segunda-feira, 3 de julho de 2017

SÉCULOS DE SOLIDÃO – II

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Martinho Júnior | Luanda 

Aproxima-se a data do lançamento do terceiro livro em que comparticipo, desta feita com Leopoldo Baio, que foi o Director do desaparecido semanário “ACTUAL”.

O livro “Angola – Séculos de solidão – do colonialismo à democracia – cronologia histórica baseada numa pesquisa analítica” vai ser lançado em Angola pela Editora LeArtes, com uma tiragem de 1000 exemplares, com produção duma gráfica de Luanda e em resultado de alguns financiamentos locais.

Foi graças ao esforço e à tenacidade de Leopoldo Baio que o livro dá à estampa.

O livro enquadra-se, em época eleitoral, na necessidade de reforçar as linhas progressistas do MPLA, tendo em conta muitas lições que nos acodem não só do seu passado de luta, mas também e inclusive da contemporaneidade.

Tenho vindo a aprofundar, à medida que o tempo vai passando, as linhas de abordagem e análise, de forma a contribuir para que se possa avançar no conhecimento sobre muita coisa que deve preocupar os patriotas angolanos e a sua vocação dirigida ao futuro.

As séries, que ainda estão em curso, relativas aos temas “UMA LONGA LUTA EM ÁFRICA” e “PORTUGAL À SOMBRA DE AMBIGUIDADES AINDA NÃO ULTRAPASSADAS” comprovam e servem de exemplo enquanto esse esforço.

Os temas são inesgotáveis e implicam no reforço das linhas progressistas do MPLA, jamais esquecendo que “o mais importante é resolver os problemas do povo”.

Aqui segue mais um tema que consta no livro que vai ser apresentado em breve.

A DERROTA DE MOBUTU EM CABINDA

O ano de 1975 foi decisivo para a independência de Angola, que face à decisão de Henry Kissinger e da administração Ford, só tinha uma solução: fazer militarmente frente em todo o espaço nacional à tentativa de tomada do poder por parte daqueles que representavam o jogo da estratégia neocolonial em Angola e em África, no seguimento aliás das iniciativas que haviam antes tomado com o colonialismo português.

A FNLA, as FLECs e a UNITA, cada qual com sua institucionalizada conjuntura etno-nacionamista, comportaram-se na altura como dóceis instrumentos disponíveis aos interesses norte americanos, obedientes ao seu “diktat” militar e por isso granjearam todo o tipo de apoios dos regimes ditatoriais que controlavam estados como o Zaire e a África do Sul.

A África do Sul não possuía fronteiras com Angola, mas o regime do “apartheid” utilizava a Namíbia ocupada, por eles denominada de Sudoeste Africano, para intervir e procurar impor seus próprios interesses coligados ao ocidente e a Israel, no eixo dos interesses em África do “lobby” dos minerais, (que nos Estados Unidos são um dos suportes históricos dos Democratas).

Angola que tanto carecia de unidade em torno do MPLA, sofreu a invasão pelo sul, pelo norte e Cabinda não podia ser excepção, tendo em conta o carácter de rapina da ditadura de Mobutu e o seu enlace com os interesses integrados nos Estados Unidos e nos peões que constituíam a França e a Bélgica, enquanto antigas potências coloniais com interesses neocoloniais na região.

As “South Africa Defence Forces” e as “Forces Armées Zairoises” constituíram em ambos os casos a coluna vertebral do esforço de guerra em suporte da UNITA (“SADF”) e da FNLA e FLECs (“FAZ”), reforçando-se com a CIA, com os mercenários e com os portugueses que na sequência da colonização pretendiam neocolonialismo para Angola (FRA, ESINA e ELP).

O “US C4 cargo ship American Champion BT 1963”, um navio norte-americano com capacidade de transporte de material de guerra (explosivos inclusive), transportou até Matadi o arsenal que havia de servir os interesses de Mobutu tanto em direcção a Luanda (em suporte de Holden e da FNLA), como em direcção de Cabinda (em suporte de NZita Tiago e da “ala” FLEC suportada por Mobutu).

A CIA nessa época, financiou ainda mercenários franceses que se dispuseram na artificiosa articulação que tinha a FLEC “zairense” como bandeira, o que evidenciava a oportunidade de, no seguimento dos interesses coloniais, Mobutu atiçar os interesses neocoloniais com quem ele tão bem se identificava.

