quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ANGOLA – CUBA – “OPERAÇÃO CARLOTA II” HOJE (5 de Fevereiro de 2009)



Martinho Júnior*, Luanda

Agora que em Angola se silenciaram as armas, há um longo caminho a percorrer no sentido de se alcançar no país e em toda a vasta região circundante uma paz social sustentável pelos seus equilíbrios, por seu sentido de justiça e decisiva capacidade de solidariedade.

Nesse caminho, as batalhas da educação e da saúde assumem-se como a chave de toda uma longa e profícua estratégia no quadro desse verdadeiro resgate ao pântano secular de subdesenvolvimento crónico, um resgate que não foi logicamente possível durante a noite colonial nem nos primeiros anos atribulados mas heróicos da independência, um resgate que redundará à medida de sua efectuação, em benefício cada vez maior do povo angolano e de todos os povos circunvizinhos de acordo com a trajectória do movimento de libertação e do âmbito de sua actuação ao longo de quase meio século.

Sem menosprezo por todas as participações honrosas de outros povos, países e estados, a participação da revolução cubana nessa longa batalha parece-me na minha modesta opinião, mais que nunca inquestionável e incontornável.

Em Outubro de 2004, no desaparecido semanário luandense “ACTUAL”, publiquei um artigo que em muitos aspectos parece ter sido uma “antevisão” à fasquia hoje alcançada nos relacionamentos bilaterais entre Angola e Cuba.

Se o “ACTUAL” pagou o seu tributo pelo facto de não alinhar com o padrão de globalização que até ao final da “era Bush” foi imposto, pois aqui está hoje o “sobrevivente” Martinho Júnior, para fazer lembrar o que então foi escrito no nº 414, um dos últimos que foi publicado.

O desaparecimento do “ACTUAL” muito teve a ver com o facto de ser manifestamente arredio ao padrão de “mercado” que foi instaurado em Angola e por isso as “leis” desse “mercado”, nos termos da discreta mas muito eficiente actuação económica e financeira eminentemente anti democrática de alguns poderosos (por vezes em função de suas manifestas ou veladas “parcerias”), acabou por ditar em relação a esse “pasquim” uma sentença comparativamente pior que o lápis da então censura fascista, nos termos que com muita propriedade conheceu por exemplo Almeida Santos em tempo colonial e em Moçambique: durante o colonialismo, o lápis cortava o que “não interessava”, ou cortava o artigo por inteiro, sobrevivendo o jornal (embora alguns ousados jornalistas passassem em “estágio” pelas prisões políticas da PIDE/DGS…), mas em plena época de globalização “mata-se” o jornal, ainda que haja a sobrevivência de quem escreve sem passar pelo “estágio” nas prisões…

Mais de quatro anos depois, a “Operação Carlota II” afinal está aí, no âmbito dos acordos bilaterais que têm vindo a ser desenvolvidos entre Angola e Cuba, com particular ênfase nos domínios da saúde e da educação a partir de 2007 e em função da visita do Presidente José Eduardo dos Santos a Cuba.

Agora em retribuição, o Presidente do Conselho de Estado e de Ministros de Cuba, Raul de Castro, na sua intervenção na Assembleia Nacional de Angola, lembrou uma vez mais a saga da escrava Carlota, cuja audácia libertária e anti colonial, paga com sua própria vida, serviu para dar nome e inspiração às iniciativas deste lado do Atlântico por parte das Forças Armadas Revolucionárias cubanas em 1975, na peugada do Che e nos termos da ajuda solidária e decisiva ao movimento de libertação contra o colonialismo e depois contra o “apartheid”.

De Cabinda ao Cunene e do mar ao leste hoje, a presença de médicos e professores cubanos em novas formas de cooperação, é um exemplo de que a irmandade entre os dois povos e linearmente a comunhão de pontos de vista e de acção entre os seus respectivos estados, não terminou com o calar das armas e pode assumir fórmulas avançadas e inultrapassáveis, tendo como horizonte a edificação estratégica da paz social.

Cuba contribui “aqui e agora”, mesmo que hajam dificuldades e desequilíbrios de toda a ordem, para que em Angola (entenda-se em toda a sua vasta extensão, mesmo nas periferias onde nem estradas ou caminhos há), se altere profundamente e para melhor o quadro dos Índices de Desenvolvimento Humano.

Cuba contribui também, em termos de educação, para aplicação duma valiosa amplitude de programas e empenhos a vários níveis, entre eles (finalmente) o programa “Yo sy puedo”; a ajuda cubana cobre desde a implementação do combate ao analfabetismo, até à formação superior de jovens com conhecimentos científicos e capacidade de investigação.

Antes, em plena luta contra o “apartheid”, a ajuda cubana em Angola foi de tal modo inteligente, perspicaz e de tal forma solidária em relação a Angola e aos seus interesses, que a diplomacia norte americana da época reconheceu pela via de intervenientes da estirpe de Herman Cohen, que paradoxalmente as FAR contribuíram para defender interesses como os das multinacionais do petróleo norte americanas, quando atacadas pelos então “discretos aliados” dos Estados Unidos em África, o regime do “apartheid” na África do Sul.

