sábado, 19 de outubro de 2019

Portugal | Contra os populismos que meteram os pés na porta


Os desafios futuros para a esquerda, contra a tralha neoliberal e os populismos em marcha, não são fáceis. Há que lutar, contra todas as evidências, sabendo de ciência certa que a razão está do lado da esquerda mesmo.

Manuel Augusto Araújo | AbrilAbril | opinião

Pela primeira vez três partidos, Livre, Iniciativa Liberal (IL) e Chega, meteram o pé na porta da Assembleia da República (AR), colocando um deputado cada e o outro, o PAN, que já tinha metido o pé na porta nas eleições anteriores elegendo um deputado, viu aumentada a sua representação para quatro deputados. A direita viu a sua presença na AR ampliada em número de partidos embora com menos 18 deputados do que tinha em 2015. As esquerdas, embora aumentassem o número de deputados em relação a 2015, mais dezasseis deputados, perderam quase 50 mil votantes, o que deve preocupar. Nestas contas direitas/esquerdas não entra o PAN que afirma não ser de direita nem de esquerda. Uma espécie de partido sem eira nem beira, de um oportunismo sem peias.

Embora o espaço da direita se tenha reduzido o seu futuro não se advinha adverso. A comunicação social já anda a bolinar a seu favor, veja-se o tempo concedido sobretudo à Iniciativa Liberal e a lavagem do Chega classificado de extrema-direita populista, uma forma simplista de mascarar a readaptação do fascismo de que é herdeiro, ao contexto actual em nova versão.

Igualmente a Iniciativa Liberal, que elege um deputado na primeira vez que concorre, é travestida de liberal quando de liberal nada tem. É a grande corrupção intelectual por não se assumirem o que realmente são, ultra-liberais em linha com Hayek e os Chicago Boys que renegam os liberais, de Stuart Mill a Keynes e seus continuadores actuais, que defendem a educação pública, universal e gratuita, impostos progressivos, a protecção social universal, a expansão do investimento e do emprego público, a repressão dos especuladores financeiros, um Estado interventivo no combate à sucessivas crises do capitalismo e que, nos dias de hoje, são as políticas dos partidos socialistas e sociais-democratas que as praticam com enormes e devastadoras concessões ao capital, uma das mais graves é terem abdicado de moeda própria, deixando o financiamento do Estado nas mãos de especuladores internacionais. Essa gente do IL tem o desplante, a incomensurável lata de pregarem um pseudo-liberalismo económico contra o excesso de intervencionismo do Estado, quando nas últimas décadas se privatizou tudo o que havia para privatizar, excepto a Caixa Geral de Depósitos, o serviço público da comunicação social, onde ocupam, directa e indirectamente, um espaço desmesurado em comparação com a esquerda, o Serviço Nacional de Saúde e a Educação que paulatinamente tem sido entregue aos privados. É esse pouco que ainda resiste aos ataques dos ultra-liberais que agora está na sua mira.

Portugal | "Costa recentrou no núcleo próximo toda a formação do Governo"


Para Francisco Louçã, é compreensível que António Costa tenha designado quatro ministros de Estado. Nos últimos quatro anos, "percebeu-se que o primeiro-ministro era a orquestra inteira” e que isso causava algum "desgaste".

Francisco Louçã comentou na sexta-feira a constituição do novo Governo, um Executivo “muito centrado no núcleo muito próximo pessoal e politicamente de António Costa”, com muito poucas caras novas mas com uma hierarquia diferente devido à nomeação de quatro ministros de Estado.

Para o bloquista, a nomeação de quatro ministros de Estado “é uma surpresa”, mas é uma decisão “compreensível”. “A justificação para que Pedro Siza Vieira apareça em segundo lugar é que, Santos Silva e o próprio primeiro-ministro, terão que fazer muitas viagens”.

Santos Silva, recordou Louçã, na última legislatura foi formalmente o número dois, mas não assumiu frequentemente esse papel do ponto de vista da representação política do Governo. “Dedicou-se muito mais exclusivamente à questão dos Negócios Estrangeiros”, notou. 

CATALUNHA A FERRO E FOGO | Libertação de presos políticos e independência


Juízes de Espanha regressam ao passado, ao franquismo fascista, e condenam a prisão políticos catalães que lutam democraticamente pela independência do território que o Reino de Castela ocupou pela força e não mais largou. Os catalães não estão pelos ajustes e querem verdadeira justiça, querem a independência. De manifestações democráticas e pacíficas o conflito tem alastrado para atos desesperados de violência contra a repressão castelhana, pela libertação dos presos políticos catalães e pela independência. (PG)

Alta tensão na Catalunha. Confrontos, 77 feridos e 17 detenções

Estradas cortadas e incêndios marcam o dia na Catalunha, que está a 'ferro e fogo' desde segunda-feira.

A Catalunha vive, desde segunda-feira, dias de fortes confrontos. Vias cortadas, barricadas, incêndios e violência entre os manifestantes e as autoridades foram o resultado dos distúrbios novamente registados esta sexta-feira, pelo quinto dia consecutivo.

Há registo de 17 detidos e 77 civis feridos na Catalunha, revela o jornal La Vanguardia. Destes feridos, 52 ocorreram em Barcelona, onde 15 foram encaminhados para o hospital. 
Mais de 200 polícias ficaram feridos. Um dos agentes ficou em estado grave após ter sido atingido na cara e caído inconsciente.

A polícia lançou gás lacrimogéneo e disparou balas de borracha depois de ter tentado dispersar os manifestantes que barricavam a passagem de uma das vias públicas mais importantes de Barcelona, a Via Laietana, e atiravam objetos contra os agentes de segurança.

Segundo a Guarda Urbana, cerca de 525 mil pessoas vindas de toda a Catalunha estiveram em Barcelona para participar na grande manifestação que reuniu as várias "marchas pela liberdade".

Quinze estradas da rede principal da Catalunha permaneciam cortadas ao final da tarde na sequência das marchas independentistas e da greve geral convocadas para esta sexta-feira, incluindo o acesso à fronteira com França.

Os movimentos de protesto começaram na segunda-feira, depois ser conhecida a sentença contra os principais políticos catalães responsáveis pela tentativa de independência em outubro de 2017.

Notícias ao Minuto com Lusa | Foto: Reuters

Os 15 campos de prisioneiros do Daesh no «Rojava»


A 6 de Outubro de 2019, mercenários curdos do «Rojava» guardavam —por conta dos Estados Unidos— 7 campos de detenção de combatentes do Daesh (E.I.) feitos prisioneiros, além de outros 8 campos para as suas mulheres e filhos.

Segundo as YPG, aí haveria 14. 800 combatentes prisioneiros e várias centenas de milhar de civis.

