terça-feira, 23 de outubro de 2018

O capitalismo e o desenvolvimento do Terceiro Mundo

O capitalismo e o desenvolvimento do Terceiro Mundo


Prabhat Patnaik [*]

Aquilo a que hoje chamamos terceiro mundo nem sempre existiu na sua forma actual. Ele experimentou uma transformação estrutural específica devido à intrusão do capitalismo metropolitano, devido ao que alguns economistas, a começar por Andre Gunder Frank, classificam como "o desenvolvimento do subdesenvolvimento". Na Índia por exemplo os processos de "des-industrialização" (importações da metrópole deslocando produtores artesanais internos) e a "drenagem de excedente" (o desvio sem qualquer contrapartida de uma parte do excedente do país através do sistema de tributação colonial), provocou um enorme aumento na pressão sobre a terra por parte da população e engendrou a moderna pobreza em massa.

Uma vez que o "subdesenvolvimento" do terceiro mundo foi o resultado da maneira pelo qual ele foi integrado na economia capitalista mundial, na época da descolonização acreditava-se geralmente que os povos desta região só poderiam progredir sob um regime económico alternativo que os livrasse de tal integração. E uma vez que o capital metropolitano não iria tolerar isto, e a burguesia – temerosa quanto à ameaça à sua própria posição devido à sua chegada tardia ao cenário histórico (razão pela qual ela também fazia causa comum com os interesse fundiários internos) – era incapaz de enfrentar o capital metropolitano, tal libertação só poderia ser efectuada através de um estado baseado numa aliança dos trabalhadores com o campesinato. Este argumento da esquerda exerceu na época uma considerável influência intelectual; e estes países eram vistos a procederem tal libertação por etapas ao longo do tempo rumo ao socialismo. O desenvolvimento do terceiro mundo não era, portanto, encarado como ocorrendo através da busca de um caminho capitalista de desenvolvimento; isso só poderia ocorrer através da busca de uma trajectória alternativa que o levasse ao socialismo.

Tal entendimento, entretanto, começou a ser desafiado na era neoliberal com o argumento de que os factores que no passado haviam produzido a segmentação do mundo não estavam mais operacionais. Subjacente a esta segmentação, a qual exprimia-se na dicotomia entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos, estava o facto de que o trabalho destes últimos não era livre para mover-se para os primeiros e o capital destes, através de movimentos juridicamente livres para os segundos, por variadas razões relutava em fazê-lo, excepto para capturar o mercado destes últimos ou apossar-se das matérias-primas dos mesmos. Por outras palavras, apesar de os salários destes últimos serem muito mais baixos, o capital dos primeiros não localizava ali fábricas para atender ao mercado global, incluindo o metropolitano.

Esta situação, de acordo com este novo argumento, mudou sob a globalização neoliberal. O capital metropolitano estava agora desejoso de localizar fábricas no terceiro mundo a fim de explorar seus salários mais baixos para atender à procura global. De facto, a relocalização de várias actividades manufactureiras e do sector de serviços da metrópole em países do terceiro mundo, especialmente no Leste, Sudeste e Sul da Ásia, sugeriam agora que mesmo dentro da estrutura do capitalismo mundial estes países poderiam ainda assim experimentar desenvolvimento económico rápido.

Tal argumento naturalmente era falho, mesmo no momento em que estava a ser avançado. A mesma ordem neoliberal sob a qual tal difusão de actividades estava a ocorrer, da metrópole para o terceiro mundo, também estava a lançar um feroz ataque à pequena produção e infligia um processo de acumulação primitiva de capital dentro do terceiro mundo. E, ao mesmo tempo, estava a gerar empregos tão escassos no terceiro mundo, mesmo quando as taxas de crescimento do PIB dessas economias eram impressionantes e sem precedentes, que a pobreza em massa realmente se agravou, ao invés de ser aliviada, apesar desse crescimento elevado.

Mas agora o capitalismo mundial entrou numa nova fase em que até mesmo essa difusão, como estava a ocorrer na era neoliberal, está a ser restringida. Portanto a própria premissa do argumento que via o terceiro mundo como a desenvolver-se dentro do quadro do capitalismo mundial, ou seja, mesmo sem desligar-se do quadro do capitalismo mundial através de controles adequados de comércio e capital, perdeu sua relevância. O proteccionismo de Trump pretende precisamente restringir tal difusão da actividade da metrópole para o terceiro mundo, e isto é apenas um sinalizador do facto de que o regime neoliberal está agora num beco sem saída.

Trump, deve-se notar, não pretende de modo algum desfazer-se do neoliberalismo. Ao contrário, ele está a manter o núcleo da organização neoliberal, a qual é mobilidade global do capital financeiro. Mas ele está a estabelecer restrições ao capital americano (e a outros capitais metropolitanos, bem como capitais do terceiro mundo) a que localizem instalações de produção dentro do terceiro mundo a fim de atender à procura americana. E ele está a compensar o capital americano que seria prejudicado por tais restrições através de concessões fiscais em grande escala sobre lucros corporativos. As medidas de Trump, por outras palavras, são calculadas de modo a não provocar danos ao capital americano; mas elas certamente impediriam a difusão de actividades da metrópole para o terceiro mundo que supostamente são o instrumento para inaugurar o desenvolvimento do terceiro mundo mesmo dentro da estrutura do capitalismo mundial.

As medidas de Trump têm de ser entendidas no contexto da crise que engolfou o capitalismo mundial no período da globalização neoliberal. Na raiz desta crise está o facto de que a própria relocalização de actividades das metrópoles para o terceiro mundo tem mantido baixos os salários reais nas metrópoles. Ao mesmo tempo, isto não elevou os salários reais no terceiro mundo pois a grandes reservas de trabalho nestes, criadas no período colonial, longe de ficarem esgotadas, estão a crescer ainda mais. Se bem que o vector dos salários reais na economia mundial permaneça assim mais ou menos constante, o vector da produtividade do trabalho aumentou muitíssimo, resultando em um enorme aumento na fatia de excedente da produção mundial. Isso cria uma tendência à superprodução na economia mundial, uma vez que a fatia do consumo do excedente é menor do que a dos salários. Esta tendência, no entanto, foi mantida sob controle nos EUA devido a dois booms baseados em "bolhas", primeiro a “bolha das dot.com” nos anos noventa e depois a “bolha habitacional” no início deste século.

Com o colapso da bolha habitacional e sem nenhuma nova bolha a substituí-la, a economia dos EUA, e com ela a economia capitalista mundial, entrou num período de crise, provocando descontentamento generalizado em massa e uma ameaça à estabilidade social do sistema. A classe trabalhadora, já afligida há muito por salários estagnados, agora tem de enfrentar o fardo agravado do aumento do desemprego.

A solução de Trump para a crise é a busca daquilo a que economistas chamam a política do "roubo o meu vizinho"("beggar-my-neighbour"), a qual equivale a roubar empregos de outros países, especialmente países do terceiro mundo, a fim de aumentar o emprego nos EUA. A estagnação na economia mundial, por outras palavras, não está a ser superada. Mas dentro desta estagnada economia mundial, os EUA estão a tentar melhorar sua posição a expensas dos outros. Embora isso possa melhorar a posição dos EUA por algum tempo, até que outros comecem a retaliar, ela não supera a crise do capitalismo mundial. Ao contrário, quando outros retaliarem, esta crise será agravada ainda mais, o que só confirma o facto de que o capitalismo neoliberal chegou a um beco sem saída.

Nesta situação desaparecem claramente quaisquer esperanças de que o terceiro mundo continuasse a ser o beneficiário da difusão de actividades da metrópole e dessa forma continuasse a crescer rapidamente dentro do quadro do capitalismo mundial. Este crescimento, como vimos, foi acompanhado por um agravamento da pobreza em massa e não do seu alívio. Mas agora até esta trajectória de desenvolvimento chegou ao fim.

