segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Há 20 anos na Venezuela…

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Martinho Júnior | Luanda

“Despierto cada cien años quando despierta el Pueblo” – Un canto para Bolívar – Pablo Neruda.

“…Ser bolivariano es abogar por una democracia verdadera, como decía Bolívar, que le dé felicidad a un Pueblo, que le dé estabilidade y que le dé seguridade social.

Ser bolivariano es abogar por el poder moral, que es el quarto poder del Estado, propuesta bolivariana de 1819.

Ser bolivariano, es abogar por la unidad del Pueblo com el Exército en una sola fuerza.

Ser bolivariano es abogar por la unidad de los pueblos de la América Latina y el Caribe, es decir, Bolívar dejó aquí la idea central de un proyecto nacional antes de que en el mundo existiera el comunismo, la izquierda o las derechas…

Entrevista do jornalista Napoleón Bravo ao Comandante Hugo Chávez em finais de 1998, por altura do pleito eleitoral em que o Movimento Vª República e seus aliados do Polo Patriótico venceram sob seu mando, dando início ao percurso que desembocaria na Constituinte da Vª República.

1- Há 20 anos na Venezuela, o momento era decisivo em redor do pleito eleitoral de então: um passado de 160 anos, o tempo de duração da IVª República desde o desaparecimento físico de Símon Bolivar, chegava à exaustão e uma nova era se abria radiosa, em nome de todo o povo, sem demagogias, sem populismos, com transparência e respeito pela história, apta ao aprofundamento da democracia popular, participativa e “protagónica”, em vias de consolidação a partir da aliança cívico-militar que o Comandante Hugo Chávez viabilizou enquanto líder, estratega e impulsionador.

Por quê a necessidade da Vª República na Venezuela?

O próprio Comandante Hugo Chávez nos remetia para a retrospectiva histórica, indispensável para se entender a necessidade do projecto da Vª República, respeitadora dos ideais libertadores de Bolivar, aplicando-os agora, nos alvores do século XXI.

Segundo sua apurada visão, na Venezuela tinham havido até esse pleito eleitoral, quatro Repúblicas, sendo as três primeiras de relativamente curta duração:

. A Iª República em 1811 e 1812 – embora nascendo com um Congresso Constituinte, tornou-se fugaz por que ocorre quando se aceleram as autonomias regionais (algo que estava suspenso desde a capitania geral), quando nas elites autóctones ganha força a contradição entre republicanos e monárquicos, ao mesmo tempo que os mestiços, os escravos e os crioulos, são excluídos;

. A IIª República entre 7 de Agosto de 1813 e 1814, correspondendo ao período em que Simon Bolívar entra em Caracas, procedente de Nova Granada e cruzando os Andes (Campanha Admirável), forma governo e instaura a nova República, que foi breve por que faltou o apoio à independência por parte dos escravos e dos mestiços, que estavam contra os escravocratas brancos crioulos; destes últimos alguns juntam-se às autoridades espanholas que desse modo conseguem reconquistar Caracas;

. A IIIª República, a República Bolivariana original, estabelecida em Fevereiro de 1819 com o Congresso de Angostura e a constituição da Grande Colômbia em Dezembro de 1819; a sua génese resulta da Carta da Jamaica, escrita por Bolivar em 1815, mudando a atitude para com os escravos e os mestiços e favorecendo a mobilização de vastos contingentes deles no exército republicano; o poder colonial, ao ser derrotado a 24 de Junho de 1821 na batalha de Carabobo, acaba por ceder completamente após várias outras batalhas perdidas, propiciando-se o Congresso Anfictiónico do Panamá, que deliberava a unidade continental segundo a concepção de Bolivar, algo que acabou por não ser alcançado devido à confrontação armada entre distintas províncias, às confrontações dos escravos e dos mestiços por não haverem alcançado a igualdade social e ao estado calamitoso da economia em função dos acontecimentos; a participação dos escravos e dos mestiços descendentes, foi decisiva, no rescaldo aliás da revolução dos escravos no Haiti.

. A IVª República surge com o falecimento de Simon Bolivar, tendo José António Páez como seu Presidente, um anti-bolivariano e membro da oligarquia; prolonga-se 160 anos, apesar da Assembleia Constituinte de 1947 que entre outros actos mais, entre eles o Pacto de Punto Fijo em 1958, não mudou nem o carácter, nem a entidade do próprio estado, que serviu de representação, democrática ou não, à dominante oligarquia, que se tornou cada vez mais poderosa, à medida do crescimento do rendimento do petróleo.

Para que haja independência, bastam e bastam-se as elites autóctones dominantes, mas para que haja revolução além da independência, só a energia motora dos excluídos, naquele tempo dos escravos e dos mestiços seus descendentes directos, a podia garantir!


2- Os 40 últimos anos da IVª República, de 1958 a 1998, correspondem ao Pacto Punto Fijo, favorecendo as representações oligárquicas alinhadas na Acção Democrática e no COPEI.

Ao longo dos primeiros 30 anos desse período, esses agrupamentos representativos da oligarquia venezuelana, conseguiram manter-se graças ao crescente rendimento do petróleo, que garantiu uma forte aliança com a burguesia comercial parasitária, com a poderosa Fedecâmaras, com o imperialismo, com a cúpula da Igreja Católica e com os meios de comunicação de massas (imprensa sob domínio da própria oligarquia).

Nesse período de 30 anos o poder manteve um investimento social ascendente nos sectores da educação, da saúde e no subsídio de alimentos, com uma organização sindical populista, corrompida mas capaz de controlar o movimento dos trabalhadores.

