terça-feira, 24 de janeiro de 2017

UMA LONGA LUTA EM ÁFRICA IV - A MOBILIZAÇÃO E A DESMOBILIZAÇÃO DOS CAMPONESES

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7 – A luta de libertação em África assumiu a contradição antagónica em relação ao império, envolta num conjunto alargado de alianças com a revolução cubana na América Latina e com o apoio de outros países Não Linhados (como por exemplo a Jugoslávia) e Socialistas (como por exemplo a URSS, ou Alemanha do Leste).

Nem mesmo a cisão no campo socialista, que atingiu em cheio os relacionamentos da URSS com a República Popular da China, esmoreceu a intensidade das alianças progressistas a partir da linha Dar es Salam – Brazzaville, “inaugurada” com a vinda do Che para o Congo (a oeste do Lago Tanganika).

Isso aconteceu historicamente por que a sustentabilidade de sua prática só podia ser exequível assumindo não só uma posição anticolonialista, (tendo em conta que a potência colonial era uma potência vassala do império por via da NATO e do sistema económico e financeiro global, uma potência que foi instrumentalizada e teve expressão invulgar no terreno), mas por via dela, uma posição também inequivocamente anti-imperialista, até por causa das envolvências da inteligência elitista que havia de enfrentar, enfrentando ao mesmo tempo as geoestratégias decorrentes da descolonização sob permissibilidade e controlo que estava em curso em África, particularmente ao longo das décadas de 50, 60 e 70 do século passado.

Como África era e é um continente periférico (senão mesmo ultraperiférico conforme os Índices de Desenvolvimento Humano publicados anualmente pela ONU), no terreno da luta os braços armados das organizações que compunham o movimento de libertação teriam de recorrer à mobilização dos camponeses, no caso angolano disputando espaço vital aos etno-nacionalismos, eles mesmo reféns dos expedientes de agenciamento e vassalagem decorrentes do império e susceptíveis à manobra fascista, colonial e neocolonial.

Nessas décadas África assistiu por exemplo, ao que foi fomentado pelo colonialismo francês (Argélia), ao que foi fomentado pelo colonialismo português (sobretudo na Guiné Bissau, em Angola e em Moçambique), assim como ao que foi fomentado pela instrumentalização do “apartheid” na África Austral e sua constelação de “bantustões” e apêndices “híbridos”, como a Rodésia do regime de Ian Smith, ou o Sudoeste Africano ocupado (Namíbia), ou ainda os processos de contenção “flexível” tal e qual o protagonizado pelos vários agentes da “guerra de fronteiras” em Angola.

Os camponeses africanos, a classe mais oprimida, mais desfavorecida senão mesmo marginalizada da ultraperiferia, eram (e ainda são) uma parte substancial da antítese cultural humana em relação aos 1% que inscrevem seu poder dominante no quadro da globalização fomentada pelo império no seguimento da IIª Guerra Mundial, ou seja, as questões antropológicas definidoras dos estatutos de uns (1%) e de outros (camponeses africanos), inscrevem-se diametralmente opostos na dialética do processo imperialista de globalização neoliberal e, enquanto no domínio as culturas eminentemente anglo-saxónicas são um recurso avassalador e permanentemente enriquecido por novas “revoluções tecnológicas”, novas filosofias, teorias e ideologias de recurso, bem como de novas práticas indexadas a elas (num quadro cada vez mais refinado de inteligência elitista, mas também propulsor de desequilíbrios de toda a ordem, de caos e de terrorismo), os camponeses africanos constituem ainda hoje uma frente cultural de resistência, inscrita no carácter da ultraperiferia e por isso também um dos alvos preferenciais das pressões e jogos operativos neocolonialistas e imperialistas, conforme o que se constatou com a história do MPLA na sua luta até se alcançar a independência.

A exploração do tribalismo, do divisionismo e do regionalismo foi feita em momentos decisivos, como por exemplo em 1961, quando as autoridades coloniais recorreram aos “fiéis bailundos” para com eles melhor poderem fazer frente aos sangrentos levantamentos em curso, que davam sequência aos levantamentos da Baixa do Cassange.

As vulnerabilidades geoestratégicas do MPLA, que necessitava como todos os agrupamentos, duma retaguarda que pudesse catapultar o seu esforço de penetração da guerrilha para dentro de Angola, à procura de espaço vital de implantação interior, recorrendo tanto quanto o possível às linhas de penetração conformes ao sistema hidrográfico do país, inscreveram-se no quadro das imensas dificuldades e obstáculos que havia a vencer na luta contra o colonialismo e por isso o papel da mobilização dos camponeses era uma questão crucial, até para suplantar e vencer os obstáculos quer da ementa colonialista de “luta contra subversão”, quer os decorrentes da expressão dos etno-nacionalismos agenciados e integrados pela internacional fascista.