“Apanhada em contra pé” no episódio do ataque do Recc 4 a Malongo (“Operação Árgon”), operação essa comandada pelo então capitão Winand Johannes Petrus du Toit, a diplomacia norte americana só tinha a partir daí uma alternativa de ordem geo estratégica: contribuir para que de forma aberta ou velada se acabasse com o regime de “apartheid” na África do Sul e se tornasse possível ao menos os parâmetros universais do que a democracia representativa apregoava e apregoa – “um homem, um voto”.

Os dados estavam lançados e na longa batalha do Cuito Cuanavale, Angola e Cuba acabaram por explorar vantagens dessa geo estratégia que afinal advinha já de alguns anos antes, vantagens que sobrevivem até hoje no âmbito do actual cenários de acordos Angola-Cuba.

Se na altura em plena Guerra Fria isso foi possível, “baralhando” senão confundindo sucessivas administrações norte americanas (à margem das iniciativas da URSS), agora em plena crise global e com o fim da “era Bush”, a presença cubana em Angola nos termos em que ela se arquitecta e por maioria de razão, pode ser entendida por não só não constituir ameaça alguma às políticas de relacionamento e aos interesses norte americanos em Angola, como constituem, pela via da posição solidária para com Angola, um “piscar de olhos” realista (sem ilusões), de entre os vários sinais de expectativa já emitidos por parte de Cuba face à recentemente inaugurada administração democrata de Barack Hussein Obama.

Na “terapia” que pretende constituir o conjunto de políticas de reconciliação e de reconstrução nacional, a “via cubana” no âmbito da ampla “harmonia” que tacitamente se instituiu em Angola, agora que a “doutrina Bremer” se constituiu num autêntico fiasco no Iraque, é um bom exemplo perante o que de há muito os norte americanos têm sido incapazes de realizar com os preconceitos típicos de seu poder unipolar.

Neste momento à administração democrata de Barack Hussein Obama é conferida em Angola oportunidade para reconhecer, no âmbito de políticas multi polares muito mais saudáveis do que as protagonizadas por tantos “Chicago boys” que foram ao longo de dezenas de anos e a partir de Pinochet espalhados pelo mundo (inclusive em Angola e na espinha dorsal das “novas elites”), que pode haver muito mais vantagens que constrangimentos numa via multipolar que aproveita a harmonia possível e a confluência senão conjugação de interesses e de esforços…

O Presidente angolano lembrou a propósito e oportunamente no seu discurso:

“A actual crise económica que o mundo atravessa, e que atinge também os nossos países, é um constrangimento que temos de
contornar para que ela não afecte o nosso programa de cooperação.

Essa crise veio recordar que ninguém é detentor da verdade absoluta e que, mais do que tentar impôr os seus regimes e modos de vida a todos os outros, importa que cada povo encontre as soluções mais adequadas ao seu estágio de desenvolvimento”.

(…)

“Cuba também foi sempre um modelo de independência e de coerência no caminho que escolheu, e, apesar do isolamento a que foi votada, por causa de um anacrónico e absurdo bloqueio, nunca deixou de garantir o mínimo essencial a todos os seus cidadãos, conseguindo resultados extraordinários no domínio científico e educacional.

É nessa similaridade de destinos que cada um de nós estabelece as vias que considera racionais para a abertura política e económica ao mundo multipolar e para a construção de uma sociedade cada vez mais democrática e moderna”.

Oxalá que os índices terríveis de corrupção e de outros vícios (entre eles a expansão da droga) existentes em Angola, uma resultante também das transformações e dos traumas da guerra, mas essencialmente um fenómeno que cresceu com a globalização, não impeçam que Cuba crie em relação a esse tipo de “discretos riscos e ameaças”, os anti corpos perante esse flagelo, contribuindo para que Angola também os produza e com isso seja ética e moralmente possível imunizar todas as práticas construtivas e solidárias de quem veio dar uma contribuição tão valiosa a Angola e ao seu povo, coisas alheias de facto ao tipo de “mercado” que surgiu ao longo fundamentalmente da década de 90 em Angola.

Também neste caso, há de minha parte uma enorme expectativa, pois a resposta da presença cubana em Angola não será dada ao nível por exemplo da resposta da presença chinesa, ou da vietnamita.

Martinho Júnior - 5 de Fevereiro de 2009

http://pagina-um.blogspot.com/

* Martinho Júnior pertence ao coletivo de Página Global/Fábrica dos Blogues, foi colunista do semanário Actual, de Luanda, falido no último trimestre de 2004. Reproduzido no Informação Alternativa e em outras publicações. Para breve a publicação de um livro. Antigo combatente do MPLA na luta pelo resgate do colonialismo, do “apartheid” e das suas sequelas. Identificado com o povo angolano, mantendo um ponto de vista histórica e sociologicamente à esquerda do actual espectro político angolano. A vocação para a escrita redunda dessa identificação, tendo começado a publicar na última década do século passado.

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