Podemos revelar que os Serviços Secretos sírios tinham pedido aos Estados estrangeiros para recuperarem os seus jiadistas feitos prisioneiros pelo Exército árabe sírio. Vários aceitaram que lhes fossem entregues, outros — que não têm pena de morte em casa — pediram à Síria para os enforcar. Entretanto, a França pediu que os seus cidadãos fossem entregues aos Curdos, o que foi feito.

Três dias antes da invasão turca, a Casa Branca pediu aos Estados membros da Coligação (Coalizão-br) que recuperassem os seus cidadãos prisioneiros, estando claro que Rojava não passa de uma ficção e que as tropas dos EUA se retiravam para o Iraque. A França, a Alemanha e outras nações europeias recusaram [1].

A 13 de Outubro, as YPG anunciaram que, aproveitando-se da confusão causada pela invasão turca, 785 membros de famílias de combatentes do Daesh(EI) haviam fugido do campo de Ain Issa.

Voltaire.net.org | Tradução Alva

Nota:

Leia em Rede Voltaire
TUDO O QUE VOS ESCONDEM SOBRE A OPERAÇÃO TURCA «FONTE DE PAZ» (1/3)
A genealogia da questão curda
Thierry Meyssan

A NATO por trás do ataque turco à Síria


Manlio Dinucci*

Vários membros da NATO choram copiosamente sobre o destino dos curdos, mascarando, assim, que validaram com antecedência, a operação “Fonte de paz”. Três dias depois do início dos combates, o Secretário Geral da Aliança, Jens Stoltenberg, veio pessoalmente a Ancara trazer o apoio de todos os aliados à Turquia.

Alemanha, a França, a Itália e outros países que, em trajes de membros da União Europeia, condenam a Turquia pelo ataque à Síria, são, juntamente com a Turquia, membros da NATO, a qual, quando já estava em curso o ataque, reiterou o seu apoio a Ancara. Fê-lo oficialmente, o Secretário Geral da NATO, Jean Stoltenberg, encontrando-se em 11 de Outubro na Turquia, com o Presidente Erdoğan e com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Çavuşoğlu [1].

“A Turquia está na primeira linha, nesta região muito volátil, nenhum outro Aliado sofreu mais ataques terroristas do que a Turquia, ninguém está mais exposto à violência e à turbulência proveniente do Médio Oriente”, disse Stoltenberg, reconhecendo que a Turquia tem preocupações “legítimas” com a sua própria segurança”. Depois de, diplomaticamente, tê-lo aconselhado a “agir com moderação”, Stoltenberg salientou que a Turquia é “um Aliado valoroso da NATO, importante para a nossa defesa colectiva”, e que a NATO está "fortemente empenhada em defender a sua segurança”. Para esse fim - especificou - a NATO aumentou a sua presença aérea e naval na Turquia e investiu mais de 5 biliões de dólares em bases e infraestruturas militares. Além do mais, colocou um comando importante (não mencionado por Stoltenberg): o LandCom, responsável pela coordenação de todas as forças terrestres da Aliança.

A disputa intra-burguesa nos EUA


– Para o movimento popular, o impeachment oferece um caminho para lugar nenhum

Richard Becker

O aprofundamento do conflito sobre o impeachment do presidente Donald Trump é uma luta entre facções da classe dominante capitalista e seu aparato governamental. A luta é fundamentalmente sobre qual lado exercerá controle sobre o Estado e o governo com todo o poder e riqueza que confere.

O anúncio de um inquérito de impeachment foi feito pela presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, em 24 de setembro. Foi aberto logo após a revelação de que uma denúncia havia sido registrada em relação à ligação telefônica de 25 de julho entre Trump e o presidente da Ucrânia. O denunciante foi posteriormente identificado como um agente da CIA, mas a denúncia é entendida como um produto coletivo de vários agentes de inteligência.

Não existe um lado "progressista" nessa briga. Como foi o caso de Nixon em 1974, a própria estrutura do impeachment concentra toda a atenção no que está acontecendo dentro dos chamados "salões sagrados" do Congresso, relegando os movimentos populares para o lado de fora.

O regime de Trump é flagrantemente racista, sexista, homofóbico, anti-imigrante, antiambiental, antitrabalhista, anti-sem-teto e muito mais. Todos os dias, os asseclas de Trump estão realizando ataques aos direitos populares duramente conquistados e ao próprio planeta.

No entanto, em vez de resistir a esses ataques, a liderança do Partido Democrata no Congresso está concentrando toda a sua energia no impeachment de Trump, com o argumento de que ele solicitou interferência estrangeira nas eleições presidenciais de 2020. Os líderes democratas veem isso como uma espécie de linha de menor resistência e que não exige contestar os interesses corporativos que são representados pelos principais partidos capitalistas e os financiam.

Por um imposto global sobre as transnacionais



Nobel de Economia sustenta: tributo evitará que elas continuem ocultando lucros, por meio de operações fraudulentas nos paraísos fiscais. De quebra, reduzirá desigualdades e neutralizará discurso da direita sobre “globalismo”

Joseph Stiglitz | Outras Palavras | Tradução: Simone Paz | Imagem: Curt Merlo

A globalização ganhou má fama nos últimos anos, quase sempre pelas razões corretas. Contudo, alguns dos seus críticos – como Donald Trump – opõem-se pelos motivos errados. Evocam um cenário falso. Atribuem os problemas atuais dos norte-americanos ao fato de terem se perdido em maus negócios, induzidos por europeus, chineses e países em desenvolvimento. É uma acusação absurda: foram os EUA — ou melhor, as corporações estadunidenses — os primeiros a escrever as regras da globalização.

Isto posto, há um aspecto especialmente tóxico da globalização que ainda não ganhou a atenção que merece: evasão fiscal corporativa. As multinacionais podem facilmente mudar seus escritórios e fábricas para qualquer jurisdição que cobre impostos mais baixos. E, em alguns casos, elas nem precisam se mudar, porque podem simplesmente alterar a forma como “registam” sua receita nos documentos.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Catalunha | Dezenas de milhares de pessoas manifestam-se em Barcelona


Dezenas de milhares de pessoas vindas de toda a Catalunha participam no centro de Barcelona numa grande manifestação convocada pelos sindicatos independentistas contra a condenação dos políticos envolvidos na tentativa separatista de 2017.

A concentração tem lugar no Passeio de Grácia, no centro de Barcelona, num dia de "greve geral" na Catalunha convocada por esses sindicatos e conta com milhares de pessoas vindas a pé em seis "Marchas pela Liberdade" saídas na terça-feira de diferentes cidades da comunidade autónoma.

Inicialmente forma anunciadas cinco "marchas", mas uma sexta formou-se quinta-feira à noite, organizada pelos CDR (Comités de Defesa da República).

À cabeça da manifestação está um cartaz com a palavra de ordem "Pelos direitos e liberdades, greve geral" com o logótipo dos sindicatos que convocaram a concentração.