Se em direcção à capital os invasores sofreram derrotas em Quifangondo e no Ebo, pondo fim à tentativa de tomada de poder em Luanda, a derrota de Cabinda não foi de menor importância, pois estavam em jogo recursos naturais decisivos e a FLEC, tendo NZita Tiago à cabeça, funcionou como o instrumento das pretensões do regime de Mobutu instigado por sua vez pelos norte-americanos sob os auspícios da administração Ford e de Henry Kissinger.

Nessa altura os interesses da multinacional que tutelava a “Cabinda Gulf Oil Company”, ao contrário dos interesses da ELF francesa, distanciou-se da agressão militar e manteve, no quadro do “lobby” da energia e do armamento enquanto tradicional suporte dos Republicanos, uma posição de relativa distância em relação ao duo Ford – Henry Kissinger.

Ficou a nu o carácter da “multifacetada” FLEC: incapazes de alianças com o campo progressista numa altura em que elas eram tão evidentes, as “tendências” sempre foram um cadinho de interesses neocoloniais que correspondiam a forças externas prontas a desintegrar Angola, ávidas de se apossarem do petróleo do noroeste angolano e que enquanto existirem não vão deixar de manipular.

Os colonialistas portugueses haviam valorizado esse tipo de aptidões e utilizaram a seu tempo o seu poder e o seu empenho inteligente: às FLECs foram buscar Alexandre Tati e com ele formaram os “pseudo terroristas” e as “tropas especiais” que procuravam combater e infiltrar aqueles que estavam dispostos para a luta, particularmente os que integravam as fileiras do MPLA, que aliás mantinham actividade na parte nordeste da sua 2ª Região Militar, em pleno Maiombe.

As FLECs em 1975 reflectiam precisamente esse quadro, que favorecia as pretensões conjugadas particularmente de Henry Kissinger, de Mobutu e até de António Spínola (em conformidade com o“encontro do Sal”).

Se havia interesses nos Congos e com eles da França, assim como da CIA, a favor da desagregação de Cabinda de Angola, a ponto de conduzir as dóceis FLECs para a órbita de seus interesses próprios através da agressão a partir do território zairense, não havia razão alguma para a perspectiva progressista e para o MPLA, em não assumir a defesa da integridade de todo o território angolano.

As “evocações históricas” relativas ao Tratado de Simulambuco eram (e são) um dos argumentos de propaganda de sustentação das FLECs, que remetia (e remete) para um singular acordo colonial que corroborava os postulados da Conferência de Berlim, sem qualquer audição e respeito para com os interesses africanos que não existiam perante os apetites coloniais.

Em Simulambuco como em Berlim fez-se tábua rasa, por exemplo, da existência histórica do Reino do Congo, que abarcava uma vasta região que ia a sul desde as actuais Províncias do Zaire e do Uíge em Angola, integrava o Bas Congo, Cabinda e a região costeira da República do Congo e terminava a norte na parte sudoeste do Gabão.

Quantas vezes não haviam os portugueses reconhecido, negociado e se relacionado com o Reino do Congo?...

…E não era Mbanza Congo, capital da que é hoje província angolana do Zaire, a capital desse reino?

O colonialismo foi dividindo e confundindo sempre para melhor reinar e esse facto é mais evidente quando surgem situações como Cabinda e os Grandes Lagos, por exemplo.

O neocolonialismo sempre que pode e de acordo com interesses, conveniências e conjunturas, segue os mesmos critérios e o Congo, que é decisivo para África, quando está em jogo disputas sobre as riquezas, tem sido terreno pródigo de todo o tipo de manipulações.

Para Angola garantir todo o seu espaço nacional era o objectivo na perspectiva das definições de soberania interpretada e estabelecida pelo MPLA, que nunca escondeu o seu “de Cabinda ao Cunene e do mar ao leste”, pelo que Cabinda havia sido um elemento importante na fermentação do esforço guerrilheiro.

Em Cabinda e muito antes do 25 de Abril de 1974, estiveram também a combater pela libertação de Angola alguns combatentes da “coluna Patrice Lumumba” das Forças Armadas Revolucionárias de Cuba, entre eles o General Rafael Moracén, “Quitafusil”.

Em Cabinda, mais propriamente na área do Tchizo, morreu em combate o Comandante Gika, Gilberto Teixeira da Silva, Comissário Político do Estado-Maior das FAPLA, um herói da independência de Angola, lembrado pelo actual Governador que foi um dos combatentes que viveu o “laboratório” da IIª Região do MPLA.

O Tchizo tem sido um local votado ao abandono e só agora começaram as preocupações com sua reabilitação.

