segunda-feira, 14 de maio de 2018

Washington expõe estratégia de domínio mundial

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A integração de uma guerra contra o Irão no processo cada vez mais evidente de criação de «um novo Médio Oriente» implica uma reactualização do tipo de intervenção imperial na Síria.

José Goulão | AbrilAbril | opinião

Aos cabos de guerra não se pedem metáforas nem se exige diplomacia; falam pouco e, quando o fazem, disparam palavras cruas e directas com alvos escolhidos e objectivos afinados consoante a estratégia mais actual, os quais ultrapassam, em muito, a necessidade canónica de manter despertos os instintos exterminadores das hostes sob o seu comando.

Por isso, quando figuras como o almirante John M. Richardson, chefe de operações navais do Pentágono, e o general norte-americano Curtis Scaparrotti, comandante das forças aliadas na Europa, dizem de sua justiça é aconselhável ouvi-los, obrigatório entendê-los. E estampar as suas sentenças como legendas dos movimentos militares que vierem a desencadear.

Para acolher e divulgar as mais recentes mensagens do almirante Richardson foi escolhida a BBC, um pilar da mundialização anglo-saxónica, fenómeno mais simploriamente conhecido como «globalização». Tecnicamente qualificada como «entrevista», a performance do chefe de operações navais do Pentágono não passou de um discurso que, para ser mais eficaz, foi formatado com a ajuda de um profissional da estação para introduzir as variações temáticas e retirar-lhe os vícios monocórdicos.

De uma penada, o almirante John M. Richardson revelou que os Estados Unidos renovaram a estratégia militar e, em consequência, adoptaram medidas que elevam os patamares de disponibilidade e de presença territorial dos seus corpos expedicionários de âmbito mundial.

«A nossa estratégia de defesa nacional», anunciou o chefe de operações navais do Pentágono, «torna claro que estamos de regresso a uma era de competição entre grandes potências, na qual o ambiente de segurança se torna cada vez mais desafiador e complexo».

Existe pois, segundo o almirante Richardson, «uma reorientação das forças armadas norte-americanas perante um mundo de renovada competição entre grandes potências e distante das campanhas de contra-insurgência que têm sido desencadeadas nas últimas décadas».

Em primeira leitura deduz-se que o Pentágono retoma um dispositivo de tipo «guerra fria», tendencialmente mais «quente» do que esta, tendo em conta a proliferação de conflitos activos, e deixa para segundo plano o sistema de agressões isoladas – embora estrategicamente convergentes – provavelmente por não ter conseguido alcançar uma única vitória nessas guerras que deveriam ter sido resolvidas em meia dúzia de dias, segundo as profecias oficiais.

A maior prioridade, definiu o almirante, «é combater a Rússia». Não sendo novidade, tendo em conta as movimentações no terreno e os objectivos subjacentes a numerosas operações militares e políticas que se sucedem em cadeia, é a primeira vez que um alto responsável norte-americano nomeia a Federação Russa como o inimigo num contexto militar de nova guerra fria.

Em função da prioridade definida, prosseguiu o almirante Richardson, «estamos a reactivar a Segunda Esquadra para responder a esses desafios, principalmente no Atlântico Norte». Teoricamente desactivada em 2011, a ressuscitada esquadra terá jurisdição sobre navios, meios aéreos e forças terrestres numa área entre o Pólo Norte e o Mar das Caraíbas, entre a costa leste dos Estados Unidos e a zona central do Atlântico, uma área cuja dimensão o chefe militar avaliou em 17,5 milhões de quilómetros quadrados.

Conjuguemos agora os anúncios do chefe de operações navais do Pentágono com as considerações político-militares tecidas pelo general norte-americano Curtis Scaparrotti, o qual, como comandante das forças aliadas em território europeu é, de facto, o chefe operacional do mega-exército resultante da unificação de quase todas as tropas da Europa e, por inerência, da União Europeia.

Nessa qualidade, e com a maior naturalidade colonial, Scaparrotti dissertou perante o Congresso dos Estados Unidos sobre as contingências impondo uma renovação da estratégia militar de Washington e aliados, designadamente na Europa.

«A Rússia lançou uma campanha de desestabilização para alterar a ordem internacional, confundir a NATO e minar a liderança dos Estados Unidos no mundo inteiro», proclamou.

Como exemplos deste inadmissível desafio de Moscovo a um status quo segundo o qual o mundo é um território norte-americano, o general citou a «anexação ilegal da Crimeia» e a «desestabilização na Ucrânia Oriental» – por sinal situações que decorrem do golpe fascista dado em Kiev sob direcção operacional de Washington e o patrocínio político da União Europeia.

O general Scaparrotti explicou ainda aos congressistas que a reorientação da estratégia militar deve ser acompanhada por um «combate à desinformação russa», da responsabilidade dos Estados Unidos, em parceria com a NATO, de maneira a assegurar «uma informação verídica e transparente».

Da qual podem ser exemplos – ainda que não citados pelo cabo de guerra – os casos em torno da suposta tentativa de assassínio do espião Skripal e filha, além dos episódios com armas químicas na Síria, tanto as que não foram usadas em Duma como as que não existiam em alvos atingidos pelos mísseis da tripla aliança Trump-Macron-May, no passado dia 14 de Abril.

Acontecimentos relatados com uma veracidade e uma transparência tão inquestionáveis como «a liderança dos Estados Unidos no mundo inteiro».