A atmosfera é de festa e convívio com pessoas de todas as gerações e com vários cartazes a pedir a "libertação dos presos políticos".

Os independentistas consideram que os condenados pelo Tribunal Supremo são "presos políticos", enquanto os defensores da unidade de Espanha afirmam que se trata de "políticos presos".

O QUE SE PASSA NA CATALUNHA


Os média corporativos estão a dar uma cobertura desmesurada aos acontecimentos actuais na Catalunha, mas omitem cuidadosamente as lutas actuais de povos como os do Equador e do Iémen, submetidos à agressão imperialista. No entanto, a análise que fazem é desinformativa pela omissão de factos essenciais.

Convém ressaltar alguns deles:

1) O arcaísmo do Estado espanhol, submetido a uma ridícula monarquia imposta pelo franquismo. O problema das nacionalidades – que a República Espanhola conseguia encaminhar de modo justo – não tem solução no quadro de uma monarquia e constituição caducas.

2) O independentismo catalão é sobretudo um movimento liderado pela burguesia catalã. Estando numa das regiões mais ricas da Espanha, ela quer desvincular-se do resto país a fim de não ter que repartir a sua riqueza com as regiões mais pobres. Mas é duvidoso que os trabalhadores catalães se beneficiassem com uma republiqueta dominada pela sua burguesia local.

3) Aquando da agressão da NATO à Juguslávia a UE promoveu o desmembramento do país e criou um estado fantoche no Kosovo, liderado por um terrorista narco-traficante, rasgando a constituição jugoslava. Assim, é estranho que a UE venha agora a público defender o respeito pela constituição espanhola. A posição da UE é de dois pesos e duas medidas.

EUA aplicam tarifas punitivas sobre produtos da UE


Após aval da OMC, entram em vigor aumentos tarifários de 10% e 25%, afetando 7,5 biliões de dólares em produtos do bloco europeu. Bruxelas poderá retaliar com sanções.

As autoridades de comércio dos Estados Unidos confirmaram que passam a valer nesta sexta-feira (18/10) os aumentos planeados de 10% e 25% nas tarifas de importação sobre aviões da Airbus e uma série de produtos europeus, somando 7,5 biliões de dólares.

A medida entra em vigor após o aval da Organização Mundial do Comércio (OMC), que considerou as novas tarifas americanas proporcionais aos efeitos adversos sofridos pela empresa americana Boeing, a maior concorrente da Airbus, em termos de perdas de vendas e impedimentos na entrega de suas aeronaves.

Nesse litígio que já dura 15 anos, as perdas teriam sido acarretadas por subsídios ilegais fornecidos para a Airbus principalmente pela França, Alemanha, Espanha e Reino Unido. Segundo a OMC, esses quatro países ofereceram financiamentos a juros mais baixos do que os do mercado, o que teria permitido à empresa desenvolver alguns de seus modelos mais recentes e avançados.

Brexit, mais uma vez, com jeitinho


Numa segunda tentativa, UE e o governo britânicos chegaram a um acordo sobre o Brexit. E novamente nada garante que o Parlamento em Londres vá aprovar o pacto. O drama ainda não terminou, opina Barbara Wesel.

E mais uma vez a União Europeia e o governo britânico chegaram a um acordo. E, enquanto a excitação é grande no Reino Unido, em Bruxelas impera a sensação de déjà vu. Porque foi exatamente nesse ponto que já estivemos, um ano atrás, com Theresa May.

E, mais uma vez, não são boas as chances de o acordo ser aprovado na próxima sessão da câmara baixa do Parlamento britânico. Muitos deputados estão preocupados, porque querem permanecer na UE ou devido à futura posição do Reino Unido, que Boris Johnson quer ver muito mais distante da Europa do que sua antecessora.

Também nesta segunda tentativa, mais uma vez foi difícil se chegar a um acordo, que só se tornou possível depois que o primeiro-ministro da Irlanda sugeriu a seu colega britânico uma solução criativa para o problema irlandês. E Boris Johnson já havia entendido que, em vista da situação política em Londres, o Brexit só poderia ser alcançado com um acordo.

Então ele resolveu dar uma virada, esqueceu sua baboseira do passado, jogou escada abaixo todas as preocupações de indivisibilidade da Irlanda do Norte, defendidas com tanta veemência por May. O que foi acordado agora é muito semelhante ao velho backstop norte-irlandês, proposto originalmente pela UE para evitar uma "fronteira rígida" na ilha.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Retoma das publicações em breve e agradecimentos aos leitores

Devido a problema grave e prolongado de saúde não tem sido possível cumprir a normalidade de publicações no Página Global desde há cerca uma semana, pela ausência apresentamos as nossas desculpas.

Julgamos ser possível dar inicio à tentativa de recuperar a normalidade no final da semana em curso ou no principio da seguinte.

Agradecemos a todos que nos têm contactado via email manifestando o interesse no PG e as palavras de conforto que nos dirigem. A que infelizmente não tem sido possível agradecer em resposta personalizada. Contamos que compreendam e nos desculpem. Por isso fica aqui expressa a nossa enorme gratidão pelas vossas missivas.

Redação PG

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

UE acusa Boris Johnson de jogar com o futuro da Europa


Bruxelas, 8 Set (Prensa Latina) O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, considerou hoje que com seus obstáculos nas negociações do Brexit, o PM britânico, Boris Johnson, está jogando com o 'futuro da Europa e do Reino Unido'.

Tusk publicou em sua conta na rede social Twitter: 'Boris Johnson, o que está em jogo não é ganhar um estúpido jogo de cruzes do jogo da velha . O que está em jogo é o futuro da Europa e do Reino Unido, bem como a segurança e interesses de nossos cidadãos'.

'Não quer um trato, não quer uma prorrogação, não quer revogar, Quo vadis?', escreveu também o político polaco, em uma mensagem direta ao chefe do Executivo britânico, solicitando-lhe mais clareza sobre seus planos.

Nos últimos dias, Johnson não tem parado de tentar culpar a União Europeia (UE) de uma eventual falha nas negociações para a saída do Reino Unido do bloco comunitário.

Se não se atingir nenhum arranjo entre ambas  as partes, o Reino Unido deixará de ser um Estado membro no próximo dia 31 de outubro, tenha ou não um acordo que sente as bases para um divórcio ordenado.

OIT, o antes e o depois


– A esperança reside nas nossas lutas

George Mavrikos [*]

Caros amigos, colegas, senhoras e senhores,

Completou-se este ano o centenário da fundação da Organização Internacional do Trabalho (OIT), e esta é uma oportunidade para fazer uma avaliação objetiva, a partir da perspetiva da Classe Operária Mundial. Para tirar as verdadeiras conclusões, por parte do movimento sindical militante. Para avaliar os resultados.

