domingo, 22 de julho de 2012

O RESGATE DOS MONANGAMBAS - I



Martinho Júnior, Luanda

Monangamba

Naquela roça que não tem chuva
é o suor do meu rosto que rega as plantações;

Naquela roça grande tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue feitas seiva.

O café vai ser torrado,
pisado, torturado,
vai ficar negro, negro da cor do contratado!

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo? quem vai à tonga?
Quem trás pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de déndén?
Quem capina e em paga recebe desdém
fubá podre, peixe podre,
panos ruins, cinqüenta angolares
porrada se refilares?
Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer
— Quem?

Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas, carros, senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter a barriga grande — ter dinheiro?
— Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
— Monangambéée...

Ah! Deixem-me ao menos subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo, maruvo
e esquecer diluído nas minhas bebedeiras
— Monangambéée...

Poema de António Jacinto, musicado e cantado por Rui Mingas

1 – Na década de 70, em especial durante o parto sangrento da independência de Angola, o poema de António Jacinto, musicado e cantado pelo trovador Rui Mingas, ressoava em todas as mentes e corações que haviam embarcado na saga da luta de libertação em Angola.

O seu trovão sobrepunha-se ao troar dos canhões e enchia o éter, numa época grávida das mais contraditórias emoções.

Era como um grito misto de renúncia e de esperança, um segundo hino com identidade nacional, forte na sua expressão e pleno de energia, que interiorizado por tantos, impelia aqueles que seguraram as armas a partir para os campos de batalha da pátria nascente.

De renúncia por que o Monangamba para o colonialismo não passava dum sub-humano, oprimido e servil, uma autêntica negação das potencialidades criativas do homem, condenado ao obscurantismo e tantas vezes à doença, desde praticamente a sua nascença.

De esperança por que o homem que se geraria com a independência era desde logo um ser vencedor de toda a opressão e sujeição que o colonialismo havia imposto.

A trova Monangamba, pela sua substância e simbolismo era um autêntico virar da página para todo o povo angolano e sentido como tal por toda a geração que viveu a assumpção da independência (http://www.youtube.com/watch?v=D1KT1oqWsDQ).

2 – Mas afinal quem era o monangamba?

O monangamba era um contratado arrancado à força da sua aldeia no planalto central e deslocado para o duro trabalho nas fazendas de café do norte de Angola; não havia frequentado a escola, era um ser ignorante, não tinha sequer profissão e por isso era tão apetecido enquanto mão-de-obra feita escrava, como até os próprios soldados portugueses, eles próprios também quantas vezes arrancados à sua pobre ruralidade, reconheciam (“Os putos da mamarrosa” – http://cc3413.wordpress.com/tag/bailundo/):

… “estes trabalhadores eram forçados a deixar as suas terras, recrutados pelos administradores de posto de que dependiam os seus quimbos de residência para trabalharem durante um ano nas fazendas de café, onde recebiam um mísero salário (20 escudos angolanos diários).

Geralmente, metade do salário era paga ao trabalhador, a outra metade retida para lhe ser entregue quando terminava o contrato. Segundo o contrato o trabalhador tinha direito a alguns bens, aguardente e cerveja aos sábados, mas todos os outros bens que o trabalhador necessitava, alimentação, cigarros, fósforos, sabão, lâminas de barbear, pilhas para o rádio, etc, eram comprados na cantina e assim o dinheiro recebido na fazenda entrava logo a seguir nos bolsos do patrão através da cantina.

Quando alguns trabalhadores mais gastadores excediam o orçamento e não podiam pagar as dívidas eram obrigados a ficar mais tempo além do contrato para saldar as mesmas. Aqueles que tinham mulheres, acrescentavam mais alguns angolares ao orçamento, uma vez que elas exerciam a profissão de lavadeiras e por certo os militares eram muito menos exploradores que os fazendeiros.

Estes trabalhadores do café, com o seu esforço contribuíram para uma riqueza enorme que Angola possuía nas décadas de 50, 60 e 70”…

3 – Trago à memória o monangamba, por que para as novas gerações é muito difícil avaliar quanto mesmo em seu estertor, era o colonialismo tão opressivo para todo o povo angolano a ponto de negar-lhe educação, negar-lhe profissão, negar-lhe saúde e assim mantê-lo embrutecido, para ser mais fácil explorar a sua força de trabalho... um “indígena”…

Escapavam-se os “assimilados”, não muitos, apenas aqueles que seria necessário para serem utilizados em determinadas franjas dos serviços, da administração pública e colorir as fileiras da própria administração fascista-colonial, mesmo assim tão longe quanto o possível do poder (http://pt.wikipedia.org/wiki/Estatuto_do_ind%C3%ADgena; http://en.wikipedia.org/wiki/Assimilado).

Na sua própria terra, o ambiente era de chumbo para o colonizado, num processo que em relação à Argélia (e afinal também em relação ao colonialismo português em outros territórios) tão bem identificou Franz Fanon em “Os condenados da Terra” conforme sintetiza em Prefácio desse livro que marcou e continua a marcar África, Jean Paul Sartre – http://kamugere.wordpress.com/2011/07/05/prefacio-de-os-condenados-da-terra-por-jean-paul-sartre.