Os países do terceiro mundo terão doravante de adoptar medidas para desenvolver o seu mercado interno. Daqui em diante, para qualquer crescimento terão de confiar no mercado interno ao invés do mercado de exportação, o qual é atingido pela estagnação económica mundial e pelo proteccionismo dos EUA. Isto exigirá o crescimento da agricultura camponesa, de maior igualdade de rendimento interno, de um aumento generalizado nos salários reais, de uma elevação do salário mínimo e de uma activação da despesa estatal. Uma vez que tais medidas enfrentarão a oposição da finança globalizada, a qual precipitaria uma fuga de capitais e portanto uma crise financeira, terão de ser postos em vigor controles de capitais. E como isto é provável que torne muito mais difícil financiar défices de transacções correntes das balanças de pagamentos, também terão de ser instituídos controles de importações.

Contudo, todas estas medidas exigiriam uma mudança na natureza do Estado, na aliança de classe que o sustenta. Só uma aliança trabalhadores-campesinato que possa sustentar um estado [poderá] assistir a uma ultrapassagem da crise e estagnação para a qual o terceiro mundo está a ser inexoravelmente empurrado nesta nova situação, a qual assinala o beco sem saída do capitalismo neoliberal. E uma vez que a trajectória de desenvolvimento anunciada por um estado apoiado por uma tal aliança será caracterizada por um movimento rumo ao socialismo através de etapas, o velho argumento de que o desenvolvimento do terceiro mundo pode ocorrer só através da busca de um caminho que conduza ao socialismo readquire uma relevância enfática na nova situação. 

21/Outubro/2018

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia 

O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2018/1021_pd/capitalism-and-third-world-development . Tradução de JF. 

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ 
Outras e o Aeroporto do Montijo | Memórias de Cavaco. Que memórias?

Outras e o Aeroporto do Montijo | Memórias de Cavaco. Que memórias?


Que a múmia Cavaco Silva fez sair um novo livro das suas memórias, falta saber se inclui as suas habituais dislexias e mentalidade de Chico Esperto embalado em mortalha de desperdícios de alfarrobas recicladas. Vá, ajude lá  o dito traste a amealhar mais uns euros à sua fortuna e assim preencher ainda mais os seus mergulhos matinais na Casa Forte inspirada na arquitetura do Tio Patinhas, onde o brasão da avareza e da ganância se salientam. O múmia falou, está falado. Adiante.

No Curto é Centeno que tem a honra de ser mira de Vieira Pereira, o autor das laudas de hoje. Não vamos nessa porque urge dar aqui destaque a algo de hediondo praticado pelo grande aliado dos EUA e do terrorismo, o rei assassino da Arábia Saudita. Isto para não falar da mortandade igualmente assassina e desumana no Iemen que tal poderoso saudita gera com a satisfação natural nos criminosos a escorrer-lhe prazenteiramente pelos cantos da boca. É assim, por escolha considerada imperiosa, que vamos direitinhos a fazer referência ao que hoje é trazido no Expresso sobre o assassínio da Arábia Saudita num seu consulado na Turquia, Jamal Khashoggi (na foto), a vítima. Aqui tem o resumo a que pode aceder no dito Expresso de hoje, via The Washington Post:


As suspeitas são monstruosas: Jamal Khashoggi terá sido torturado, assassinado e depois desmembrado no interior do consulado em Istambul da Arábia Saudita, país onde nasceu e de cujo regime era crítico. O “Washington Post” publicou na semana passada o último artigo escrito pelo jornalista saudita e é um dever de liberdade traduzi-lo e publicá-lo na íntegra”

Vá ao Expresso para acabar o resto, na íntegra. Tem de pagar. Claro. O Bilderberg não brinca em serviço e para o tio Balsemão os almoços grátis acontecem só na Sopa do Sidónio, ali para os Anjos, Lisboa. Adiante. Pois.

Aeroporto no Montijo… Quem comprou há muitos anos terrenos à volta e tem projetos de “desenvolvimento” naquela zona? Não foi também um amigo de Cavaco Silva – aquele que tem que ver com a casarona do dito múmia na Aldeia da Coelha em Albufeira? Ai, esta memória! Credo, como é que ele se chama… Fernando Fantasia. E mais: SLN, Oliveira e Costa, BPN. Credo. Um ex-ministro de Cavaco, Arlindo de Carvalho. E houve suspeitas de… Bem, o melhor é recuarem no tempo e ir diretamente às referências, por exemplo: Os 6 mil hectares de terrenos que a SLN comprou a alguns kilómetros do novo aeroporto. E outra – da mesma gingajoga com suspeitas mas arquivada em 2017: 

Ministério Público arquiva mais um caso no BPN”. No jornal SOL, onde se pode ler: “Processo que envolvia Emídio Catum e Fernando Fantasia, na compra de terrenos da Herdade Rio Frio, não vai a julgamento. O Estado ficou lesado em quase em 70 milhões de euros.” E vai por ali com trocas baldrocas de nomes de empresas p’ráqui e nomes de suspeitos p’rácolá. Arquivado pelo Ministério Público. Pois. E o grande ex-ministro e amigo de Cavaco, Dias Loureiro… também arquivado. Pois. Há Padrinho?

Ai o Aeroporto do Montijo! Ai os livros de Cavaco! Ai Portugal, Portugal!

Mais ou menos, disse Cavaco em tempos: “Ainda está por nascer alguém mais honesto que eu”. Pois. É mesmo de acreditar, não é? Sim. Pois. Sem lugar a dúvidas. Pois.

E é também sobre o tal Aeroporto no Montijo que o Curto traça linhas de texto. Vá ler. Por nós acabamos aqui. Os vómitos são mais que muitos. Bom dia. Não contenha os vómitos porque ainda agora o dia mal começou e passar muitas horas agoniado é muito desagradável. Até amanhã, se não choverem memórias desagradáveis de grandes mestres de suspeições ou dos que em terra de cegos têm olho, são reis e não dão cavaco a ninguém. (MM | PG)

Bom dia este é o seu Expresso Curto

Querem ver que é desta que Centeno explica como conseguiu

João Vieira Pereira | Expresso

Sim Sr. Ministro Caro Mário Centeno, sabemos que hoje à tarde vai ao Parlamento tentar explicar que o Orçamento do Estado (OE) mais eleitoralista da geringonça não é eleitoralista. Não perca tempo Sr. Ministro, em anos de eleições os governos fazem orçamentos eleitoralistas. É uma espécie de dogma democrático. Aplicado a todos os governos. Só Passos Coelho foi a exceção que confirma a regra, e veja como ele acabou….

Mais vale perder tempo a explicar porque é que a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) diz que o défice que importa para Bruxelas, e que está implícito no OE2019, é afinal de 0,5% e não de 0,2%. Isto tudo porque o documento que apresentou não identifica que medidas de poupança adicionais irá tomar. Não me diga que vai voltar a cativar, cativar e cativar, fazendo com que as metas da despesa inscritas sejam, mais uma vez, ‘para inglês ver’?

E já agora, aproveite para explicar, mas para que todos entendamos, o puxão de orelhas de Bruxelas. É que na sexta-feira passada os seus amigos fizeram saber que duvidam que o seu Orçamento seja capaz de cumprir as metas exigidas pela Europa (nota: se não gosta de economia salte já para o próximo parágrafo — nomeadamente porque o esboço do OE tem uma taxa de crescimento da despesa primária de 3,4%, quando a recomendação é que aumente no máximo 0,7%, e porque a diminuição do défice estrutural não vai ser de 0,3%, mas apenas de 0,2%).

Sim... bem sei que o Senhor ministro já respondeu à carta de Bruxelas. Só que responder com um ‘já fizemos muito e não conseguimos medir o impacto do que ainda vamos fazer’, até pode bastar para o seus colegas do Eurogrupo, mas os portugueses merecem um pouco mais, não acha? Às 15 horas ficaremos a saber a resposta.

PS. Tente também dizer algo mais do que disse António Costa aos militantes do PS, num discurso que parecia que já estávamos em eleições. Que este orçamento é bom para quem vota já sabemos mas explique lá como é que "garante o futuro".