Acreditamos que a história da OIT está dividida em dois períodos principais. Da sua fundação até 1990 e de 1990 até hoje. No primeiro período, desempenhou, em geral, um papel positivo e muitas vezes funcionou como um mecanismo de proteção dos direitos dos trabalhadores. As correlações de forças internacionais beneficiaram e apoiaram o papel da OIT, com a ação decisiva da União Soviética, da República Popular da China, de muitos outros países socialistas e do movimento dos países não alinhados. Essas favoráveis correlações tiveram do seu lado um importante aliado. O movimento sindical militante, com papel de liderança, na altura, da Federação Sindical Mundial. Tinham também do seu lado as grandes lutas de classe de todos os trabalhadores.

Os sucessos na institucionalização de notáveis conquistas, como acordos coletivos de trabalho, previdência social, gastos sociais, melhores salários e condições de trabalho das mulheres trabalhadoras, tempo de trabalho, aumentos salariais, progresso das liberdades democráticas e sindicais, foram o resultado dessas circunstâncias. Os sindicatos desenvolveram-se em todos os cantos do planeta.

Não importa a tinta que está a ser derramada pelos modernos caluniadores, sempre a verdade brilhará.

Após as derrotas de 1989-1991 e das mudanças ocorridas, a situação e o papel da OIT, assim como de todas as organizações internacionais, também mudaram.

A construção fisiológica do discurso autoritário


Neurociências apontam: falas que provocam medo, tensão e estresse estimulam o cérebro a reagir primitivamente e bloqueiam o pensamento elaborado. A ultradireita aprendeu a manipular este mecanismo. É preciso desarmá-lo

George Monbiot | Outras Palavras | Tradução: Inês Castilho

Será a espiral de morte da democracia? Estaremos mergulhando, em todo o mundo, num ciclo letal de fúria e reativismo, que bloqueia a conversa fundamentada da qual depende a vida cidadã?

Oportunistas políticos que usam agressão, mentiras e indignação para abafar os argumentos existiram em todos os tempos. Mas, ao menos desde a década de 1930, nunca tantos deles foram bem sucedidos ao mesmo tempo.

Donald Trump, Bois Johnson, Narendra Modi, Jair Bolsonaro, Rodrigo Duterte, Nicolás Maduro, Viktor Orbán e muitos outros descobriram que a era digital oferece farto leque de escolhas. A raiva e os desentendimentos que as redes sociais geram, exacerbados por fábricas de insultos, robôs e publicidade política secretamente financiada, vazam para a vida real.

A GERINSONSA

O Partido dito Socialista está em conversações com cerca de uma dezena de outros partidos (os que se sabem e os que não se sabem) votados para a Assembleia da República, entre os quais o BE, o PCP e o PAN. O objetivo é formar governo sem maioria e sem acordos no papel. 

A inexistência de acordos específicos lavrados em papel e ou em imagens e som, algo que prove das suas intenções e compromissos, é importante para o PS e outros, porque assim cada um poderá puxar a brasa à sua sardinha, à sua maneira. Assim podem contar mentiras sempre que queiram e sejam úteis às suas estratégias. Como sempre quem se lixa é o mexilhão, os plebeus, o povinho, os comidos e mal-pagos. A Geringonça passou à fase insonsa. Uma Gerinsonsa, para não dizer uma trampa futura que os portugueses conhecerão e sofrerão através das práticas de governação do Partido dito Socialista a navegar para a direita e a governar também nesse sentido.

Nem carne nem peixe, algo sem sal, mas com muito sentido de privilegiar os mesmos de sempre com uma componente grosseira de publicidade enganosa.

Que é o mal-menor. Será? Para ver, sentir e desesperar, esperemos sentados.

Mário Motta | PG

Portugal | Costa não terá uma nova geringonça. Terá várias


O líder socialista olha para o copo meio cheio: ninguém na esquerda o rejeita ou quer derrubar, e todos se dizem dispostos a negociar, em particular sobre os Orçamentos do Estado. A várias velocidades, cada um à sua maneira, ninguém fechou a porta. Mas só o BE propôs um acordo de papel passado

Ao fim de uma maratona de cinco reuniões, que começaram às dez da manhã desta quarta-feira e acabaram quase às oito da noite, António Costa ficou a saber o que já sabia: não haverá nova geringonça, e dos cinco partidos com quem o PS abriu negociações à procura da maioria que lhe falta, só o BE propõe um acordo de legislatura com papel passado. Sobre isso, ficaram de voltar a falar para a semana que vem. Mas Costa tudo fez para relativizar este passo em frente dos bloquistas (já lá vamos).

Para já, o "otimista irritante" opta por olhar para o copo meio cheio: não terá geringonça 2.0, mas terá várias, cada uma à medida do respetivo interlocutor. O primeiro-ministro indigitado recebeu de todos os partidos que se sentarão à esquerda do PSD a garantia de que deixarão passar o Governo do PS e ainda a disponibilidade para negociações ao longo da legislatura.

Milhares de soldados dos EUA em grandes exercícios militares na Europa


20 mil soldados norte-americanos vão participar, em Abril e Maio do próximo ano, nos maiores exercícios miltares em solo europeu desde a Guerra Fria. A foto é de Stars and Stripes, em AbrilAbril

Os exercícios «Defender Europe-20» terão lugar em Abril e Maio em dez países europeus, com Alemanha e Polónia a acolherem a acção principal. Estarão envolvidos 37 mil tropas, 20 mil dos quais norte-americanos.

O Comando Europeu dos Estados Unidos (EUCOM) declarou esta segunda-feira que Washington irá enviar 20 mil soldados para a Europa na próxima Primavera, para participarem nos maiores exercícios militares dos últimos 25 anos em território europeu, informa o diário Stars and Stripes.

De acordo com o periódico centrado em questões das Forças Armadas norte-americanas, as manobras, lideradas pelos EUA, irão envolver, no total, 37 mil tropas, incluindo 20 mil provenientes dos Estados Unidos.

Os exercícios irão ainda envolver 14 bases aéreas e portos marítimos em oitos países: Alemanha, Bélgica, Estónia, Geórgia, Holanda, Letónia, Lituânia e Polónia, indica a mesma fonte.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Donald Trump, só contra todos


Thierry Meyssan*

Só, contra a sua própria oposição, contra a sua Administração e contra os seus aliados, o Presidente Trump não parece à altura de conseguir fazer aplicar os seus compromissos de campanha. Três anos após a sua eleição, a Câmara dos Representantes lançou contra ele um processo de destituição porque ele luta contra a corrupção dos seus adversários

O principal compromisso de campanha de Donald Trump, de por fim à estratégia militar ofensiva Rumsfeld/Cebrowski e de a substituir por uma política de cooperação jacksoniana, choca com uma poderosa oposição interna nos EUA e externa dos aliados dos Estados Unidos. Mais do que nunca, o Presidente aparece sozinho, absolutamente só, face à classe política transatlântica.