A doutrina materialista dialética que “armava” a inteligência e a acção do movimento de libertação em África, teria de mobilizar, para além da vontade indexada à superestrutura doutrinária e ideológica (quadro de direcção), os processos antropológicos dos camponeses que iriam compor suas fileiras e integrá-los nos processos de luta, um esforço ingente sem o qual seria impossível enfrentar na prática a internacional fascista e os seus imensos recursos formatados a partir da fermentação dos interesses expansionistas e crescentemente globalizantes do próprio império, digestivo dum notável cortejo de vassalos sobretudo na África Austral...

Quer particularmente na Iª Região Político-Militar, quer nas IIIª e IVª Regiões Político-Militares, a mobilização dos camponeses angolanos por parte do MPLA, haveria de reinterpretar a capacidade de resistência dos camponeses, integrando os processos culturais afins, em todos os momentos, factores e aspectos práticos de luta.

Essa integração foi muito importante para as questões de logística, para as questões de movimento e defesa, para as questões que se prendiam ao esforço de aprendizagem e ensino em plena campanha, como foi também muito importante para as questões de geo-estratégia, incluindo ara melhor se detectarem os inevitáveis processos de ruptura por implicação de agenciamento a partir dos enormes recursos da inteligência elitista ao dispor da internacional fascista.

Dessa época há que lembrar por exemplo, os sistemas de defesa periférica das bases (desenho dos circuitos de sentinelas, uso de fossos utilizados na caça, comunicação de alertas), até ao uso de vestuário feito a partir de cascas de árvores, ou à exploração de minas de sal perdidas nas matas e savanas, ou à pesca em pequenos cursos de água (com recurso à construção de pequenos açudes e cestos para a captura de peixe, tudo isso a fim de vencer o isolamento prolongado como ocorria na Iª Região Político-Militar, a que foi mais sujeita à pressão da malha de ocupação militar colonialista, bem como das suas intervenções militares e de inteligência, desde 1961 até ao 25 de Abril de 1974.

Foi assim, nesse quadro, que ocorreram aos maiores esforços de infiltração por parte da PIDE/DGS para dentro da Iª Região Político Militar, a partir de centrais operativas situadas em Caxito, em Quibaxe e em Catete, que se conectavam no terreno a:

Processos inteligentes integrados nas unidades de quadrícula das Forças Armadas Portuguesas, OPVDCA, (Organização Provincial de Voluntários e Defesa Civil de Angola) e Guardas Rurais, com a instrumentalização dos Serviços de Informação Militar e a formação de apêndices como os Grupos Especiais, as Tropas Especiais e até uma “vanguarda”, a Vanguarda Salazar;

Processos inteligentes por via da malha político-administrativa com vista ao controlo das comunidades (que levou à formação dos “SCCIA”, Serviços de Centralização e Coordenação de Informação de Angola);

Agenciamento de fazendeiros e comerciantes, de modo a, entre outras medidas, expandir as linhas de ocupação defensiva (defesas e fortins instalados nas fazendas) e ofensiva, na direcção das bases da guerrilha;

Agenciamento de capacidades humanas obtidas a partir da guerrilha, em processos decorrentes de sua decomposição, vulnerabilidade, fragilização, ou isolamento.

Inteligência em países circundantes a Angola, como no Zaíre sob o regime de Mobutu, ou na Zâmbia no quadro das ambiguidades de Kenneth Kaunda, infiltrados pela Aginter Press e pelas componentes do expediente secreto Albacora, reagrupando as iniciativas da internacional fascista numa linha entre Luanda e Maputo, que passava por Kinshasa, por Lusaka, por Salisbúria (Harare) e pela capital económica do Malawi, Blantyre.

Desse modo as autoridades coloniais portuguesas, com suas políticas de “luta contra subversão”utilizando expedientes de “Acção Psicológica”, conseguiram alguns êxitos na penetração rural da Iª Região Político Militar isolada e enfraquecida, com a projecção de agentes e a passagem massiva das mensagens afins.