Cavaco volta Saiu como um dos presidentes com menor popularidade. Pela porta pequena. Mas antes ganhou três eleições legislativas, duas com maioria absoluta e mais duas para Presidente (perdeu uma). Não há político com mais vitórias do que ele. Amanhã apresenta o segundo volume das suas memórias de Presidente, desta vez do período entre 2011 e 2015, onde ficamos a saber alguns segredos, muitas considerações e até alguns recados. Sobre António Costa nada de novo: “um mestre em gerir a conjuntura” e em “empurrar para a frente os problemas de fundo”.

Lisboa Medina e moça Entraram em vigor as novas regras para o alojamento local. E no mesmo dia ficamos a saber que a residência oficial do presidente da Câmara de Lisboa está disponível para esse fim no ’booking’, um site de reservas turísticas. Fernando Medina já veio explicar o caricato da situação. Diz o presidente da Câmara Municipal de Lisboa que a residência oficial já não o é. Carrega o nome mas só isso. O edifício foi concessionado porque deixou de ser a casa do presidente.

Ainda sobre o alojamento local, há mais cinco zonas onde este tipo de atividade pode ser limitada. Depois da suspensão de novos registos no Castelo, Alfama, Mouraria, Bairro Alto e Madragoa, Medina colocou sob apertado controlo a Baixa e os eixos da Almirante Reis e da Avenida da Liberdade/Avenida República, a Colina de Santana, a Graça, a Ajuda e a Estrela.

Montijo jamais O novo aeroporto do Montijo está em risco. A notícia é avançada pela SIC segundo a qual a construção do novo aeroporto está de novo num impasse, já que foi recusado o Estudo de Impacto Ambiental apresentado na última primavera pela ANA.

MBS, rima com quê? Mohammed bin Salman (MBS), o Príncipe saudita que entrou na ira do mundo por causa da morte do jornalista Jamal Khashoggi, está a começar a sentir os efeitos do caso. O PIF é um fundo soberano da Arábia Saudita, um dos maiores do mundo, e que investe nas mais variadas empresas e setores. Ele esperava que este fundo, símbolo do seu poder, tivesse 600 mil milhões de dólares sob gestão até 2020 (qualquer coisa como três vezes o PIB anual português). Esta terça-feira, Riade recebe a conferência anual de investimento do PIF, que no passado chegou a ser apelidada de “Davos no deserto”, mas este ano, e por causa do caso Khashoggi, está a ser alvo de boicote. O relato do poder de MBS e de como este pode ser afetado pelo crime hediondo perpetuado pelo seu país, é o cerne deste trabalho do Financial Times que não pode perder.

Hoje é dia D para o caso. É esperado com expectativa o discurso do Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan, que anunciou que irá desvendar toda a verdade sobre o caso.

O Expresso reproduz aqui o último artigo escrito pelo jornalista saudita, tal como foi publicado no Washington Post.

Pode acompanhar neste espaço as últimas novidades do caso, desde as imagens do duplo, que vestido com as roupas de Khashoggi saiu da consulado em Istambul, até aos quatro telefonemas que um dos elementos que costuma acompanhar MBS nas suas viagens fez do consulado para o escritório real na noite do crime.

Marcelo e Joana O presidente da República condecorou Joana Marques Vidal com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo e salientou que o fazia porque esta condecoração "é mais, muito mais do que um gesto protocolar na linha da tradição",

Afinal estamos no pódio Portugal tem a terceira dívida mais alta da União Europeia. Vou repetir, só para não se esquecerem. Temos a terceira maior dívida pública entre 28 países europeus.

Por falar em dívidas O endividamento total da economia portuguesa voltou a aumentar em agosto. É agora de 719,217 mil milhões de euros, mais 1,6 mil milhões de euros face ao mês anterior. Segundo o Banco de Portugal a causa está no maior endividamento do setor público.

Non pensare nemmeno Não, não e não. O populista governo italiano recusa-se a mudar o orçamento e a reduzir o seu plano para aumentar de forma significativa a despesa pública. Bruxelas pediu a Itália para rever o documento, a resposta, por carta, não podia ter sido mais clara: nem pensar. Apesar do não, os responsáveis italianos dizem que não está em causa a estabilidade do euro e garantem que não haverá um “Italexit” da moeda única.

Grécia é numero um A Grécia é o país da zona euro que cobra mais impostos indiretos, e não há indícios de qualquer desagravamento fiscal em 2019.

Falem por favor A Europa apelou a um diálogo entre os Estados Unidos e a Rússia para preservar o tratado sobre a proliferação de armas nucleares, do qual Washington anunciou querer retirar-se por alegadas violações de Moscovo.

Bandido é gente? Peço desculpa se o choquei, só que chocado estou eu com a Associação Sócio-Profissional Independente da GNR que, na sequência da divulgação das fotografias da captura dos três presos que se evadiram das instalações de um tribunal, fez saber “não ficar indignada com as fotografias expostas publicamente, pois considera que os criminosos – nelas identificados como tal – não são merecedores do mesmo respeito e consideração, por parte do Estado e da comunidade, atribuídos ao cidadão comum”.

Médicos caem no Porto Depois da saída de um diretor do serviço de anestesiologia, há 11 meses, mais dois médicos apresentaram a sua demissão no Hospital de São João. Um de diretor do serviço de cirurgia plástica e o outro de diretor do serviço de anestesiologia. Segundo o Público, alegaram falta de condições para gerir aqueles departamentos.

Há vida em Marte Pelo menos há a possibilidade de haver depósitos de água salgada com oxigénio suficiente para suportar vida.

Bolsonaro soma e segue Nova sondagem dá a Jair Bolsonaro 57% das intenções de votos e 43% a Fernando Haddad. Mas a menos de uma semana das eleições Haddad ganha nova aliada. A candidata derrotada, ex-senadora e ex-ministra Marina Silva, declarou o apoio ao candidato do PT. Na guerra da informação, o Facebook removeu 68 páginas e 43 contas da rede social que formavam a principal rede de apoio de Bolsonaro naquela rede social, por violarem as políticas de autenticidade e spam. A empresa fez saber que o conteúdo compartilhado pelas páginas não teve influência sobre a decisão.

O efémero Snap O Snapchat já não é o que era, o mesmo que dizer, já não vale o que valia, e o FT explica o que está a correr mal

A ponte Tem 55 quilómetros e é a maior travessia do mundo sobre o mar. É inaugurada hoje e liga Macau, Zhuhai e Hong-kong.

A borracha de Macau O novo governo está aos poucos a substituir os desenhos que ‘pintam’ a calçada portuguesa, deixada como herança histórica em Macau, por motivos ligados à cultura chinesa.

O trauma é hereditário? E se os filhos dos sobreviventes de campos de prisioneiros sofressem com a dor dos pais. É isso que mostra um estudo sobre mil descendentes de soldados da Guerra da Sucessão nos EUA. Os filhos dos militares que tiverem no campo de prisioneiros de Andersonville viveram menos tempos que os filhos de outros militares e até do que os irmãos nascidos antes da guerra.

Addio Benetton Morreu Gilberto Benetton, o fundador do grupo, aos 77 anos.

Winter is comming É desta que o verão acabou? Vem aí frio e até neve.

Para ouvir acompanhado Ainda há muitos concertos para ver este ano e muitas novidades para o próximo. Não perca o que pode ver e ouvir nos próximos meses.

Para ir só Para quem gosta de viajar sozinho aqui fica a lista dos melhores países para visitar.

As capas dos jornais de hoje A nova lei das rendas faz o destaque do Público. O jornal escreve que os novos contratos de arrendamento vão ter uma duração mínima de três anos já que passam a ter renovação automática e só ao fim daquele período os senhorios podem opor-se. O Jornal de Notícias faz manchete com a notícia de que falhas nas farmácias deixaram 45 milhões de medicamentos por aviar. O diário destaca ainda casos de estudantes que abandonaram o ensino superior por falta de capacidade financeira para suportar os custos. O jornal 'I' coloca em manchete o caso da casa do presidente da Câmara de Lisboa, que já referi em cima. O Correio da Manhã escolheu para destaque as declarações de Rosa Grilo à juíza de instrução do caso em que é suspeita de ter morto o marido.

