segunda-feira, 3 de julho de 2017

Portugal | O ESTADO A QUE CHEGÁMOS

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Afonso Camões* | Jornal de Notícias | opinião

Entre a tragédia de Pedrógão e o assalto ao paiol de Tancos há um traço comum: um e outro revelam um Estado precário, por vezes ausente. Acontece que o Estado também somos nós e as escolhas que fazemos.

Da Base de Tancos, junto a Almourol, sabe-se que desapareceram explosivos, dezenas de lança-granadas e milhares de munições. Tudo material de guerra cuja utilização e guarda confiamos às Forças Armadas, agora em mãos criminosas. "É grave!", reconhece o próprio ministro da Defesa. Enquanto a investigação não esclarecer melhor como foi possível, sabemos apenas que a videovigilância está avariada há dois anos e que a vedação estava em mau estado. Talvez se houvesse mais sentinelas...

Tal como diante do fogo, o argumento da falta de meios e recursos é teimoso e recorrente. Muitos dos que hoje reclamam são os mesmos que ontem apontavam o dedo à dimensão excessiva do Estado, fazendo pressão para a diminuição do emprego público. Esse efeito, que as políticas de austeridade acentuaram em diferentes áreas da nossa relação com o Estado, vai-se destapando e revela, em muitos casos, a degradação das condições de exercício das suas funções. Pior no interior do país, que as políticas de várias décadas têm votado ao abandono. Somos hoje mais exigentes com a segurança e mais intolerantes ao risco, mais exigentes com os serviços que nos são prestados pelo Estado e mais intolerantes com os erros, falhas e omissões. Mas também é verdade que se hoje exigimos que se cumpra e faça cumprir a lei (e temos leis para quase tudo), ainda ontem fechávamos os olhos aos mais variados incumprimentos, desde os arraiais de fogo de artifício, à manutenção dos perímetros de segurança, nas estradas e povoações. Além de que nem sempre estamos disponíveis para compreender e aprovar os investimentos necessários à prevenção dos riscos e à defesa da qualidade dos serviços públicos.

É claro que a tragédia de Pedrógão e municípios vizinhos tem uma dimensão humana irreparável. Mas não podemos continuar a acordar para o pesadelo como se fosse a primeira vez. Sobre as cinzas de cada ano ainda vinga a visão de curto prazo e prospera a economia do fogo, que prefere pagar mais (cinco vezes mais) em meios de combate do que investir na defesa. Ora, em vez da algazarra e da recriminação, o consenso político deveria passar por aqui e com urgência: elevar a prevenção ao posto de comando e assumir que o primeiro corta-fogo está nas políticas e em quem as lidera.

*Diretor

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