Uma pesquisa na Internet via Google, é óptimo para fazer o contraste entre aquela época gloriosa para o movimento de libertação em África e aqueles que segundo a lógica capitalista até do nome se apropriam para seus empreendimentos multimilionários, os seus negócios, o seu exacerbado egoísmo produtor de desequilíbrios e de injustiças sociais que vão crescendo em ordem geométrica: quantos links não estão vinculados ao “empreendimento Gika” opções de determinados membros das “novas elites” angolanas e de seus “parceiros” internacionais?

Nenhum desses links, por si sós denunciadores dos interesses dos oportunistas contemporâneos aliados aos interesses que chegam do exterior (alguns deles conhecidos pelas suas opções em tempo contra a própria independência de Angola) se referem ao homem, ao revolucionário, ao herói que foi e é (para aqueles que têm memória e sabem respeitar a dádiva dos melhores filhos de Angola) o Comandante Gika, nem sequer se referem ao facto das construções estarem a ser erigidas em terrenos que antes pertenceram ao estado angolano, onde existia a Escola (militar) Comandante Gika!...

Os “empreendimentos Gika” são de facto uma subversão à personalidade e ao carácter revolucionário do Comandante Gika, um visionário com sentido de vida que foi um exemplo de patriota, capaz do sacrifício supremo, como a maior das dádivas que se dispôs a oferecer ao povo angolano!

… Era plano do Presidente Agostinho Neto transformar essas instalações e esses espaços em escolas, talvez mesmo universidades…

…A presença cubana em Cabinda em 1975 e em missão internacionalista em interligação com o MPLA era a sequência lógica duma aliança que já tinha 10 anos e que fora lançada em Brazzaville a 2 de Janeiro de 1965 pelo Presidente Agostinho Neto e pelo Che.

Muitos angolanos naturais de Cabinda integraram desde sempre as fileiras do MPLA, foram guerrilheiros e dirigentes, são dirigentes, deram e dão valor ao facto de no MPLA ser constante a luta contra o tribalismo e o racismo, mesmo que em tal difícil processo hajam avanços, recuos, certezas e incertezas.

As ideologias que professaram nada tinham a ver com os “conceitos” de Berlim, nem de Simulambuco, nem com os conceitos postos em prática por etno nacionalismos que faziam o “jogo” dos interesses conotados com o império…

O MPLA quando foi expulso de Kinshasa, sofreu na carne de muitos dos seus filhos as injustiças do regime de Mobutu… muitos perderam nessa altura as suas vidas…

Há 40 anos por Angola morreu o Comandante Rafael Zembo Faty, “Veneno” patriota natural de Cabinda, que comandava a coluna que a partir do leste procurava atingir a 1ª Região, o herói das colunas Ferraz Bomboko – Benedito.

Para o MPLA foi sempre assim: mesmo hoje em que a lógica capitalista está aí instalada a coberto da“democracia representativa” mantém a necessidade de luta por uma identidade nacional forte, capaz de vencer tribalismos e racismos – para lá da ideologia, essa evocação constante foi garantida através do sangue, do suor, das lágrimas, da unidade fomentada pela solidariedade, por muitos dos seus militantes anos a fio, mesmo que muitos deles não se identifiquem hoje com o carácter do poder contemporâneo em Luanda que cada vez mais se parece ir assemelhando ao carácter do regime apodrecido de Mobutu!

Savimbi quis contrapor o interior ao litoral, o autóctone ao crioulo, mas essa cópia de mau agoiro da“autenticité”, não demoveu a vontade do povo angolano.

Sobre as cinzas coloniais de Berlim e de Simulambuco aqueles que se empenham nesse esforço comum não se deixam confundir e sabem que a grande batalha de integração ainda não terminou, por que agora o capitalismo estabelece o “apartheid” social que constitui parte da sua génese e manipulação em Angola.

Angolanos, congoleses (a República do Congo com Marien NGouabi prestou todo o apoio ao MPLA e às FAR) e cubanos que seguiram as pisadas do Che e de Agostinho Neto em África, valorizaram também em Cabinda e na ocasião de 11 de Novembro o triunfo do mundo progressista e do internacionalismo e essa é a maior riqueza que ainda hoje para muitos antigos combatentes, patriotas e internacionalistas se preserva, independentemente de quem está pronto para os negócios, ou para os “jogos africanos” à imagem e semelhança do que fizeram com e a partir de Bicesse, ou de Gbadolite, ou de Lusaka!

Felizmente há quem ainda se não atraiçoe, por que sendo perseverantes na sua própria memória, continuam a saber interpretar com fidelidade, face à barbárie e ao caos, o sentido ético da vida!

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