Alguns desses agentes indiciaram por suas trajectórias, ter vindo a tomar parte da composição humana da tentativa de golpe de estado do 27 de Maio de 1977 já depois da independência, evidenciando desse modo geoestratégias tão bem definidas para os seus papeis, que propiciaram acção contra a linha dirigente do MPLA após a independência, quando na Conferência de Lusaka haviam assumido, contraditória e propositadamente, o reforço da linha progressista do Presidente Agostinho Neto face à cisão da fracção sob as ordens de Daniel chipenda.

No leste, com a montagem de processos divisionistas e tribalistas a partir de circuitos de inteligência elitista na Zâmbia, Daniel Chipenda entre 1973 e 1975 viria a tirar partido de algumas franjas étnicas de guerrilheiros de origem camponesa no MPLA (e também na FNLA) para providenciar à internacional fascista o recurso à sua fracção, com efectivos que iriam ser aproveitados na formação do “Batalhão 32”, “Búfalo”, das South Africa Defence Forces, implicadas na “guerra de fronteiras”, enquanto os “Flechas”, sob as ordens do Inspector da PIDE/DGS de nome Óscar Piçarra Cardoso, viriam a ser aproveitadas para a formação do “Batalhão 31”…

Ambos os batalhões integraram os efectivos que foram utilizados na Operação Savanah e em muitas outras operações posteriores entre 1975 e 1992 pelo regime anacrónico do “apartheid”, em reforço dos etno-nacionalismos dispostos às projecções de “bantustões” na Namíbia e em Angola, conforme aos planos desesperados de resistência da internacional fascista na África Austral.

Da Conferência de Lusaka, onde a fracção de Daniel Chipenda, uma ruptura etno-nacionalista do MPLA, evidenciou sua perspectiva de agenciamento às inteligências elitistas da internacional fascista na África Austral, haveriam de emergir as Forças Armadas Populares de Libertação de Angola, FAPLA, que iriam escrever as páginas mais decisivas e heroicas da história contemporânea de Angola, na luta contra o colonialismo, o “apartheid” e algumas das suas sequelas.

O grosso da mobilização das FAPLA recorreria à classe camponesa, tendo em conta a natureza e a amplitude dos desafios.

Esse manancial humano propiciou vitórias expressivas sobre a internacional fascista e seus apoios internacionais, alguns dos quais implantados em Portugal, na decorrência do golpe de 25 de Novembro de 1975, distinguindo-se entre todos o recentemente falecido Mário Soares, perito em manobras típicas de hipocrisia, de cinismo, de ambiguidade e de mentira, em conformidade aliás com os jogos das potências ocidentais e da NATO nos seus relacionamentos arrogantes face ao resto do mundo.


8 – As gloriosas FAPLA eram uma afirmação inequívoca de luta que mobilizou, conjuntamente com a Organização de Defesa Popular (ODP), milhões de angolanos, recorrendo à arma geo-estratégica, doutrinária, filosófica e ideológica do materialismo dialético, contra a qual, expediente algum dos conceitos estruturalistas da “luta contra subversão” poderia fazer frente.

O Presidente António Agostinho Neto lembrava a propósito: “nós somos milhões e contra milhões ninguém combate”!

Foram esses milhões, uma importante fatia dos quais jovens camponeses oriundos de todas as regiões do país, que tornaram Angola num bastião inigualável na luta contra o “apartheid”, pois ainda segundo o Presidente António Agostinho Neto, “na Namíbia, no Zimbabwe e na África do Sul, está a continuação da nossa luta”…

Teria sido impossível derrotar o “apartheid” sem a decisão dos Presidentes António Agostinho Neto e José Eduardo dos Santos em função da afirmação socialista da República Popular de Angola e do quadro de alianças que reforçaram o país enquanto bastião decisivo na Linha da Frente, em particular a heroica aliança com Cuba e suas Forças Armadas Revolucionárias.

Foi também nesse ambiente de luta que foi forjada substantivamente a identidade nacional, na sequência do movimento de libertação em África alimentado pela arma materialista dialética a que recorriam lucidamente as direcções das modernas guerrilhas que emergiam, ainda que em Angola fosse tão forte o agenciamento por parte dos múltiplos circuitos da inteligência elitista da internacional fascista em vassalagem ao império, de agrupamentos etno-nacionalistas que haveriam de ser a seu tempo derrotados, tal como de fracções que procuraram subverter o rumo do MPLA.

Foram precisas enormes transformações globais para que esse processo sofresse notáveis condicionantes, que se reflectiram desde logo no Acordo de Bicesse, em Maio de 1991.