Tudo jogado antecipadamente

Como para o seu predecessor, Barack Obama, tudo parece decidido antecipadamente.
Desde a sua eleição, em 2009, Obama foi saudado como «o primeiro presidente negro dos Estados Unidos», depois mostrou-se incapaz de resolver os problemas desta comunidade, deixando a violência policial a seu respeito atingir máximos. Logo nos primeiros dias do seu mandato, o Comité Nobel atribuía-lhe o Prémio Nobel da Paz saudando os seus esforços «por um mundo sem armas nucleares»; um assunto que ele deixou imediatamente de abordar. Muito embora o seu balanço seja o exacto oposto das suas promessas de campanha, não deixou, por isso, de ser menos popular no mundo. Pouco importando a deslocalização de empregos para a China, a continuação de Guantanamo, os milhares de assassínios selectivos, e a destruição da Líbia.


Pelo contrário, desde a sua eleição, e antes mesmo da transmissão de Poder em 2017, Donald Trump era apresentado como um narcísico maníaco-depressivo, uma personalidade fraca e autoritária, um cripto-fascista. Desde o seu acesso à Casa Branca, a imprensa apelou para o seu assassinio físico e o Partido Democrata acusou-o de ser um espião russo. Conseguiu que uma investigação contra ele e a sua equipa fosse aberta na perspectiva da sua destituição. O seu principal Conselheiro, o General Michael Flynn, foi forçado a demitir 24 horas após a sua nomeação, depois detido. Quando Donald Trump perdeu as eleições intercalares para a Câmara dos Representantes (Novembro de 2018), foi logo forçado a negociar com alguns dos seus opositores. Chegou a um acordo com o Pentágono, autorizando certas acções militares desde que elas não envolvessem o país numa espiral, e obteve em troca o encerramento do inquérito russo. Durante oito meses, ele tentou a todo o vapor por termo à destruição do Médio-Oriente Alargado e aos preparativos para a destruição da Bacia das Caraíbas. Esperava poder anunciar a concretização da paz na tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas. Zás! Neste exacto dia, a USIP (alter ego da NED, mas para o Departamento da Defesa), apresentava o seu relatório sobre a Síria aconselhando o relançar da guerra. E, ainda no mesmo dia, a Presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, anunciava a abertura de um processo de impeachment (destituição-ndT) contra ele, desta vez a propósito da sua luta, com as autoridades ucranianas, contra corrupção do clã Clinton.

É, pois, pouco provável que Donald Trump consiga realizar o seu programa antes do fim do seu mandato quando a campanha eleitoral, para a sua eventual reeleição, se inicia. Entretanto, os seus partidários ressaltam que ele nunca é tão bom como quando é acusado.

Raros foram os média (mídia-br) a explicar o Jacksonianismo. Claro, uma ideologia que já ninguém defendia desde a Guerra da Secessão. Quase todos pretenderam durante dois anos que Donald Trump era incoerente e imprevisível, antes de admitir que ele agia segundo uma visão do mundo bem determinada.

Seja como for, ele já conseguiu repatriar muitos dos empregos deslocalizados e a pôr fim ao apoio maciço dos Departamentos de Estado e da Defesa aos exércitos jiadistas, do qual restam, no entanto, alguns programas em curso.

Pouco importa o que Barack Obama e Donald Trump realizaram enquanto presidentes, o apenas será lembrada a maneira como os média os apresentaram quanto ao dia da sua tomada de posse.

Ainda é possível resgatar a internet?


Da anarquia à ditadura: corporações aproveitaram-se do “espírito livre” da rede para exercer seu poder econômico e impor “capitalismo de vigilância” e manipulação política. Diante do inferno, surge a ideia de regras democráticas

Ensaio de Paul Starr | Outras Palavras

Em apenas duas décadas, as tecnologias digitais e a internet passaram do sonho excitante de uma nova era revolucionária à encarnação do medo de um mundo que deu muito errado. A revolução digital agora ameaça minar valores que deveria ter feito avançar – liberdade pessoal, democracia, conhecimento confiável e mesmo livre competição. A tecnologia não fez isso para nós sozinha, nem que tropeçamos distraidamente em um universo distópico alternativo. O regime tecnológico atual surgiu de escolhas perigosas, por ignorar lições do passado e permitir que o poder privado agisse sem regulamentação.

Esses problemas — monopólio, vigilância e desinformação — resumem o que deu errado e o que precisamos enfrentar, rever e corrigir se quisermos ter alguma esperança de recuperação da promessa das novas tecnologias.

O crescimento explosivo da economia digital nos anos 1990 e início dos anos 2000 parecia validar a ideia de que era melhor deixar os mercados por sua própria conta. A internet dessa era foi o maior triunfo do neoliberalismo. Depois que o governo norte-americano financiou avanços chave, e em seguida abriu a rede para o desenvolvimento comercial, a inovação digital e o empreendedorismo criaram novos meios online de trocas, novas riquezas e novas comunidades. Mas essa economia digital agora parece completamente diferente, com o crescimento das plataformas monopolizadoras. Amazon, Facebook, Google, Apple e Microsoft controlam ecossistemas inteiros do mundo digital, dominando os principais pontos de convergência de comércio e notícias.

Assim como a internet dos primórdios alimentou a ilusão de que era inerentemente apoiadora da competição, também espalhou a ilusão de que era intrinsecamente protetora da autonomia pessoal. Afinal, ninguém obrigava você a revelar sua verdadeira identidade online. Contudo, o mundo digital de hoje fez com que fosse possível o sistema de vigilância mais abrangente que já existiu. Aparelhos em rede rastreiam cada movimento e comunicação que fazemos. Uma nova forma de empreendimento emergiu do que Shoshana Zuboff chama de “capitalismo da vigilância”, ao passo que o Google, Facebook e outras empresas varrem dados sobre nossas vidas, preferências, personalidades e emoções “para práticas comerciais ocultas de extração, predição e vendas”.

A realidade acabou sendo menos graciosa. A economia digital destruiu o modelo de negócios tradicional do jornalismo, e resultou em um declínio dramático dos jornais profissionais. E como Google e Facebook dominam a publicidade digital, não surgiu nenhum outro modelo alternativo capaz de financiar as mesmas capacidades de comunicação, particularmente a níveis regional e local. Enquanto isso, plataformas de redes sociais substituíram os velhos detentores da mídia de massa, moldando a exposição do público às notícias e ao debate a partir de seus algoritmos. Agora, esses algoritmos – que estão por exemplo na linha do tempo do Facebook, no sistema de buscas da Google, nos mecanismos de recomendação do YouTube e nos assuntos do momento do Twitter – influenciam quais conteúdos e pontos de vista ganham visibilidade entre os usuários. Ao invés de promover um debate público melhor informado, no entanto, as redes sociais tornaram-se poderosos vetores de desinformação, polarização e ódio.