FRASES

“O que aconteceu nas últimas semanas não altera em nada aquilo que é a preocupação fundamental. Os portugueses têm de saber o que aconteceu com o desaparecimento das armas, quem foi, como, porquê, de que maneira, com que destino, e depois como é que foram recuperadas”, Marcelo Rebelo de Sousa sobre Tancos.

"É uma medida [o aumento do imposto de selo] disfarçada de moralização ou de moderação do crédito na economia, é verdadeiramente uma medida para obter mais receitas para os aumentos de despesas que se querem fazer", António Lobo Xavier.

“Sei que sou um exemplo fora e dentro do relvado. Por isso é que estou sempre feliz. Sou abençoado, sou saudável, tenho uma família fantástica, tenho quatro filhos e tenho tudo, por isso, o resto não interfere em nada”… “Os advogados estão confiantes. Eu também. Há pessoas que tratam da minha vida e a verdade vem sempre ao de cima”, Cristiano Ronaldo nas primeiras declarações públicas desde que foi acusado de violação por Kathryn Mayorga

O QUE EU ANDO A LER

Leïla Slimani é a nova menina bonita da literatura francesa. Mas a sua escrita tem pouco de bonito, muito menos de inocência. Em 2016, a escritora e jornalista nascida em Marrocos, ganhou o prémio Goncourt. Mas o momento que a atirou para o estrelato foi protagonizado por Emmanuel Macron. Primeiro o Presidente francês convido-a para Ministra da Cultura, cargo que recusou, depois insistiu que ocupasse o lugar de embaixadora da Francofonia, cargo que aceitou.

‘No jardim do ogre’, não é um livro bonitinho. É cru, é árido, é bruto. Mas a escrita de Slimani cativa pela sinceridade que encerra. Para quem gosta do género existencialista, repleto de erotismo, esta é uma obra a não perder.

Este Expresso Curto fica por aqui. Tenha uma ótima terça-feira. Durante o dia acompanhe toda a atualidade em www.expresso.pt e não se esqueça que às 18 horas tem uma nova edição do seu Diário. Amanhã o Curto regressa pelas mãos de Pedro Santos Guerreiro.
Brasil | Um aliado de peso: as notícias falsas

Brasil | Um aliado de peso: as notícias falsas


Ana Alexandra Gonçalves* \ opinião

Jair Messias Bolsonaro, bem colocado para vencer as eleições brasileiras, contou com um aliado de peso: as notícias falsas veiculadas pelas redes sociais, onde a vitimização e as teorias da conspiração fazem escola.

Mais: segundo uma investigação do jornal Folha de São Paulo, várias empresas privadas, naturalmente apoiantes de Bolsonaro, pagaram a empresas de marketing para despejarem centenas de milhões de mensagens com propaganda anti-PT. O Whatsapp terá sido o veículo escolhido. Recorde-se que as empresas privadas não podem, à luz da lei brasileira, financiar candidatos políticos.

Outro dado importante diz-nos que são os apoiantes de Bolsonaro são os que mais se informam via Whatsapp e 91 por cento dos brasileiros, em 2016 – ano do impeachment de Dilma – declarava informar-se pela internet, com 72 por cento a escolherem o Whatsapp ou o Facebook. E ainda recentemente um conjunto de investigadores brasileiros juntamente com uma agência de verificação de factos, chegou à conclusão de que em 347 grupos no Whatsapp apenas 8 por cento das imagens (com muita informação a passar através de fotografias e vídeos) podem ser consideradas verdadeiras. (notícia Sol).

Fernando Haddad já fez o pedido de impugnação da candidatura de Jair Messias Bolsonaro.

Em rigor, o enfraquecimento da comunicação social não pode ser dissociado do aumento exponencial de notícias falsas. Um meio de comunicação social até podia ter uma inclinação política, mais ou menos evidente, mais ou menos declarada, mas não veiculava notícias falsas, nem procurava polarizar o debate político ao ponto do ódio ser de morte. Em rigor, essa comunicação social que hoje está claramente enfraquecida mostrava-se determinante para as próprias democracias.

Neste contexto, assistimos, hoje mais do que nunca, até mais do que nas eleições americanas, a uma mudança de paradigma: são as redes sociais, conspurcadas pelas notícias falsas e dominadas por empresas de “marketing”, a determinar o resultado de eleições. E tanto mais é assim que Bolsonaro, a prova de que a idiotia pode mesmo ser premiada, nem se deu ao trabalho de participar em debates políticos que seriam perfeitamente reveladores de toda essa idiotia e boçalidade.

Paralelamente, a tecnologia, designadamente os seus rápidos avanços, foram determinantes para criar uma ilusão: com mais informação ao dispor dos cidadãos, as escolhas seriam mais fundamentadas e mais assertivas. Com mais tecnologia voltaríamos a viver uma época de luzes e não de trevas. Com mais tecnologia maior seria a consciência. Nada mais errado.

O enfraquecimento da comunicação social (amiúde por culpa própria) abriu espaço para as ditas redes sociais que, como Umberto Eco dizia, promoveram o “idiota da aldeia” do tempo da televisão ao “portador da verdade” no tempo da internet.

O resultado está à vista: eleições decididas em verdadeiras latrinas de desinformação, onde grassam discursos simplistas que exultam as massas apelando a um ódio que se alimenta precisamente da ignorância, da frustração, da confusão instalada naqueles que já não compreendem o mundo onde vivem, da ausência da esperança de tantos que se tornaram vítimas do capitalismo selvagem, dos níveis cada vez mais baixos de auto-estima tantas vezes disfarçada pelo recurso a uma multiplicidade de fármacos.

Assim, quando toda essa gente encontra alguém que mostre ser diferente, alimenta a esperança de que esse alguém lance finalmente luz sobre a confusão deste mundo, caindo rapidamente na ilusão de que terão encontrado o Messias.

*Ana Alexandra Gonçalves | Triunfo da Razão

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Brasil | Bolsonaro escancara: se eleito, volta a ditadura

Brasil | Bolsonaro escancara: se eleito, volta a ditadura


Se havia ainda alguma máscara sobre o que representa o candidato presidencial Jair Bolsonaro, ela acaba de cair. Seu vídeo exibido em telões na Avenida Paulista neste domingo (21), na cidade de São Paulo, é mais uma prova contundente do quanto a democracia corre efetivo risco.

De acordo com o candidato da extrema direita, o jornal Folha de S. Paulo, que denunciou o gigantesco esquema de recursos financeiros injetados em sua campanha por empresários via "caixa dois" para disparar avalanches de notícias falsas, as chamadas fake news, vai pagar caro pelo que fez. "A Folha de S.Paulo é a maior fake news do Brasil. Vocês não terão mais verba publicitária do governo", afirmou Bolsonaro.

“Imprensa vendida, meus pêsames”. Sentenciou. Traduzindo: liberdade de imprensa, adeus!
Ao prometer, se eleito, fazer "uma limpeza nunca vista na história desse Brasil", varrendo "do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil", o candidato da extrema-direita reafirmou também suas recorrentes ameaças à liberdade de organização partidária, de manifestação de pensamento e de opção política. Brandindo suas ideias totalitárias, Bolsonaro ameaçou pôr sob seu tacão todos os que se opuserem aos ditames da sua eventual governabilidade fascista.

“Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou (então) ou vão para fora ou vão para cadeia”.

Não há, em suas palavras, meio termo ou margens para se dizer que o país não estará, num hipotético governo bolsonarista, diante de um regime ditatorial. Ele anuncia, abertamente, que de nada valerão as garantias constitucionais sobre as liberdades de imprensa, de manifestação e de organização política.

O candidato fascista já havia dito, em outra ocasião, que seu governo acabaria com todos os ativismos do Brasil, quer dizer, criminalizaria os movimentos sociais.