4 – As potências coloniais e o império foram e são os maiores responsáveis pelo subdesenvolvimento de África, inculcado pela opressão e pelo sangue desde quando os africanos eram levados como escravos para as plantações do outro lado do Atlântico, pelo que a luta pela independência e pela soberania dos africanos não pode ter acabado com o hastear das bandeiras, mesmo aquelas que foram erguidas da maneira mais decisiva como o caso de Angola.

Veja-se, por exemplo, como Samir Amin questiona o modelo da “democracia representativa” ocidental (“A farsa democrática” – http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=19254&boletim_id=1082&componente_id=17282).

Em Angola, a luta pela independência e contra o colonialismo durou entre 1961 e 1975, a que se seguiu a luta contra o regime sul africano do “apartheid”, aliado a alguns regimes retrógrados de África e a suas sequelas, entre 1975 e 2002, mas nem por isso o resgate se resume a isso, ou pára aí: a luta contra o subdesenvolvimento impacta nos mais fecundos conteúdos que alicerçam a sociedade humana e o ambiente e por isso é um processo que irá ocorrendo geração após geração, podendo até levar séculos.

Vencer os traumas de séculos de exploração, é uma luta em muitas frentes, com impactos sócio-culturais aferidos e decisivos que devem actuar sobre as causas do subdesenvolvimento imposto pela história.

A América Latina precisou de mais 200 anos após o hastear das bandeiras para alcançar a identificação com um processo real de independência e soberania e, precisamente por causa desse esforço, assumiu, tendo Cuba na vanguarda, o combate ao analfabetismo e às doenças típicas das carências resultantes do crónico estágio de subdesenvolvimento a que também tem sido submetida século após século.

A 2 de Janeiro de 2010 escrevi eu a propósito no “Zip, Zip – 04 – ALBA – Uma luz nas trevas”:

“O farol que constitui Cuba revolucionária continua a iluminar com políticas viradas para o homem, as trevas em que se encontra uma humanidade traumatizada por “séculos de solidão” e pelo capitalismo neo liberal de última geração.

A persistente acção exemplar, que contrasta com a decadência ética, moral e cívica do capitalismo, tem tido especial impacto nos últimos 5 anos na esfera de influência em que se constituiu a ALBA, uma organização que se impõe pelas suas notáveis realizações em prol da saúde e educação nos países duma América Latina dilacerada pela exploração, colonialismo e neo colonialismo e se devota hoje à legítima insurreição em nome da vida, da paz e do socialismo.

Não foi por acaso que Cuba, durante o ano de 2009, recebeu cerca de 40 chefes de estado em visita oficial, muitos deles em busca de apoio e de inspiração.

Depois da vitória sobre o analfabetismo que ocorreu sucessivamente em Cuba, na Venezuela, na Bolívia, no Equador e na Nicarágua, depois de missões médicas como Barrio Adentro e Misión Milagro, a ALBA assume a luta contra as incapacidades humanas numa multiplicidade de Missões que têm seu principal campo de manobra neste momento na Bolívia, no Equador e na Nicarágua”.

5 – Isso quer dizer que o processo africano de luta contra o subdesenvolvimento, tendo em conta os traumas acumulados durante a longa noite colonial, o neo colonialismo que se expande após o desaparecimento do “socialismo real” e o saque das riquezas que perdura por via do poder do império e de suas alianças, está longe de ter obtido os resgates que se impõem.

África deve aproveitar melhor as experiências latino-americanas e procurar colocar-se ao nível do que alguns dos povos latino americanos conseguiram, particularmente os componentes da ALBA-TCP (http://www.alianzabolivariana.org/), MERCOSUL (http://www.mercosul.gov.br/) e da UNASUR (http://www.unasursg.org/).

Esse deve ser um processo que deve pendurar um certo temor das elites africanas, que deslumbrados pelos impactos do capitalismo e pelas receitas que ele vai introduzindo com mais ou menos persuasão, ou com mais ou menos força, quantas vezes manipulando e defendendo seus próprios interesses (é esse um dos principais papeis do AFRICOM, por exemplo), está a tolher os relacionamentos entre os dois continentes, inibindo as potencialidades progressistas.

Os êxitos da ALBA em relação à luta contra o analfabetismo, assim como a cobertura que vai conseguindo em termos de saúde, são aspectos de resgate que marcam a diferença em relação ao passado, esperando-se que as gerações contemporâneas consigam atingir nesse processo a maturidade necessária para absorver os impactos culturais indispensáveis à luta contra o subdesenvolvimento.

De que outra maneira se irá conseguir o resgate dos manangambas?!

Foto: Obra do jovem pintor haitiano Jean Walgens Pierre Jean, que faz parte do grupo “Folie ouverte” (que se inspira na reconstrução nacional), exposta no Museu do Panteão Nacional em Porto Príncipe.

*Áudio – Rui Mingas, ilustração sonora

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