Como chegamos na crise atual e o que podemos fazer com ela tornaram-se perguntas urgentemente políticas.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

Um encontro com Julian Assange na prisão


– Mesmo tendo cumprido em abril a sentença que o levou à prisão, Assange continua detido

– A Lei de Espionagem americana está sendo usada pela primeira vez contra um editor

– As acusações nos Estados Unidos por publicar informações de interesse público podem condená-lo a 175 anos de cadeia

Felicity Ruby [*]

Só conheci Julian Assange no cárcere. Faz nove anos que o visito na Inglaterra, trazendo notícias e solidariedade australiana.

Quando fui a Ellingham Hall [histórica propriedade rural em Norfolk onde Assange ficou em prisão domiciliar durante dois anos], levei música e chocolate. Quando fui à embaixada do Equador, levei camisas de flanela, cópias de Rake, uma série de TV australiana, um pote de Wizz Fizz, uma marca australiana de sorvete, e folhas de eucalipto. Mas para o presídio de Belmarsh não se pode levar nada – nenhum presente, nenhum livro, nenhuma folha de papel.

E, depois de ter passado por lá, voltei para a Austrália, um país tão distante que o abandonou em quase todos os aspectos.

Ao longo dos anos, aprendi a não perguntar a Julian "como você está?", porque é bem óbvio como ele está: detido, difamado, caluniado, sem liberdade, preso – em "celas" cada vez mais estreitas, frias, escuras e húmidas –, perseguido e punido por publicar informações. Aprendi a não reclamar da chuva ou comentar o lindo dia que está fazendo, porque ele não sai há tanto tempo que sentir até uma nevasca seria uma bênção. Aprendi também que não é reconfortante, mas sim cruel, falar sobre pores-do-sol, sobre as aves kookaburras, nativas da Austrália, ou sobre viagens de carro. Que não ajuda a assegurá-lo de que, como eu e meu cão, ele também encontrará rastros de animais nos parques naturais australianos quando algum dia voltar para casa, mesmo que eu pense nisso quase todos os dias.

A natureza prolongada e de crescente intensidade de seu confinamento me confronta enquanto, na primeira fila, eu espero na porta de entrada daquela prisão de tijolos marrons, no último dia 12 de setembro. No centro de visitantes, do lado oposto, cadastraram minhas digitais depois de eu ter mostrado dois comprovantes de residência diferentes e meu passaporte. Certifiquei-me de ter tirado absolutamente tudo de meus bolsos e guardei minha bolsa, ficando apenas com uma nota de 20 libras para comprar chocolate e sanduíches. Apesar do teatro de segurança que se segue, o dinheiro é roubado em algum momento durante o percurso por não menos de quatro corredores cujas portas traseiras são seladas antes que as portas dianteiras se abram, depois por um detector de metal, para em seguida ser revistada e ter minha boca e orelhas inspecionadas.

Depois de calçarem de novo os sapatos, os visitantes atravessam uma área externa e encaram a realidade da prisão: uma cerca de aço com arame farpado em lâmina de uns 4 metros de altura ao redor de toda a sua extensão. Eu me apresso até o próximo prédio e chego a uma sala onde 30 pequenas mesas estão fixadas no chão, cada uma com uma cadeira azul de plástico de frente para três cadeiras verdes.

Ele se senta em uma das cadeiras azuis.

Eu hesito agora, como sempre, em descrevê-lo. Isso também aprendi: é um impulso protetor contra o fascínio mórbido de alguns de seus defensores e também daqueles que apreciam seu sofrimento.

Manuel Loff: "O fascismo não morreu"


Fascismo, populismo e capitalismo, três dos «ismos» sobre os quais se debruça o historiador Manuel Loff, numa entrevista ao AbrilAbril, para analisar o momento político em que vivemos.

Trabalhas sobre o fascismo, ideologia que marcou o século XX. Mas os artigos que publicas e muito do conteúdo de algumas entrevistas que te são feitas falam sobre a actualidade. Há um diálogo entre o teu trabalho e a realidade política que vivemos hoje?

Há diálogo porque o fascismo não morreu. É muito importante percebermos que na história das ideias políticas e dos movimentos sociais cada conjuntura histórica produz novas ideias políticas e actualiza outras. E é evidente que as ideologias de uma forma ou de outra não morrem nunca.

A convicção sobre a qual se refundaram as democracias liberais a ocidente, a partir de 1945, e se criaram os novos regimes que se definiram a si próprios como socialistas na Europa Centro-Oriental, era de que o fascismo tinha morrido, uma vez confirmada a sua derrota militar. Mas foi uma convicção com validade provisória.

A extrema-direita que hoje nos aparece, não vou dizer que não seja uma novidade, porque corresponde a uma conjuntura histórica diferente da do passado. Mas é herdeira do fascismo dessa época e esteve sempre presente no espectro político europeu e à escala mundial desde 1945.

Esta «nova» extrema-direita só poderia ter o mínimo de sucesso popular, eleitoral e mediático uma vez reunidas de novo algumas das condições que habitualmente estão presentes no momento em que o fascismo ou os «neo-fascismos» têm aparecido e têm tido sucesso.

Ora, depois dos anos 80 dá-se uma mudança profunda no sistema económico internacional com a viragem económica a que se tem chamado de globalização e que é uma ulterior expansão do sistema capitalista a regiões do globo de onde tinha desaparecido, aliada a uma nova ordem internacional com a construção de um mundo unipolar resultante da implosão do sistema soviético.

Este novo contexto histórico caracteriza-se pelo esgotamento da capacidade de representação das democracias chamadas liberais e também o esgotamento, a partir da perestroika, dos modelos de socialismo que estavam vigentes em grande parte da Europa e abre espaço para que uma reinterpretação de uma velha ideologia aparecesse como nova. 

Chamar-lhe nos nossos dias de «populismo», ou simplesmente «extrema-direita», é uma forma sintética e até simplista de definir o que é a readaptação ao contexto actual do fascismo na sua versão neo-fascista.

Essa extrema-direita é inevitavelmente herdeira dos valores de uma ideologia que no contexto do final da Primeira Guerra Mundial estava a nascer e que procurava uma solução radical de direita, assumidamente violenta, para resolver o problema da legitimidade popular e política dos regimes liberais, que tinham perdido a sua capacidade de adesão e reunião de consenso.

Hoje começam a surgir estes novos movimentos que, em grande medida, são herdeiros do fascismo de há 100 anos e que pretendem disputar à esquerda a sua capacidade de contestação, procurando roubar-lhes a bandeira da ruptura.