Outro fato grave, nessa linha protofascista, é a fala do filho do candidato da extrema direita, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, que ameaçou os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) caso eles decidam fazer algum tipo de questionamento à candidatura bolsonarista, chegando ao ponto de cogitar o fechamento da instituição. Tal o pai, tal o filho...

Não foi um fala fortuita, como ele tentou dizer ao justificar suas palavras. Há um encadeamento nesses pronunciamentos, formando uma equação que apresenta como denominador a destruição da Constituição, da qual o STF é o seu guardião.

Além da afronta à liberdade de imprensa, anunciado por Jair Bolsonaro na manifestação da Avenida Paulista, há na sua promessa de simplesmente atropelar o "Título II" da Carta Magna, o dos direitos e garantias fundamentais, no caso específico o seu "Capítulo V", artigo 17, que assegura a liberdade partidária.

São duas questões-chaves da democracia ameaçadas pelo clã protofascista; as liberdades de imprensa e de organização política, o direito à manifestação de pensamento.

Diante dessa gravíssima ameaça, agora reiterada com todas as letras, na reta de chegada da votação final das eleições presidenciais, não há como haver desculpas sobre escolher entre a democracia e o arbítrio. Forjou-se o clima propício para esse tipo de degeneração ética e política, mas o momento é de invocar as responsabilidades cívicas de todos os democratas e patriotas para evitar que o país caia nas garras desses algozes das liberdades conquistadas nas duras jornadas que construíram o caminho do progresso civilizatório no Brasil.

Grandes empresários, rentistas, banqueiros, dobram seus “investimentos” na campanha de Bolsonaro. Estão seduzidos pela ideia de que um governo autoritário, disposto a usar a violência contra o povo, irá assegurar seus fabulosos ganhos.

Alguns setores da sociedade e mesmo personalidades que têm o dever de estar na linha de defesa da democracia minimizam essas ameaças, tratando os próceres do bolsonarismo como cães vira-latas que latem e não mordem. Grande erro! 

Mas, como disse o poeta e músico, Arnaldo Antunes: mas, ainda há tempo. 

Mais do que nunca a realidade exige um posicionamento firme, sem vacilo, sobre os destinos do país que emergirá das urnas do dia 28. 

A encruzilhada nunca esteve tão nítida: democracia ou ditadura; soberania ou entreguismo; direitos ou escravidão.

A resposta a tão grave ameaça é trabalhar e votar pela vitória da chapa Haddad-Manuela; é agregar, reunir, por em movimento amplas forças em defesa da democracia!

Vermelho | Foto: Marcelo Camargo/ Agência Brasil
Brasil | Campanha antipetista é a maior mentira em toda a história do Brasil

Brasil | Campanha antipetista é a maior mentira em toda a história do Brasil


Vejo muita gente apoiando Fernando Haddad com certo constrangimento, sem admitir que foi enganada o tempo todo pela campanha antipetista da mídia e pela atuação desonesta, parcial e partidária da cúpula do Judiciário, em especial o Ministério Público e os pit bulls da Operação Lava Jato.

Outros – em número muito maior – permanecem imersos no mundo das trevas, das notícias falsas e da histeria antipetista, usadas como justificativa para o endosso à aventura fascista, à tomada do poder por uma gangue altamente perigosa.

A verdade é que a tal "roubalheira do PT" nunca existiu. A mídia confundiu, de propósito, doações de campanha com propinas, para criminalizar esse partido e a política no seu conjunto. A campanha de acusações contra o PT é a maior mentira em toda a história do Brasil.

A mídia caluniou e desmoralizou a maior empresa brasileira, a Petrobrás, sem qualquer base real, movida por interesses inconfessáveis, ligados à busca da privatização dessa companhia estatal e à entrega do pré-sal ao capital externo.

 O grande erro do PT foi ter utilizado caixa 2 em suas campanhas eleitorais, do mesmo modo que todos os demais partidos sempre fizeram, impunemente. Também a vigilância sobre os gestores (alguns deles, corruptos) da Petrobrás e sobre a atuação das empreiteiras deveria ter sido maior, como Haddad já mencionou durante a campanha. Lula deveria ter mantido as empreiteiras e os empresários em geral a uma saudável distância. 

Mas o PT não é nem nunca foi um partido corrupto. Os casos de enriquecimento ilícito no partido são raros, como parecem ter sido os do Antonio Palocci e do Delcídio do Amaral. 

Lula mora no mesmo apartamento em que sempre morou. Nem o sítio de Atibaia nem o apê do Guarujá são dele. Nada, absolutamente nada foi provado quanto a isso. Com o poder e a influência que o Lula tinha, se quisesse, poderia ter se tornado um bilionário de padrão internacional, mas não mudou em nada o seu estilo de vida, nem o seu patrimônio. José Genoino mora na mesma casa modesta onde sempre morou, no bairro do Butantã. Zé Dirceu foi condenado sem qualquer prova, pela teoria maluca do "domínio do fato". Nunca existiu "Mensalão", essa foi outra grande fraude midiática. 

As denúncias da Lava Jato contra integrantes do PT são, quase todas, espúrias, obtidas pelo uso deformado do instrumento da delação premiada. O prisioneiro, para se livrar, diz o que os seus inquisidores querem ouvir. E o que o juiz Sergio Moro e a turma da Lava Jato queriam e querem ouvir é só uma coisa: aquilo que vai ferrar com o PT. 

É pena ver que muita gente honesta se deixou enganar por essa grande farsa da Lava Jato. Sem essa palhaçada, não existiria o antipetismo na dimensão que alcançou. E não estaríamos sob o risco de ter um bandido fascista no Planalto e um novo regime militar instalado no país. 

Não é de hoje que as empresas de mídia e o Poder Judiciário agem como instrumento a serviço dos poderosos, das classes dominantes. Mas tem gente, mesmo entre os setores mais instruídos da sociedade brasileira, que resiste a entender verdades tão simples. Preferem acreditar nas mentiras, em calúnias incrivelmente inconsistentes, a maioria delas já amplamente desmontadas, em público, pelos defensores dos petistas injustamente condenados. 

Por causa disso o país vive neste pesadelo. É uma pena mesmo.

Igor Fuser* | Brasil 247

* Professor de relações internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC)
Há 20 anos na República Democrática do Congo – contínua desestabilização II

Há 20 anos na República Democrática do Congo – contínua desestabilização II


Martinho Júnior | Luanda 

1- Desde a Conferência de Berlim, quando a bacia do poderoso rio Congo foi por inteiro entregue ao rei Leopoldo, que o colonialismo belga instaurou, em nome do seu domínio, políticas de genocida repressão com um mínimo de investimento e um máximo de saque e desumanidade.

O próprio enredo tropical e equatorial das condições físico-geográficas do imenso país instalado no coração de África e no que o continente tem de mais rico (água interior, biodiversidade e riquezas minerais), é um manancial de fragilidades e vulnerabilidades para si, quando até seus limites são artifícios coloniais impostos pela conferência das potências colonizadoras e para todos os outros 11 territórios seus circunvizinhos, correspondentes a outros tantos estados.

Além das ingerências e manipulações das potências extracontinentais e de forma geral de interesses capitalistas financeiros transnacionais, juntam-se em espiral todas essas fragilidades e vulnerabilidades, pelo que as tensões, os conflitos e as guerras, assumem-se em caos, em terrorismo e em convulsões “irregulares”, bárbaras, de geometria variável e mobilizando sobretudo o tribalismo, numa constante ânsia competitiva de “dividir para melhor reinar”.

O próprio colonialismo belga recebeu aditivos para que isso fosse assim, com a criação dos microestados do Ruanda e do Burundi, no leste da bacia do Congo e dominando os Grandes Lagos, com enormes excedentes de população rural apta a abandonar suas terras nas “mil colinas” e a internar-se no Congo a oeste, em fluxos migratórios instáveis que exploraram os potenciais de caos e das guerras, a fim de conquistar espaço vital.