Esse modelo esgotou-se nos últimos 10 anos, à medida que o capitalismo neoliberal criou todo o tipo de impactos, desmontando os direitos sociais, privatizando a educação e a saúde, bem como desregulamentando os direitos de trabalho.

Em 10 anos de decadência formou-se uma latente “bomba social” em relação à qual os assinantes do Pacto Punto Fijo já nada mais podiam fazer face às enormes desigualdades que foram instaladas no tecido social venezuelano: controlando o poder “democrático representativo”, tisnado de social-democracia e de cristãos-democráticos, uma oligarquia que absorvia a fatia maior dos rendimentos do petróleo interconectada aos interesses do império da doutrina Monroe e da hegemonia unipolar por via de transnacionais poderosas, passou a dominar uma imensa base social empobrecida, a desfazer-se em miséria, no desemprego, ou no subemprego e cada vez com mais baixos padrões de educação e saúde…

A independência de bandeira, já não bastava para alguma vez ser possível alcançar mais felicidade em todo o povo venezuelano.

3- O Comandante Hugo Chávez teve a noção exacta da situação decrépita em que se encontrava a Venezuela em 1998 e, alterando suas táticas, criou o Polo Patriótico sobre o vazio, aglutinando não só os seus próprios seguidores do Movimento Vª República, mas também sensibilidades como Pátria Para Todos (PPT), Movimento Ao Socialismo (MAS), Movimento Eleitoral do Povo (MEP) e Partido Comunista da Venezuela (PCV).

A leitura histórica que fez da luta pela independência, sobre as Constituintes e sobre as razões da vitória de Simon Bolivar, permitiu ao Comandante identificar-se por completo com os substractos sociais mais desfavorecidos, mobilizá-los no sentido de sua participação e protagonismo, captar neles toda a sua energia em direcção ao socialismo do século XXI.

As políticas que iria levar a cabo, mergulharam todas nessas raízes e, a nível do Mar do Caribe, criou relacionamentos que visaram quebrar o isolamento das pequenas nações insulares cuja população é maioritariamente afro-descendente em função da escravatura de então.

Criou por exemplo o PetroCaribe, através do qual tem sido fornecido combustível a preços baixos a todas elas.

Contribuiu para fortalecer o CARICOM, apoiando as políticas que visam lutar contra o isolamento e advogar as devidas compensações das antigas potências coloniais que um dia foram escravocratas.

Aliou-se a Cuba Revolucionária em praticamente todas as suas acções na região, Cuba que é aliás a maior das ilhas do Caribe.

Com seu irmão de profundas convicções, com o Comandante Fidel, tornaram-se um único vulcão galvanizador das forças adormecidas da América e do mundo.

Eu próprio senti isso nos 4 meteóricos dias em que em Março deste ano pisei solo venezuelano!

O Comandante Hugo Chávez, inspirado em Simon Bolivar, respeitou a revolução dos escravos do Haiti e o manancial de energias que ela propiciou para as independências na América Latina, na própria Venezuela, delineando políticas para as comunidades de afro-descendentes nacionais e para seus irmãos espalhados pelo Caribe e pela América…

Toda a sua obra tem sido continuada por via da fidelidade, abnegação e coragem do Presidente Nicolas Maduro, multiplicando as missões criativas que estão empenhadas em alterar profundamente o nível de vida dos substractos sociais mais desfavorecidos do povo venezuelano, algo que para a oligarquia e o império da Doutrina Monroe, é imperdoável!

Defender o legado dos Comandantes Hugo Chávez e Fidel é uma garantia, hoje como nas próximas décadas, de que se está inequivocamente na trilha capaz de lógica com sentido de vida, particularmente ali onde a opressão, o caos, o terrorismo e a guerra dos mercenários do poder dominante do império se tornou mais acintosa no estertor dum unipolarismo bárbaro, abjecto e feudal!

A vida e a obra do Comandante Hugo Chávez, foram uma constante superação de obstáculos, de vulnerabilidades, de alienações, com um génio, um saber, uma emoção, que contagiou o povo bolivariano, na Venezuela, na América Latina, um pouco por todo o mundo e, para aqueles que perfilham a consciência crítica do movimento de libertação em África, um exemplo abrindo caminho às possibilidades de luta em direcção ao socialismo do século XXI…

Há 20 anos na Venezuela, semearam-se as sementes da Venezuela Socialista e Bolivariana!... Que viva a memória e os lapidares ensinamentos de Simon Bolívar!

Martinho Júnior - Luanda, 7 de Outubro de 2018


A consultar:

“Hugo Chávez y la ressurrección de un Pueblo” – “Comentario: Este trabajo presenta una visión narrada de la biografía de Hugo Chávez desde su nacimiento hasta el 2 de febrero de 1999, víspera de asumir por primera vez la banda presidencial. Se incluyen diversos análisis y los escenarios políticos en cada fase de su trayectoria. El libro expone la compleja subjetividad del líder bolivariano, fiel a la evolución de su personalidad y a sus anhelos, penas, alegrías, frustraciones, temores y triunfos. Sánchez es Licenciado en Sociología. Ha publicado artículos sobre temas históricos, políticos y sociológicos” – http://www.rettalibros.com/shop/catalogs/show_material_details/56902https://www.youtube.com/watch?v=NzVtovkFe04http://www.nicolasmaduro.org.ve/etiqueta/hugo-chavez-y-la-resurreccion-de-un-pueblo/ 



Haiti History 101: How Haiti Helped Some Latino Countries Gain Independence and End Slavery – https://www.youtube.com/watch?v=OTarpvMsvvc

Grandes revoluciones caribeñas: Revolución haitiana y Revolución cubana – http://www.uneac.org.cu/noticias/grandes-revoluciones-caribenas-revolucion-haitiana-y-revolucion-cubana

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