O fim do Partido do Trabalho, as alterações na Segurança do Estado e o fim das gloriosas FAPLA que haviam saído vitoriosas dos campos de batalha, decorreram dum ambiente sócio-político internacional que impôs a “glasnost” neoliberal ao país, um processo que se prolonga até aos nossos dias, inviabilizando o carácter socialista do estado, revertendo-o para um carácter social-democrata inscrito numa economia capitalista e Bicesse foi a “pedra de toque” nesse sentido, em grande parte às custas do sentido histórico do movimento de libertação e dos revolucionários que deram o corpo ao manifesto nesse caminho!...

Introduzido o capitalismo neoliberal pela porta expedita de Bicesse, deu-se imediata garantia ao choque neoliberal que haveria de traumatizar Angola entre 1992 e 2002, “somalizando-a” e à terapia neoliberal em curso…

É claro que por tabela, são os substractos sociais camponeses que mais têm sofrido na sua carne com esse longo processo, apesar de ser impossível em paz qualquer veleidade de luta contra o subdesenvolvimento sem a sua mobilização, sem o seu concurso, sem a sua implicação, pois meta alguma de desenvolvimento sustentável, perseguindo trilhas geo-estratégicas de muito longo prazo, são exequíveis sem eles!

No quadro da terapia neoliberal, que se seguiu ao choque imposto a Angola entre 1992 e 2002, os ingredientes a partir do exterior passam pelo “soft power” português com vista a uma decorrente assimilação de processos que se foi refinando ao longo dos sucessivos governos post 25 de Novembro de 1975.

Esses processos integram correntes neoconservadoras (saudosistas do passado e ressabiados do colonialismo), como correntes inscritas em doutrinas que compõem os expedientes capitalistas neoliberais, que vão desde seguidores de Milton Friedman a Leo Strauss (doutrina do caos), ou a Gene Sharp conforme tenho vindo a evidenciar.

Uma parte das elites angolanas está “tocada” por esse “soft power”.

Esse processo de aparente relacionamento bilateral manifesta-se por um quadro de assimilações que tiram partido do facto de Angola se ter decidido a relações especiais com Portugal, de forma a suprir dificuldades com os quadros para a sua vida sócio-política, económica e financeira, algo à margem dos relacionamentos com as classes camponesas do país, uma parte delas ainda não suficientemente integrada nos modos de vida que paulatinamente se têm criado a partir de 2002.

A lógica com sentido de vida na sequência do rumo do movimento de libertação em África, só poderá ter evidência maior com a mobilização dos camponeses angolanos num quadro de paz, de consequente e abrangente diversificação da economia, duma geoestratégia a muito longo prazo respeitadora da relação humana com o espaço físico-geográfico e ambiental e num quadro de consistente e persistente identidade nacional, que assuma uma visão patriótica e “de esquerda”, algo que foge aos actuais parâmetros social-democratas filtrados pelo processo de terapia neoliberal, que procura ultrapassar os traumas pela pior das vias capitalistas: a que “promove” as portas escancaradas de Angola!

Com uma efectiva mobilização inteligente dos camponeses angolanos, será possível essa visão patriótica, progressista e enunciar sem rodeios para todos os angolanos: “Angola está em primeiro lugar”!

Fotos: 
1 - A direcção da COTONANG, uma empresa expoente da contínua opressão colonial dos camponeses angolanos, que levou à revolta da Baixa do Cassange;
2 - Mapa do sudeste angolano onde se travaram as maiores batalhas contra o colonialismo e o “apartheid”; recorde-se que a presença das South Africa Defences Forces ocorreu ali desde 1968 à assinatura do Acordo de Nova York, a 22 de Dezembro de 1988;
3- O acordo Alcora permitiu a exploração de serviços de inteligência da internacional fascista em toda a África austral, na tentativa de enfrentar a linha progressista implantada desde 1965, de Brazzaville a Dar es Salam;
4 - O encontro dos Açores num quadro típico de “vassalagem soft power” preparatório para a agressão dos Estados Unidos ao Iraque, Durão Barroso, uma das caras dos sucessivos governos portugueses decorrentes do 25 de Novembro de 1975, um dos artífices do Acordo de Bicesse, deixa uma vez mais cair a sua máscara enquanto agente do quadro de perspectivas geoestratégicas do choque e terapia neoliberal: ainda que com escalas distintas e variáveis espaciais e temporais a condizer, o início do choque no Iraque, como em Angola, teve até alguns dos mesmos personagens.

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