Na profundidade antropológica, o Congo não adquiriu novos padrões produtivos e de trabalho, ou se o fez foi de forma muito insipiente, resultando em insuperáveis traumatismos para as culturas tradicionais, sem que fosse possível estabelecer um patamar sócio-cultural capaz de arrancar o país da letargia e do subdesenvolvimento.

Em resultado disso, a massa de deserdados aumentou, perdendo os laços tradicionais e adquirindo comportamentos próprios duma marginalidade afectada por expedientes de sobrevivência informais, não produtivos e em constante expansão, a ponto de sua mancha alastrar para dentro de Angola como um tentacular polvo em busca da riqueza fácil e das ilusões inerentes à exploração dos diamantes aluviais do Cuango, do Cassai, do Cuanza, até ao miolo do país, afecando inexoravelmente a região central das grandes nascentes…

Um dos contágios sócio-políticos é o grupo do Protectorado Lunda-Tchokwe, que num frenesim humano como esse continua a buscar as suas oportunidades!...


2- Agora que a democracia representativa implica em eleições mediante cronogramas aprovados constitucionalmente, muitas das situações anómalas que se vêm arrastando desde o passado ganham fôlego ciclicamente (à aproximação das eleições, durante e imediatamente depois), repetindo-se a intensificação de tensões, num território com tantas etnicidades, com tantos interesses dissonantes mas concorrentes e com infraestruturas rarefeitas, o que inviabiliza as comunicações, as ligações e os enlaces, com todas as repercussões antropológicas.

É nesse labirinto que, década a década, têm também proliferado os mercenários como aves de arribação de mau agoiro, desde companhias de aviação que transportam tesouros, logística e armamento, a companhias privadas militarizadas que ciclicamente alugam seus préstimos a todo o tipo de guerras de usura e de rapina.

No Congo o caos está por conseguinte institucionalizado numa amálgama de subculturas e, para que haja mais intensidade nesse caos, as disputas provenientes do exterior fornecem a sua quota-parte de enredos, fazendo imperar a miséria, a degradação, a fome e os intermináveis conflitos larvares.

Desde há largas décadas que muitas áreas transfronteiriças estão prontas para serem utilizadas por santuários rebeldes, por aventureiros de toda a (des)ordem, ou vínculos sócio-políticos, económicos e financeiros distendidos a partir do exterior, a partir de outros continentes, mas com um trânsito garantido em alguns dos países circunvizinhos, como acontece por exemplo com os vínculos que se despregam desde capitais como Kigali, Kampala, ou Bangui…

As próprias sensibilidades sócio-políticas que afluem aos convulsivos processos eleitorais, reflectem esse emaranhado de redes potencialmente à beira de tensões, de caos, de crime e de guerra, pelo que se há país onde a paz é uma constante miragem e não consegue passar disso, o Congo tornou-se num exemplo de subdesenvolvimento crónico e paradigmático!...

Parte substancial dos circuitos que antes alimentaram clandestinamente com todo o tipo de armas e logística, a Iª Guerra Mundial Africana, têm alimentado hoje os que se propõem a alimentar caos e terrorismo na Líbia, no Iraque, no Afeganistão, no Iraque, na Síria, ou no Iémen… os produtores de armas, as pistas e os portos de embarque têm sido sistematicamente os mesmos, apenas mudando alguns dos traficantes protagonistas (têm sido neutralizados traficantes concorrentes, como aconteceu com Victor Bout, um dos fornecedores das rebeliões congolesas e de Savimbi…).

As razões causais do caos de subdesenvolvimento crónico acumulam-se e a República Democrática do Congo continua a ser um dos constituintes da cauda dos Índices de Desenvolvimento Humano, arrastando consigo muitos dos seus circunvizinhos.


3- Lembrar o que ocorreu de forma mais intensa há 20 anos, sob os impactos do choque do capitalismo neoliberal, contribui hoje para o início de qualquer abordagem que se faça sobre o próximo pleito eleitoral na RDC, sabendo que as sensibilidades que chegam do exterior por via dos interesses financeiros transnacionais, estão “no terreno” jamais atraídas pelos “lindos olhos” dos autóctones, pelo contrário, estão ávidos de sua exploração desenfreada enquanto mão-de-obra barata, oprimida e convulsa, com acesso a matérias-primas cujo valor são os interesses desse mesmo domínio que fazem “eternamente” prevalecer.

Como Angola possui uma fronteira com o Congo de mais de 2000 quilómetros, todos os ambientes de crise larvar congolesa vão-se-lhe esbatendo, com agravantes provocados por migrações por dentro do continente, à medida que povos inteiros buscam espaço vital fugindo á expansão dos maiores desertos quentes da Terra, um fenómeno que agora se apresenta em perfeita osmose com a expansão do radicalismo islâmico wahabita e sunita até à África Austral.

Em afluentes como o Cuango e o Cassai, que nascem na região central das grandes nascentes em Angola, essa pressão humana, étnica, subdesenvolvida e religiosa opera prodígios sem qualquer hipótese de controlo apertado, até por que os vales desses rios, afluentes da bacia do Congo, estão coalhados do atractivo dos diamantes aluviais que também existem em vales contíguos de outros rios nacionais angolanos, como o caso do Cuanza.

O escândalo geológico dos dois países, a RDC e Angola, fazem deles uma autêntica “mina de Salomão”, implicando na urgente necessidade de luta comum contra o subdesenvolvimento, a única forma de algum vez se ultrapassar os tremendos equívocoa disseminados desde o passado!...

Aquilo que Savimbi explorou para financiar suas redes e suas acções, utilizam agora uma parte substancial das “redes”desse tipo de penetrações clandestinas, filtradas pelos serviços de inteligência de potências como as que compõem a NATO e seus aliados arábicos, que possuem importantes plataformas de suporte no tão vulnerável quão propiciamente hospitaleiro território congolês…

Em tempo de guerra, em Agosto de 1998, era ainda um balanço dessa natureza que estava sobre a mesa do discreto gabinete de apoio ao Chefe do Estado-Maior Geral das FAA e de então para cá, não existem praticamente alterações nas razões causais de fundo nas situações correntes entre a RDC e Angola.

Num ambiente dessa natureza, qualquer movimento de repressão apenas será um paliativo transitório, ilusório e quantas vezes trazendo resultados ainda mais nocivos dos que por essa via se propõe alcançar!

Constate-se o quadro de há 20 anos…

Martinho Júnior - Luanda, 15 de Outubro de 2016

Imagens:
Mapa das riquezas minerais da RDC e a zona crítica do nordeste;
Aeroporto Internacional de Burgas, na Bulgária, um dos aeroportos onde têm sido feitos de há décadas (imediatamente após o fim do campo socialista europeu), muitos embarques de armas para todo o tipo de rebeldes e de terroristas, em África como no Médio Oriente;
Vista aérea do aeroporto de Kalemie, no leste da RDC, com um cargueiro IL-18 avariado na placa;
O mesmo IL-18, estacionado na placa do aeroporto de Kalemie, pertencente à AIR CESS, companhia do traficante de armas Victor Bout (já detido pelos Estados Unidos na Ásia, enquanto concorrente a sacrificar); o avião foi delapidado por rebeldes ruandeses;
Pequena aldeia de refugiados no leste da RDC, onde campeia a pior das misérias, da fome e da mais abominável marginalidade, discriminação e opressão.


CONGO – a constante instabilidade

“CNN” – 03 AGO 98

1) O Governo de KABILA, praticamente um ano após a sua chegada a KINSHASA, está sujeito a um teste de força, dando resposta à revolta de soldados de origem Ruandesa (tutsi), que integraram os efectivos da “ALIANÇA DAS FORÇAS DEMOCRÁTICAS DE LIBERTAÇÃO DO CONGO”, que o colocaram no poder.

A revolta parece estar na sequência da substituição do Ruandês JAMES KABARÉ, por CELESTIN KIFWA, no cargo de CHEFE DO ESTADO MAIOR DAS FORÇAS ARMADAS, após a visita a ANGOLA de KABILA.

