sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

PORTUGAL ESTÁ MESMO A SAIR DA CRISE? (ou o conto de Natal de Passos)

 

Henrique Monteiro – Expresso, opinião
 
Há um discurso oficial que diz que chegámos ao ponto de viragem. Não vou desmentir, porque em qualquer crise há sempre um ponto de viragem. Mas também não vou alinhar na festa, porque o ponto de viragem, a ter-se dado, foi num patamar muito diferente daquele de onde viemos.
 
A ver se, de uma forma esquemática, nos entendemos.
 
1 - É impossível a economia contrair sempre (isso devia ter levado alguns teóricos que hoje falam muito a ter a conclusão contrária, aqui há anos, que era impossível à economia crescer sempre). Na velha Universidade de Salamanca lia-se uma frase assim: o que a natureza não dá, Salamanca não ensina. Ora, na natureza nada cresce e nada diminui indefinidamente. Por isso, depois de uma brutal contração como a que tivemos, algum dia voltaremos a subir. Podemos já ter começado esse movimento, mas podemos estar ainda a descer, embora mais suavemente;
 
2 - Se cairmos 20% e depois aumentarmos 20% mantém-se uma queda real de 4%. Isto parece estranho à primeira vista, mas partindo da base 100, é fácil explicar. Uma queda de 20% da base 100 leva-nos a 80. Um aumento de 20% desses 80 leva-nos a 96, ou seja 4% abaixo da base inicial. Por isso, a recuperação da economia tem de ter uma taxa bastante superior à da sua queda;
 
3 - O desemprego tem vindo a baixar em relação ao auge, mas está muito acima do que era. Além das considerações anteriores, há que contar com o efeito emigração. Na verdade, se todos os desempregados emigrassem, não haveria desemprego.
 
4 - Os saldos comerciais são a diferença entre o que exportamos e o que importamos. Não é preciso exportar muito mais para colocar esse saldo em positivo. Basta importar muito menos (que é o que estamos a fazer);
 
5 - A política de austeridade (ainda que haja algum crescimento) não acaba com o equilíbrio das contas, como por vezes se dá a entender, mas sim quando a dívida for sustentável. Ou seja, bastante abaixo dos 80%, ou melhor, à volta dos 60% do PIB. Neste momento ela é mais do dobro. Precisamos de vários anos de crescimento do PIB (o que por si faz baixar a taxa da dívida) e de austeridade, para mantermos os saldos primários. Há quem diga que é impossível haver austeridade e crescimento. Não vejo motivo para serem incompatíveis. Podemos consumir menos bens e exportar bens com mais valor acrescentado. Sobretudo podemos não gastar o dinheiro em bens não transacionáveis (tipo estádios, autoestradas, etc.) e sim em bens que se possam vender com mais valor. Podemos, como em casa, ser frugais sem passar fome, não desperdiçar dinheiro e aplicar o que tivermos criteriosamente.
 
Não sei se o discurso de Passos foi, como diz o PS, "uma espécie Conto de Natal". Sei que é possível, como sempre, olhar as coisas de duas maneiras distintas. Uma é compararmos com o modo como vivíamos (e nos prometiam íamos viver) há cinco anos, constatando que estamos muito pior. Outra é olhar para o que já passámos e ter a ideia de que a tormenta está a amainar.
 
A única verdade insofismável é que, seja qual for a convicção, convém remarmos para o mesmo lado.
 

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