quarta-feira, 8 de junho de 2016

Angola. BOBOS DA CORTE FELIZES COM O PAPEL QUE O REI LHES DEU

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As nomeações políticas incorporam sempre uma dose de confiança e, desde que estejam em conformidade com a componente legal (a moral e a ética são devaneios exclusivos das democracias e dos estados de direito), devem ser encaradas mais pelos objectivos por detrás das mesmas e menos pelas implicações, sempre discutíveis.

Victor Ribeiro Queiroz de Carvalho*, opinião

É fundamental que o foco, das análises e comentários em torno de determinadas nomeações monárquicas e familiares, esteja virado sobre o interesse da realeza, sobre o que se espera e o que o tempo sirva como bitola apreciada para futuras avaliações. Se o país ainda existir.

Não se pretende aligeirar o papel que os debates e discussões produzem sempre que determinada nomeação filial e monárquica contribua para tal, determinando, muitas vezes, a agenda dos meios de comunicação e temas de conversas um pouco por todo o lado. Diríamos que se está perante o mínimo que se pode esperar num regime esclavagista e unipessoal, em que o direito à palavra, dentro dos limites consagrados pela monarquia, está “protegido” constitucionalmente.

A nomeação da princesa herdeira Isabel dos Santos como presidente do Conselho de Administração da Sonangol serviu para todos os aproveitamentos de índole política e jurídica, sendo compreensível que se ponha em causa algo que ela e o regime do paizinho não têm: ética, honorabilidade, probidade, honra, dignidade etc. etc..

O fundamental seria que Angola conseguisse reverter a actual espiral decrescente das receitas ao nível da indústria petrolífera com uma gestão e liderança que dê respostas aos desafios que existem. Seria agora, como é há 40 anos. Mas todos nós sabemos, por amarga experiência própria, como é que a história acaba.

Era bom que boa parte das intervenções tivesse em atenção este aspecto, a necessidade urgente de transformação da empresa pública num instrumento eficiente e rentável, devidamente modernizado e competitivo. Era. Não é. E não é porque o filho do jacaré nunca terá asas mesmo que cresça numa gaiola rodeado por galinhas do mato.

Atendendo aos desafios que o sector petrolífero enfrenta, por via da baixa da procura do crude e redução significativa dos preços em todo o mundo, não havia dúvida para ninguém quanto à urgência de reformas. Tal como ninguém duvida que quando as galinhas desaparecem do galinheiro, a solução não é colocar raposas lá dentro.

Os modelos de gestão dos tempos modernos visam, em qualquer parte do mundo a maximização dos lucros, a redução de custos, direccionar a atenção ao “core business” da empresa, entre outras metas. Na verdade, é também isto que está em causa relativamente à Sonangol e nesta altura em que urge recolocá-la como líder e verdadeiro pilar da economia nacional. Mas poderá um maneta ser jogador de basquetebol?

Afinal, o mercado mundial, regional e o interno impõem exigências que devem ser encaradas de frente tendo em atenção os objectivos no incremento da eficiência, na redução de custos e no aumento dos lucros. Se tal fosse feito com lisura e probidade, quem sairia a ganhar seria Angola. Assim, quem vai ganhar – tal como acontece desde 1979, ano em que o monarca assaltou o país – é o clã de sua majestade o rei.

Se por um lado são saudáveis as opiniões convergentes e divergentes sobre a nomeação da princesa herdeira Isabel dos Santos, que confirmam que ainda há idealistas que acreditam no Pai Natal, por outro tais observações críticas escapam do que se afigura como fundamental neste momento: preservar a monarquia aumentando o número de escravos.

O essencial neste momento é a busca de soluções, com “pessoas certas para os lugares certos”, com tarefas precedidas de diagnósticos exaustivos sobre o estado do sector dos petróleos e da Sonangol em particular, bem como metas bem traçadas.

“Há objectivos claros e que estão bem definidos e que têm que ver com o aumento da eficiência no sector dos petróleos, permitindo que haja uma melhor utilização dos recursos em exploração e também um melhoramento da previsibilidade dos fluxos financeiros”, disse a princesa herdeira, recuperando de forma primária e quase artesanal as mais elementares regras de uma qualquer chafarica.

Dizem os bobos da corte que houve um amplo trabalho de diagnóstico por parte da equipa nomeada para o trabalho de reestruturação da Sonangol, que contou com a participação de prestigiados escritórios de consultores. Não há dúvida de que foram devidamente avaliadas as forças, as fraquezas, as ameaças e oportunidades para transformar a Sonangol numa ainda mais moderna off-shore privada de José Eduardo dos Santos.

Como sabemos, e fruto da actual crise financeira e económica, os custos de produção do crude passaram a ser incomportáveis para o país e a necessidade de reestruturação do sector petrolífero e da principal concessionária. Tratou-se de algo previsível há décadas mas que, ao longo dos últimos 40 anos, nunca as excelsas mentes do regime conseguiram enxergar.

As forças e oportunidades da petrolífera do regime são por demais conhecidas, razão pela qual faz todo o sentido uma avaliação das actuais ameaças ou desafios para o estabelecimento de um modelo mais eficiente para a empresa e para o sector petrolífero em geral. Tudo quanto se sabe que o regime quer é que da parte da Sonangol, sob a presidência da princesa herdeira, é que as metas e objectivos a que se propõem contribuam decisivamente para aumentar a eficiência e as margens de lucro da monarquia, possibilitando a sua eternização no poder.

Do ponto de vista de sua majestade o rei, é certo que a actual equipa da Sonangol vai atingir os resultados que pretende, numa altura em que urge harmonizar o sector do petróleo, e da Sonangol em particular, à actual conjuntura interna e internacional, sem beliscar as multimilionárias mordomias do clã.

Pela frente está o trabalho que a actual equipa vai fazer tendo em conta a necessidade de salvaguardar a operacionalidade da empresa e o papel da indústria petrolífera, sempre a bem do regime. Nesta conjuntura, é factual a ideia de que não era sustentável o actual estado em que se encontrava o sector de uma maneira geral. Como se sabe, o actual processo que tenciona tornar robusta a petrolífera do regime só peca por tardia…

*Folha 8

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