosofias e as ideologias da “civilização cristã ocidental” e nela, as da “Guerra Fria”!

São esses filiados e agentes das doutrinas, filosofias e ideologias dominantes, que procuram apagar, inibir ou subverter o“inconveniente” dos que assumem vivencialmente a história no âmbito das sensibilidades inerentes aos povos mais escravizados, colonizados e oprimidos da Terra ao longo dos últimos cinco séculos e inexoravelmente a história das mais legítimas revoluções que têm animado a vida em nome da humanidade, particularmente no hemisfério sul do planeta!

O primeiro Comandante-em-Chefe das então Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, FAPLA, o primeiro Comandante-em-Chefe duma Angola libertada, independente e soberana, António Agostinho Neto, foi um comandante-estratega maior da Luta de Libertação em África, de Argel ao Cabo da Boa Esperança, dando continuidade no lado leste do Atlântico Sul a essa saga de séculos!

Ele integrou a luta e deu continuidade a Toussaint l’Ouverture, a Dessalines, a José Marti, a Simon Bolivar, a Sandino, a Ben Bella entre outros comandantes-estrategas que iluminaram o sul escravizado, colonizado, oprimido e vilipendiado!...

Entre seus pares contemporâneos, entre Fidel, Che Guevara, Amílcar Cabral, Samora Machel, Robert Mugabe, Sam Nujoma, Oliver Tambo e seus seguidores, António Agostinho Neto foi um dos que geraram a capacidade de luta contra a internacional fascista cujo núcleo duro se instalou no sul do continente com o “apartheid”, assim como contra todos os preconceitos de seus agenciados apêndices que frutificaram no e a partir do Exercício ALCORA e das suas sequelas até hoje!

“Na Namíbia, no Zimbabwe e na África do Sul, está a continuação da nossa luta”, proclamava o Comandante-em-Chefe de Angola na segunda metade dos anos 70 do século XX, por que “somos milhões e contra milhões ninguém combate”, advertia e complementava recorrendo clarividente a toda a sensibilidade histórica e humana própria dum comandante-estratega e mobilizador!

De facto, se a luta contra o colonialismo na Argélia inspirou a continuação da luta contra o fascismo na Europa e a luta armada de libertação nacional até hoje em África (ela continua no Sahara) contra o colonialismo e o “apartheid”, ela só poderia ser levada a cabo, com comandantes-estrategas ao nível de Amílcar Cabral, de Agostinho Neto, de Samora Machel, de Sam Nujoma, de Robert Mugabe, de Oliver Tambo e de tantos outros, que animados das capacidades vitais das filosofias marxistas-leninistas, deram corpo vibrantemente à continuação da saga da libertação desta feita em África, com a aliança propiciada por Cuba revolucionária sob a liderança do Comandante Fidel e com o concurso ao génio inspirador e directo empenho do Comandante Che Guevara!...


4- A figura de António Agostinho Neto como líder e comandante-estratega da continuada saga da legítima luta de libertação contra a escravatura, o colonialismo, o “apartheid” e suas sequelas, inclusive as vividas nas contradições internas do MPLA mais evidentes desde Viriato da Criz a Nito Alves, é por si uma inspiração patriótica que deve ser honrada na cultura e vivência de sua memória e ensinamentos!

Ela deve estar bem presente por que não só o imperialismo ganhou novos e poderosos métodos, formas e fórmulas, invadindo sociológica, psicológica e antropologicamente os vínculos comuns da globalização por via dos interesses de ingerência e de manipulação na América Latina e em África, quer por parte do capitalismo financeiro transnacional, quer por parte do capitalismo produtivo, quer por parte da hegemonia unipolar, em tudo tirando partido da revolução de novas tecnologias sob sua égide, mas também por que a advocacia do elitismo subjacente a esse poderoso domínio de cariz neocolonial, dando continuidade a ideologias que no tempo do império britânico se distendiam do Cabo ao Cairo, estão deliberadamente presentes em África e sobretudo na África Austral, onde se fazem sentir com vigorosos e por vezes provocadoramente atraentes impactos sobre seus povos e estados.

Nesse sentido António Agostinho Neto, falecido prematuramente a 10 de Setembro de 1979, enquanto líder e Comandante-em-Chefe ultrapassa-se ao seu desaparecimento físico e chega até hoje com seus seguidores, como um desafio enorme e incontornável face à conjuntura assimétrica, desigual e injusta que se oferece a toda a humanidade de há cinco séculos a esta parte!