Ao contrário do fascismo dos anos 20, hoje têm o cuidado de nunca pôr formalmente em causa a natureza liberal-democrática dos regimes, embora assumindo um discurso ultra-securitário do ponto de vista de criação de inimigos externos, que têm manifestação interna a partir da imigração.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Portugal / Eleições | RENOVAR A "GERINGONÇA", SE FOR POSSÍVEL...


PS. Costa quer renovar a ‘geringonça’. “Se for possível, excelente; se não, havemos de encontrar caminho”

Líder socialista anuncia conversações com PCP e BE para repetir acordos à esquerda, e inclui PAN e Livre nos contactos. Prefere nova 'geringonça', mas também admite acordos pontuais que garantam quatro anos de legislatura

Foi o resultado que o PS esperava, cumprindo quase todos os items do melhor cenário possível. A maioria absoluta - que chegou a ser admitida no intervalo da projeção Expresso/SIC - nunca foi tida como uma hipótese real, e cedo os socialistas ajustaram as suas expectativas: as contas davam entre 106 e 111 deputados (excluindo os da emigração, que só serão apurados para a semana). Esse resultado encaixava naquilo que António Costa esperava: o PS tem mais deputados do que a direita toda junta, o que significa que apenas precisa de abstenções à esquerda para fazer passar leis, e nos caso em que precise de garantir maiorias absolutas, não fica dependente de um único parceiro potencial; pode antes virar-se para dois: BE e PCP. Mais: o BE não reforçou o seu peso relativo. Para ser (quase) perfeito para o PS, era o PCP não cair tanto e o PAN poder também fazer maiorias.

Mas na hora de cantar vitória, Costa, sem maioria absoluta, fez questão de fazer exatamente o que havia dito que faria: desafiou PCP e BE para que repitam a solução de maioria dos últimos quatro anos. E anunciou que o PS falará com mais dois partidos com vista a entendimentos à esquerda - o PAN e o Livre. É essa, diz Costa, a mensagem que os eleitores quiseram deixar neste domingo: reforçar o peso do PS, mas mantendo a força dos seus parceiros, o que sinaliza, na leitura de Costa, a necessidade de repetir a' geringonça'.

A vitória socialista, como o líder do partido a apresentou, vale em toda a linha. “O PS ganhou as eleições e reforçou claramente a sua posição política em Portugal” - “aumentou e ganhou em votos, aumentou e ganhou em mandatos, é o único partido político que elege deputados em todos os círculos eleitorais do território nacional (e espero que também nos dois círculos eleitorais que faltam apurar [da emigração]), e ganhou em 15 dos 20 círculos”. Conclusão de Costa: “Somos não só um grande partido popular, como somos um grande partido nacional”.

À volta do PS, António Costa identificou duas tendências: o afundamento da direita, e a persistência da esquerda. “O PSD e o CDS, mesmo com o reforço da Iniciativa Liberal e do Chega!, tiveram a maior derrota histórica da direita em Portugal”, declarou.

Portugal | PS VENCEU AS ELEIÇÕES... SEM MAIORIA - os resultados globais

domingo, 6 de outubro de 2019

Reflexões em dia de eleições em Portugal e a pensar em Angola


António Jorge* | opinião

Pela boca morre o peixe!

Se a nossa língua é a pátria... mais que a própria geografia do país onde nascemos ou vivemos...

- Se assim é... como é que a África e os países e povos africanos que tem uma língua oficial estrangeira... geralmente acessível apenas às elites e assimilados... e que foi imposta pelo colonialismo... responsável por séculos de escravatura.. como idioma exclusivo ou oficial... se podem libertar algum dia?

- E se a este facto juntarmos a discriminação e desvalorização que é feita às línguas africanas... onde milhões de crianças, (a maioria) por não falarem a língua adoptada como oficial, estão afastadas do sistema de ensino... e crescerem sem puderem ter acesso aos conhecimentos elementares... e que vivem na pobreza e nunca terão uma profissão condigna... transformados apenas... em biscateiros, varredores, lavadores de carros, carregadores, aguadeiros, catadores de lixo, vendedores de rua... prostitutas, traficantes ou como bandidos para sobreviverem e encherem as cadeias.

Como podem os Não alfabetizados no idioma oficial compreender e participar da vida colectiva de um país... como Angola que eu conheço.

- Ser um ser normal, numa escola, ter uma profissão, ter esperança e ter futuro?

Houve devido às várias guerras no passado em Angola, e por razões de sobrevivência também, um êxodo... milhões de pessoas que fugiram das suas terras para as cidades... principalmente para Luanda... hoje com mais de oito milhões de habitantes... e que pela aculturação e urbanização... muitos hoje comunicam em português... claro que deficientemente, por conhecerem apenas alguns dos vocábulos da língua de Camões... e de Fernando Pessoa... que afirmou certa vez... "a minha pátria é a língua portuguesa"... e sabemos que é assim, nomeadamente quando nos encontramos na diáspora.

Esta dependência da língua portuguesa continuará a fazer com que... a libertação seja uma miragem... já que a aculturação continua a ser feita neste idioma... e agora de forma massiva e geral na sociedade angolana... e reforçada ainda pelos meios de comunicação em massa... nacionais e estrangeiros.

- Angola deveria ser constitucionalmente... no mínimo um país bilingue... e ter um sistema de ensino universal para todos, (como se comprometeu nas Nações Unidas) com a criação de escolas primárias e professores em línguas nacionais para as crianças nascidas e criadas nas línguas maternas, como transição para a língua oficial, de acordo com as principais línguas de Angola sem prejuízo e do aproveitamento das capacidades cognitivas das crianças, da sua cultura antropológica e como processo de extrapolação de um sentimento nacional abrangente e único.

*António Jorge - editor e livreiro em Angola

REVITALIZAR O TECIDO PATRIÓTICO ANGOLANO



Por ocasião do assinalar do 2º ano do corrente mandato do Presidente da República de Angola, João Manuel Gonçalves Lourenço. (http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/pr-considera-legitima-reivindicacao-de-cidadaos)

Pequena nota prévia:
Todos os que lerem este conteúdo devem preocupar-se em abrir os links que sugiro para uma melhor percepção das questões que levanto!

O Presidente da República de Angola, João Manuel Gonçalves Lourenço, ensaiou o balanço de dois anos de mandato com um espírito de abertura que não só deve cativar todos os angolanos, mas também e sobretudo mobilizá-los e incentivá-los nas suas capacidades de reconhecimento identitário próprio (individual e colectivamente), de reconhecimento da história de Angola e de África, de reconhecimento sobre o imenso que há que realizar nos termos de resgate e luta contra um subdesenvolvimento que advém de múltiplas razões, entre elas as de raiz histórica, as de raiz antropológica e as de raiz sociológica.

Angola deve-se redescobrir a si própria na rica trilha do movimento de libertação em África, numa carga mental construtiva capaz de revitalizar o seu próprio tecido humano em prol da identidade patriótica que é possível cultivar em pleno século XXI.