Vários factores podem estar na origem da tomada dessa decisão, entre eles realçamos: o facto da UNITA ter capacidade de manobra clandestina e operativa, a partir de bases e apoios instalados em território da RDC, beneficiando de cumplicidades que ao que tudo indica, vão muito para além das ligações a efectivos e antigas Unidades de MOBUTU, isto é, existindo no quadro das próprias forças de KABILA provenientes do LESTE.

2) A nova situação em KINSHASA poderá influenciar pela negativa, nas relações entre a RDC e o RUANDA, havendo informações que a situação de revolta se estendeu a KISANGANI, BUKAVU e GOMA.

A consolidação do poder a OESTE, com a maior identificação em KINSHASA e em relação à situação corrente na fronteira com ANGOLA, pode querer significar uma diminuição da intensidade do relacionamento com os Países dos GRANDES LAGOS, a LESTE, com consequências aparentemente imprevisíveis a médio-longo prazos, se tivermos em conta as características artificiais das fronteiras.


3) KABILA parece não ter outra alternativa senão ir mudando as suas posições políticas a nível interno, de forma a tender estabelecer relações com políticos como TSHISEKEDI, ou mesmo KENGO WA DONDO, ao mesmo tempo que reforça a capacidade militar dos seus fieis, procurando que não haja grandes prejuízos no relacionamento com o LESTE que o apoiou no início da sua acção com vista ao derrube de MOBUTU, num jogo que apresenta bastantes dificuldades, mas que também pode trazer alguns benefícios, principalmente na interligação ao Governo Angolano e a melhores alternativas de saída para o mar, de forma a melhor enfrentar os problemas do interior.

Esse jogo acarreta provavelmente dificuldades de relacionamento com as grandes potências, apesar do pragmatismo das suas políticas, que terá tendência para atender fundamentalmente à necessidade de estabilidade, a fim de se poder chegar à exploração dos enormes recursos conjuntos de ANGOLA e da RDC e à sua evolução económica no sentido da modernidade e da globalidade, num plano que começará do litoral para o interior.

4) Em relação à zona dos diamantes, que envolve essencialmente as regiões de MALANGE e LUNDAS, em ANGOLA, mas com afectações importantes nos KASSAI OCIDENTAL e ORIENTAL da RDC, pode-se estar no início dum movimento comum entre os dois ESTADOS, de forma a melhor conseguir controlar a situação do tráfico, principalmente aquele que beneficia a UNITA e seus aliados, num e noutro lado da fronteira, incluindo as iniciativas de Empresas estrangeiras (de origem Portuguesa ou Sul-Africana), em relação às quais possam haver dúvidas.

Podemos citar o exemplo da Empresa “PETRA DIAMOND”, aparentemente ligada a interesses de gente que esteve ligada ao regime do “apartheid” na ÁFRICA DO SUL, isto é, necessariamente com ligações preferenciais à UNITA : recentemente a Firma “AFRICAN ALLIANCE”, com instalação no nº 613 de ANITA STREET, em MORELETA PARK, PRETÓRIA, uma “trading” pertencente a antigos operacionais que lutaram contra ANGOLA, deu indicações de ligações a ela.

A “AFRICAN ALLIANCE” é propriedade dos senhores:

GERHARD VAN RENSBURG, antigo Oficial de Infantaria que esteve nas primeiras campanhas das SADF contra ANGOLA, que utiliza os seguintes telefones – 07 082 566 7672 e 012 998 7800 / 09; consta que este Senhor seguia no avião interceptado há alguns meses em ANGOLA, como passageiro e a carga pertencia-lhe.

BEN SMITH, piloto da FORÇA AÉREA Sul Africana, que fez campanha contra ANGOLA, que utiliza o telefone 027 082 566 7673; tem ligação à “PETRA DIAMOND”.

GUSTAVO FOUCHÉ, piloto de jacto e ex-sócio da “AFRICAN ALLIANCE”, mestiço, que utiliza o telefone 027 082 440 1609, separou-se em data recente dessa “trading”.

Os dois ESTADOS devem fazer um esforço comum para encontrar emparceiramentos com entidades que não estiveram ligadas às campanhas de desestabilização contra ANGOLA, fundamentalmente ao nível de operadoras como a ODEBRECHT, Brasileira, ou Empresas da EUROPA DO LESTE (caso das Russas, que têm experiência do ramo no seu País), ou ainda operadoras dos EUA, pois essa é uma das formas de assegurar a malha de implantação e os mecanismos táctico-operativos de controlo, desalojando aqueles interesses que se verificarem poderem estar ligados, ou coligados aos processos de financiamento da UNITA e que são essenciais para a sobrevivência da sua Organização Armada.

05-08-1998 03:07.
O fascismo, sepulcro da democracia, faz 100 anos

O fascismo, sepulcro da democracia, faz 100 anos


Criado para combater o socialismo, o fascismo deve o seu nome a Mussolini, que o usou para descrever o estado de espírito do seu pequeno bando de criminosos

Alfredo Barroso | Jornal i | opinião

A invenção do fascismo, por Benito Mussolini, fará 100 anos daqui a poucos meses, no próximo dia 23 de Março de 1919. Foi na manhã desse domingo, numa sala de reuniões do Círculo dos Interesses Industriais e Comerciais de Milão, na Praça do Santo Sepulcro, que nasceu oficialmente o fascismo, perante uma assembleia de cerca de uma centena de antigos combatentes da Grande Guerra, de sindicalistas belicistas, de intelectuais futuristas, de alguns repórteres e outros tantos curiosos. Foi criado para “declarar guerra contra o socialismo, por se ter oposto ao nacionalismo”. Nessa altura, Mussolini chamava ao seu movimento Fasci di Combattimento. De facto, o termo fascismo foi inventado por Mussolini a partir do termo italiano fascio, oriundo do latim fascis, ou fasces no plural. Foi esse o termo que Mussolini criou para descrever o estado de espírito do seu pequeno bando de criminosos, ex-soldados nacionalistas, sindicalistas e futuristas que tinham sido a favor da guerra.

O programa deste movimento fascista era, como sublinha o historiador americano Robert O. Paxton no seu livro “The Anatomy of Fascism” (2004), uma mistura bizarra de patriotismo à “antigo combatente” e de experimentação social radical, assim uma espécie de “socialismo nacional”, anti-intelectual, antiburguês e anticapitalista. Mas a verdade é que os partidos fascistas, uma vez no poder, nada fizeram para concretizar as ameaças anticapitalistas. Pelo contrário, desencadearam acções de uma violência brutal contra tudo e todos os que representavam o tão odiado socialismo, por exemplo contra os jovens comunistas que encontravam nas ruas e que massacravam à pancada. Mais: uma vez no poder, os fascistas instituíram regimes de partido único, proibiram as greves, dissolveram os sindicatos independentes, baixaram o poder de compra dos trabalhadores e financiaram generosamente as indústrias de armamento, para regozijo dos empresários. Assim aconteceu na Itália fascista (1922-1945) e na Alemanha nazi (1933-1945), cópia do fascismo adaptada por Hitler, que iria ainda mais longe na exaltação do ódio, da violência e do racismo, no assassínio dos adversários e no holocausto dos judeus, em nome da pureza da raça e do orgulho nacional.

Convém perceber que o fascismo e o nazismo não brotaram espontaneamente – houve quem previsse a sua eclosão e explicasse a sua popularidade. Alexis de Tocqueville, por exemplo, durante a sua famosa visita aos Estados Unidos da América, em 1831, ficou muito perturbado pelo poder que tinha uma maioria, em democracia, de impor o conformismo através da pressão social, na ausência de uma elite social independente. E escreveu: “A espécie de opressão que ameaça os povos democráticos em nada se parece com tudo o que a antecedeu na história do mundo”. Mais: “Os antigos termos despotismo e tirania não são de modo algum aplicáveis. A coisa é nova, importa por isso defini-la, já que não consigo baptizá-la com um nome adequado.”