Essa tem sido também a minha tão incompreendida saga pessoal desde aqueles anos de 1969 e 1970, quando frequentei as universidades portuguesas e comecei a forjar a minha própria consciência crítica, materialista-dialética, legitimada pela história dos escravos, dos colonizados e dos oprimidos de todo o mundo, onde não tem lugar a mentalidade formatada pelo domínio da hegemonia unipolar contemporânea, nem a história forjada pelos mentores de guerras psicológicas, por tabela da “Guerra Fria”!

Não foi de estranhar que em 1986, a “oficial” subversão (em termos de guerra psicológica), do meu empenho enquanto oficial da Segurança do Estado, tivesse merecido a interpretação institucional de alguns que, ao invés de balancear justamente o meu contributo contra um tráfico ilícito de diamantes que dilacerava a economia de Angola, interpretaram levianamente como se estivesse afinal a fazer um “golpe de estado sem efusão de sangue”, em relação ao qual ainda hoje se desconhece o chefe, quando isso viria a contribuir para que a subversão armada de Savimbi ganhasse no sector dos diamantes “asas” de que, de outro modo, jamais teria ganho!...

Tenho toda a legitimidade em relação à justiça que recai sobre a minha própria vida, que “a história me absolverá”!

Imaginam quantos sacrifícios por causa desse meu empenho imprescindível à alimentação de minha consciência crítica, ao longo de desertos de várias décadas, não foram impostos à minha família e sobretudo, aos meus próprios e inocentes descendentes?...

5- O MPLA alcançou os objectivos do seu Programa Mínimo, quando em Angola, a 11 de Novembro de 1975, António Agostinho Neto proclamou a independência nacional…

O MPLA alcançou a vitória noutro objectivo programático de primeira grandeza na libertação africana, quando acabou o“apartheid” em 1991…

O MPLA alcançou a vitória sobre muitas das sequelas coloniais e do “apartheid” em 2002, sob o olhar silencioso de António Agostinho Neto, por seu turno inspirado no olhar silencioso de Lénin…

Mas o MPLA está longe de realizar alguns dos principais objectivos do seu próprio Programa Maior, na longa luta que há a levar por diante contra o subdesenvolvimento e na trilha duma geoestratégia para um desenvolvimento sustentável, animado da mesma lógica com sentido de vida cuja saga nascida com a revolução dos escravos no Haiti inspirou a luta armada de libertação na América Latina e em África, multiplicando os Vietname, algo que tem a ver com a decisão do próprio renascimento de que África tanto carece!

Quando iluminados pela história os angolanos assumem em paz que “o mais importante é resolver os problemas do povo”, face aos impactos da globalização gerida pelos interesses tentaculares da aristocracia financeira mundial tenho verificado quão vulneráveis eles, antropológica, social e psicologicamente afinal estão, por que a consciência histórica, numa perspectiva materialista-dialética, pouco ou nada tem a ver com a mentalidade que lhes tem sido injectada e formatada de 2002 até hoje, quando a paz deveria corresponder às vitórias da sensibilidade socialista em tempo de guerra!

Honrar a memória e os ensinamentos do líder e comandante-estratega António Agostinho Neto, merece enquanto permanente desafio, uma outra resposta de todos nós filhos de África e da América Latina e, desde logo, há que reconhecer num plano decisivo e ultrapassando todas as guerras frias consubstanciadas na permanente guerra psicológica em curso nos nossos dias, a história incontornável da saga da luta que acabou com a escravidão, com o colonialismo e com o “apartheid”, que já vai a caminho de dois séculos e meio, desde 1804 com a independência do Haiti!

Há que reconhecer em todas as suas implacáveis transversalidades antropológicas, sociológicas e psicológicas, que não se levou de vencida o que à barbárie neocolonial indexada ao império da hegemonia unipolar diz respeito!

A aristocracia financeira mundial faz prevalecer de forma avassaladoramente dominante e por via de múltiplas acções de tão persuasiva quão continuada guerra psicológica, a proficuidade desse domínio em nossos dias, algo que lhe dá imensos lucros explorando matérias-primas indispensáveis às indústrias transnacionais e mão-de-obra barata quase ao nível da escravidão, por que os povos africanos não alcançaram patamares de educação, de saúde e de desenvolvimento sustentável satisfatórios para assumir o indispensável para se poderem catapultar as culturas a inscrever nas imensas potencialidades do seu próprio renascimento!...

A LUTA CONTINUA!...

Martinho Júnior - Luanda, 17 de Setembro de 2018

Imagens:
Duas fotos recolhidas por mim no acto de homenagem em 13 de Setembro de 2018, ao primeiro Comandante-em-Chefe de Angola libertada, independente e soberana, na Sala de Reuniões do Estado-Maior do Exército das FAA em Luanda, numa iniciativa conjunta com a Fundação António Agostinho Neto.
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