Angola | Pressões na origem da demissão de Rui Ferreira do Tribunal Supremo?


O Presidente João Lourenço aceitou o pedido de demissão de Rui Ferreira, juíz-presidente do Tribunal Supremo e do Conselho Superior da Magistratura Judicial. Continua a discussão sobre os motivos da demissão. 

As pressões para a destituição de Rui Ferreira vinham de quase todos os lados. Em março de 2019, o maior partido da oposição, a UNITA, pediu a nulidade da nomeação de Rui Ferreira para o cargo de juiz-presidente do Tribunal Supremo.

Na altura, a UNITA tinha alegado inconstitucionalidade na sua indicação. Também este ano, um grupo de empresários e de ativistas cívicos fizeram uma petição a exigir a sua destituição do Supremo.

Em causa está o seu alegado envolvimento em atos de corrupção no caso Arosfram - um grupo empresarial de importação de bens alimentos extinta na sequência de um mandado de captura e condenação de um dos seus responsáveis pelos os Estados Unidos da América. A empresa foi acusada de financiamento ao terrorismo.

Legalização da comunidade angolana na Namíbia é autorizada


A embaixadora de Angola na Namíbia anunciou que obtenção do cartão consular por angolanos residentes no país terá início imediato. Bilhetes de identidade serão emitidos para reduzir problemas de angolanos indocumentados.

A embaixadora de Angola na Namíbia, Jovelina Imperial, anunciou este sábado (05.10) que os primeiros serviços relativos à legalização dos cidadãos angolanos naquele país vão iniciar imediatamente com a inscrição para a obtenção do cartão consular. A diplomata fez o anúncio numa reunião com cerca de 200 angolanos residentes naquele país

Segundo uma nota da embaixada, a falta de documentação apropriada e o elevado número de jovens que atravessam ilegalmente a fronteira da Santa Clara, na província do Cunene, à procura de melhores condições de vida foram o foco das preocupações transmitidas pela comunidade. 

A diplomata, que esteve acompanhada por uma brigada do setor consular e outros funcionários da missão diplomática, disse que os primeiros serviços de legalização iriam iniciar-se logo após o encontro.

Angola | Repatriamento voluntário de congoleses para a próxima semana


O Governo angolano, a partir da próxima semana, inicia um novo processo de repatriamento voluntário dos restantes 10 mil refugiados da República Democrática do Congo, no centro de acolhimento do Lóvua.

"Dos mais de 36 mil refugiados que entraram, em março de 2017, até ao mês passado contabilizavam-se no banco de dados cerca de 24 mil. Desse número mais de 14 mil já regressaram de forma espontânea, com todo o apoio do Governo angolano e a partir da próxima semana iniciaremos mais um processo de repatriamento voluntário", disse esta quinta-feira (03.10) Alfredo Leite, consultor do gabinete do secretário de Estado angolano para a Ação Social.

O processo de repatriamento voluntário organizado dos refugiados da RDC, que se encontram desde 2017 no centro de acolhimento do Lóvua, na província angolana da Lunda Norte, decorre de um acordo tripartido assinado entre os governos de Angola e da RDCongo, juntamente com o Alto Comissariado das Nações Unidas para os refugiados (ACNUR).

Presidente do Parlamento iraquiano compara corrupção ao terrorismo e apoia protestos


O presidente do Parlamento do Iraque, Mohammed al Halbusi, enfatizou a necessidade de combater a corrupção da mesma forma que o terrorismo.

O político anunciou a necessidade de "acabar com os confrontos entre manifestantes e serviços de segurança", prometendo que se juntaria aos protestos "se o Estado não puder atender às demandas dos manifestantes".

"A corrupção deve ser combatida tão seriamente quanto o terrorismo", disse Al Halbusi em seu discurso transmitido nos canais de televisão árabes.

Ele também anunciou que chefiará um novo comité de reforma criado para ajudar as autoridades a atender às demandas do povo iraquiano.

A maior coligação do parlamento iraquiano Al Mihwar Al Watani anunciou em 4 de outubro a suspensão de sua participação na legislatura em apoio aos manifestantes no país.

Turquia envia tropas adicionais para fronteira com Síria


O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, disse em ocasiões anteriores que Ancara estava pronta para iniciar uma operação militar no norte da Síria para recuperar áreas das forças curdas apoiadas pelos EUA.

A Turquia enviou tropas adicionais e veículos blindados para a fronteira com a Síria no condado de Akcakale depois que o presidente turco Recep Tayyip Erdogan anunciou a operação contra a coalizão armada curda das Forças Democráticas da Síria, apoiada pelos Estados Unidos.

A operação militar no norte da Síria será realizada usando unidades terrestres e aéreas da Turquia. O objetivo da intervenção militar é criar uma zona-tampão para acomodar refugiados sírios na Turquia e expulsar as forças da coalizão curda.

O representante das Forças Democráticas da Síria, Mustafa Bali, disse que as formações curdas iniciariam operações militares contra as tropas turcas em caso de invasão das regiões nordestinas da Síria.

Sputnik | Foto: © AP Photo / Lefteris Pitarakis

Ofensiva devastadora dos Houthis: Três brigadas sauditas aniquiladas


– Uma verdadeira viragem na situação do Médio Oriente

– Esta notícia foi omitida pela maior parte dos media corporativos

Federico Pieraccini [*]

Até agora, muitos poderiam ter sido levados a acreditar que os Houthis eram uma força armada esfarrapada e sem sofisticação. Outros, vendo os ataques de drones e mísseis às instalações petrolíferas sauditas, podem ter achado que seria um ataque de "falsa-bandeira" realizado por Riad para aumentar o valor de mercado da Aramco; ou então numa operação realizada pelo Irão ou mesmo Israel. Porém, em 28 de setembro, os Houthis puseram fim a estas especulações confirmando o que muitos, como eu, escrevemos há meses; isto é, que as táticas assimétricas dos Houthis, combinadas com as capacidades convencionais do exército iemenita, são capazes de por de joelhos o reino saudita de Mohammed Bin Salman.

As forças de mísseis do exército iemenita mostraram ser capazes de realizar ataques altamente complexos, sem dúvida em resultado de informações fornecidas pela população xiita na Arábia Saudita, que é contra a ditadura da Casa de Saud. Esses simpatizantes Houthis ajudaram na identificação dos alvos, realizaram o reconhecimento dentro das instalações atacadas, descobriram os pontos mais vulneráveis e transmitiram essas informações ao exército Houthi e iemenita. As forças iemenitas empregaram meios produzidos localmente para degradar severamente as unidades de extração e processamento de petróleo bruto da Arábia Saudita, ataques que reduziram a quase metade a produção de petróleo e ameaçaram continuar com outros alvos se o genocídio levado a cabo pela Arábia Saudita no Iémen não cessasse.