No início do séc. xx, em 1908, foi a vez de um engenheiro francês e filósofo social, Georges Sorel, criticar Karl Marx “por não ter colocado a si próprio a questão de saber o que aconteceria no caso de uma economia entrar em decadência; Marx nem sequer sonhou com a possibilidade de se produzir uma revolução tendo por ideal o retrocesso ou, até, o conservadorismo social”. O que o fascismo e o nazismo viriam a comprovar. Dois meses após a chegada de Hitler ao poder – sendo nomeado chanceler –, o grande escritor alemão Thomas Mann escreveu no seu diário, em 27 de Março de 1933, ter sido testemunha duma espécie de revolução ainda inédita, “sem ideias, contra a ideia, contra tudo o que há de mais elevado, de melhor e de vantajoso, contra a liberdade, a verdade e o direito”. Thomas Mann diz mais: que “a canalha” tomou conta do poder, no meio de um “inacreditável júbilo” por parte das massas populares.

Enquanto Mussolini era um antigo professor primário, escritor boémio assaz modesto, ex-orador e editorialista do órgão oficial do Partido Socialista Italiano, o “Avanti”, que ele mandou destruir por completo pelo seu bando de “camisas negras”, Hitler tinha sido um modesto cabo durante a Grande Guerra que se vangloriava de feitos que não cometera, além de ser um estudante de arte completamente falhado e frustrado que se tornou um demagogo exímio e temível, à frente dum bando de crápulas vestidos de camisas castanhas. Um e outro eram fanfarrões e brutais, com ambições de poder e de vingança incontroláveis. Faziam ameaças e mentiam sem vergonha, inflamavam as audiências populares e recrutavam os seus seguidores entre a “canalha”, para usar o termo empregado por Thomas Mann. Impressiona, aliás, como tantas pessoas cultas e civilizadas julgaram tratar-se apenas duma “horda de bárbaros” que teria vindo “armar tendas” e acampar por pouco tempo, em protesto, “no meio da nação”.

Tais pessoas despertaram tarde e a más horas para o horror que se seguiu. O que, de certa maneira, entronca no que terá sido a origem da expressão “nacional- -socialismo”, tanto quanto se sabe inventada pelo escritor nacionalista francês Maurice Barrès, em 1896, ao descrever o marquês de Morès, aristocrata e aventureiro, como “o primeiro nacional-socialista”. Após fracassar como criador de gado no Dakota do Norte, Morès regressou a Paris no princípio da década de 1890 e depressa organizou um bando de antissemitas musculados que se dedicaram a assaltar lojas e empresas de judeus. Influenciado pelo passado de criador de gado, decidiu recrutar os seus esbirros nos matadouros de Paris, atraindo-os com uma retórica em que misturava anticapitalismo e antissemitismo nacionalista. Os seus “esquadrões” vestiam- -se como os cowboys, de chapéu alto à Hopalong Cassidy, que o marquês de Morès descobrira no Faroeste. É muito provável que tal indumentária tenha estado na origem das camisas negras e castanhas que se tornaram uniformes dos fascistas e nazis. No início do caso Dreyfus, em França, Morès matou em duelo um oficial judeu muito popular, mas acabou por ser assassinado pelos seus próprios guias tuaregues em 1896, no Sara.

Ao observarmos, hoje, as atitudes e os discursos de políticos demagogos e populistas da extrema-direita – como Donald Trump (nos EUA), Rodrigo Duterte (nas Filipinas), Recep Erdogan (na Turquia) ou Jair Bolsonaro (no Brasil) –, é irresistível evocarmos as provocações e ameaças constantes de Hitler e Mussolini, o comportamento agressivo e fanfarrão de ambos, os seus discursos demagógicos e inflamados perante multidões acéfalas e fanatizadas que os aplaudiam e vitoriavam sem terem sequer a noção de que iriam ser as primeiras vítimas da loucura fascista e nazi que contaminou a Europa do Atlântico aos Urais, no período entre as duas guerras mundiais. A popularidade do fascismo e do nazismo, nesse tempo, não é novidade. E alimenta-se hoje da completa falta de conhecimento e memória histórica da generalidade dos povos que ainda vivem em democracia, mas parecem querer, em muitos casos, face às crises do capitalismo e das representações democráticas, deitar fora o bebé com a água do banho, isto é, deitar fora a democracia, menosprezando os malefícios do capitalismo selvagem e a necessidade de combater e derrotar as políticas neoliberais impostas por instituições internacionais – como o FMI, o BCE ou a União Europeia – aos governos dos países democráticos, cada vez mais impotentes e incapazes de reconquistar a sua soberania face ao poder sem limites da plutocracia e das empresas multinacionais.

O renascimento do perigo fascista, ao cabo de quase duas décadas do séc. xxi, é hoje uma evidência tão grande como o foi há cem anos, a partir do início da década de 1920. O regresso do fascismo, tanto sob antigas como sob novas formas, está hoje na ordem do dia. Tal como a generalização de novas ditaduras autoritárias como as que, no século passado, se foram implantando “à boleia” dos regimes fascistas – foi esse o caso em Portugal, encostado ao regime fascista de Francisco Franco, em Espanha. É verdade que há diferenças entre um e outras. As ditaduras autoritárias governam em regime de partido único com o apoio de forças conservadoras já existentes, como as forças armadas, a(s) igreja(s) e os interesses económicos e financeiros organizados, procurando desmobilizar e neutralizar a opinião pública recorrendo, nomeadamente, à polícia política e à censura. Quanto aos regimes fascistas, utilizam o partido único não para neutralizar, mas sim para mobilizar as massas populares através do entusiasmo e da efervescência permanentes, organizando encenações políticas gigantescas para as atrair e manipular, moldando-as constantemente através da propaganda. Enquanto as ditaduras autoritárias – como a de Salazar e Caetano – “cozinhavam” o povo em “lume brando”, os regimes fascistas optaram por submetê-lo a altas temperaturas, no grande caldeirão das guerras mais cruéis e devastadoras, como as do séc. xx.

Portugal parece estar ainda longe de todos esses perigos, apesar do entusiasmo que suscita, em alguns sectores da direita portuguesa (sobretudo a extraparlamentar, mas não só), a expectativa de vitória do candidato fascista Jair Bolsonaro no Brasil. É certo, todavia, que a demagogia populista tem sido a antecâmara de todos os movimentos e partidos da “extrema-direita pós-fascista” (como agora está na moda classificá-los), e não faltam alguns sinais algo inquietantes dessa demagogia populista nas franjas do PPD-PSD e no coração do CDS--PP. Mas o mito da tradicional brandura dos nossos costumes continua activo e, por cá, a direita ainda só conseguiu eleger Presidente da República um político demagogo e populista soft, perito em afectos e selfies, além de moderadamente conservador e temente a Deus. De facto, Marcelo Rebelo de Sousa é oriundo da “versão mole” do Estado Novo, protagonizada por Caetano, assim uma espécie de caldo verde do antigo regime, que até chegou a usar a farda verde e castanha da Mocidade Portuguesa, mas já nem queria ouvir falar dela, não o fossem qualificar de fascista. Nada mau para a democracia portuguesa, atendendo a que o Presidente anterior a Marcelo, também de direita e do PPD-PSD, era tão rígido como um pau de vassoura e tão autoritário como a “múmia paralítica” do Agildo Ribeiro, mas sem a sineta para o calar porque, realmente, ele falava bastante pouco.

Cem anos depois da sua invenção, numa sala de reuniões com janelas para a Praça do Santo Sepulcro, em Milão, o fascismo volta a ser uma séria ameaça na Europa, na América Latina e – surpresa das surpresas, que não seria surpresa alguma para Alexis de Tocqueville – nos Estados Unidos da América. Oxalá não venha a ser outra vez um Santo Sepulcro da democracia, como na primeira metade do séc. xx. Mas, olhando em redor, confesso não estar nada optimista quanto ao que poderá suceder.

Na fotomontagem: Salazar com fascistas em Portugal e Mussolini em Itália, a fazerem a saudação fascista.