sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Portugal: SENSIBILIDADE E BOM SENSO AO CORTAR NA SAÚDE





Que é obrigatório racionalizar a despesa ninguém tem dúvidas. Que é imperioso conferir mais eficiência ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) ninguém questiona. Que nos hospitais e nas entidades prestadoras de cuidados de saúde existe desde há muitos anos um elevado grau de desperdício é uma evidência. Daí que o actual ministro da Saúde, Paulo Macedo, seja, no plano da competência e das provas dadas noutro sector da administração pública como foi a máquina fiscal, o homem certo para as tarefas que se exigem.

Porém, quando se anunciam cortes de até cem milhões de euros em tratamentos como a hemodiálise, em métodos complementares de diagnóstico ou no transporte de doentes, há que ter em consideração as características específicas deste sector. Isto é, não se pode cortar de forma cega nem insensível. Isto é, o SNS não pode ser gerido como se as pessoas a quem o serviço prestado se destina fossem apenas números. É fundamental tentar evitar ao máximo que a qualidade dos cuidados de saúde se degrade.

Neste universo é possível cortar, seguramente sem quebras de eficiência, reduzindo o número de gestores hospitalares e as mordomias de que estes beneficiam - carros, motoristas, cartões de crédito, só para dar alguns exemplos. Nenhum médico fica certamente menos competente para o desempenho das suas funções se participar em menos congressos clínicos que, muitas vezes, servem apenas de "férias complementares".

Naturalmente que o esforço de contenção tem de ser feito por todos, isso não está em causa. Mas ao ministro da Saúde exige-se um equilíbrio firme entre a necessária mão firme no bisturi e os obrigatórios sensibilidade e bom senso no momento de cortar.

Rússia: Regresso ao passado

Há 20 anos, a 19 de Agosto de 1991, o mundo assistia estupefacto a uma tentativa de golpe em Moscovo, que mais parecia um regresso ao passado. Nos seis anos anteriores, o mundo mudara, com o fim da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim e o colapso do bloco socialista. A superpotência soviética mantinha grande parte do seu poder, mas começavam a ser visíveis as falhas sísmicas. Alguns povos da URSS queriam liberdade e o presidente Mikhail Gorbachev estava disposto a conceder mais autonomia às repúblicas. Por isso foi deposto num golpe lançado por um grupo de dirigentes da ala dura do Partido Comunista, que via o processo como uma fragmentação.

O objectivo era travar o declínio da União Soviética e manter o país na linha, salvando o essencial do império; na realidade, apenas foi acelerada a queda. As ambições políticas explicam parte deste drama, mas houve sobretudo um enorme erro de cálculo por parte dos golpistas. Dois dias depois de ser afastado do poder, Gorbachev regressou a Moscovo, mas nunca recuperou a autoridade suficiente para conseguir colar os estilhaços da URSS, cujo suspiro final ocorreu nos meses seguintes, ainda em 1991.

O golpe de Agosto e o fim da URSS contêm lições úteis. Nenhum povo está condenado a viver eternamente sob o totalitarismo. E o poder da imagem é crucial, mesmo em ditaduras: as mãos do substituto de Gorbachev tremiam e ninguém acreditou na sua determinação. O presidente deposto, de 80 anos, é hoje um dos defensores de mais democracia na Rússia. Na opinião de Gorbachev, deve haver mais transparência e o partido no poder no Kremlin, liderado por Vladimir Putin, usa práticas que lembram as do antigo Partido Comunista. As lições da história e os erros do passado são fortes razões para que Gorbachev seja ouvido pelos seus compatriotas.

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