Que sucede, entretanto, enquanto ecoam as palavras do almirante Richardson e do general Scaparrotti, por definição homens de poucas falas e muito mais acção?

Iniciou-se a ressurreição da Segunda Esquadra norte-americana, gigantesco corpo da NATO com quartel-general em Norfolk, na Virgínia. Quando foi teoricamente extinta, em 2011, a monumental esquadra era constituída por 120 navios de guerra, 4500 aviões e 90 mil efectivos.

Enquanto isso, nos últimos dias de Abril os ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO, entre eles o inefável dr. Azeredo Lopes, declararam-se de acordo em agregar mais quatro países à pacífica aliança: Bósnia-Herzegovina, FYROM (Macedónia), Geórgia e a Ucrânia, onde os grupos de assalto nazis pontificam à cabeça das organizações militares nacionais.

Ao Mediterrâneo, com as miras focadas na Síria mas para «combater a influência russa», chegou o poderosíssimo grupo de combate imperial comandado pelo super porta-aviões Harry S. Truman, nave com mais de 300 metros de comprimento movida por dois reactores nucleares e que pode lançar vagas sucessivas de mais de uma centena de caças e helicópteros militares.

Acompanham-no uma imponente frota pronta a disparar mais de mil mísseis de cruzeiro: o cruzador Normandy, os contratorpedeiros Arleigh, Burke, Bulkeley, Forrest Sherman, Farragut, Jason Dunham, The Sullivans e a fragata alemã Hessen.

O grupo junta-se a quatro contratorpedeiros e a numerosos submarinos de países da NATO já presentes na região. Sobre os objectivos reais, que não os proclamados, desta presença recorda-se que, desde 1991, as forças armadas norte-americanas dispararam 2250 mísseis de cruzeiro durante guerras em vários continentes provocadas pelos Estados Unidos e com envolvimento da NATO: Jugoslávia, Bósnia Herzegovina, Sudão, Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria – incluindo já os 103 lançados em 14 de Abril último.

Como sabem os que estão familiarizados com o mantra propagandístico da Aliança Atlântica, a tal informação «verídica e transparente» que tanto motiva senhores da guerra como o almirante Richardson e o general Scaparrotti, os grupos de combate dispondo de incalculável potencial de extermínio movem-se pelo mundo com um arreigado intuito «defensivo» e um tenaz apego à «segurança nacional» não se sabe bem de quem; porém, ameaçada cobardemente pelas populações civis de cidades como Alepo, Damasco, Homs, Bagdade, Mossul, Kirkuk, Tripoli, Beirute, Cabul, Falluja, Hebron, Gaza, Belém e tantas outras de uma lista infindável de antros incapazes de compreender a liberdade, a civilização, a democracia e os direitos humanos levados pacificamente até eles por refinados e cirúrgicos engenhos de morte. 

Para que a segurança destas imensas forças não seja abalada enquanto cumprem as suas missões há que relembrar a situação de apronto em que se encontram as forças navais norte-americanas para a Europa e África, designadamente a Sexta Esquadra, que têm quartéis-generais nas regiões italianas de Nápoles e Gaeta; e a Quinta Esquadra, pronta para o que der e vier a partir da sua base no Bahrein.

E porque o mundo é um só, graças à «ordem internacional» – e também imperial – estabelecida sob «a liderança dos Estados Unidos», renasceu na era de Obama a afamada Quarta Esquadra, velho polícia da América Latina com longa e sangrenta história para garantir a «segurança nacional» de sucessivas ditaduras latino-americanas – restauradas agora em formato «benigno» graças aos golpes no Paraguai, regime que obedece a Trump instalando a sua embaixada em Jerusalém, e no Brasil de Temer.

As reactualizações estratégicas do Pentágono anunciadas por cabos de guerra como Richardson e Scaparrotti, e as significativas movimentações bélicas que lhes sucedem desvendam um novo/velho alvo de guerra que cola ainda mais a Administração Trump ao fascismo sionista de Netanyahu, mesmo que o afaste ligeiramente de aliados europeus, um distanciamento que nunca passa, porém, de simples verbalizações sem quaisquer consequências quando chega a hora de disparar os mísseis.

A revogação, por Donald Trump, do acordo com o Irão e a imediata gratidão que o primeiro-ministro de Israel tornou pública revelam que Washington e Telavive atingiram o ponto de sintonia absoluta no projecto de guerra contra Teerão.

Fica escancarado o caminho para a tentativa de consumação de um outro grande objectivo dos fascismos sionista e saudita e do complexo militar e industrial norte-americano: reduzir a pó a influência do Irão no Médio Oriente, de modo a concretizar o novo mapa regional – mesmo que a versão final deste seja ignorada até pelos próprios «cartógrafos.

A integração de uma guerra contra o Irão no processo cada vez mais evidente de criação de «um novo Médio Oriente» implica uma reactualização do tipo de intervenção imperial na Síria, uma vez que o conflito conduzido por Washington, Londres e Paris através de interpostos grupos terroristas não fez o pleno dos objectivos prioritários: desmantelar o país e derrubar o regime em Damasco.

Ao contrário da informação «verídica e transparente» difundida por ocasião dos bombardeamentos terroristas de 14 de Abril, o palácio presidencial foi um dos alvos dessa operação. As forças militares sírias tinham concentrado, porém, muitas das suas capacidades antimíssil na defesa das estruturas do regime, pelo que abateram todos os engenhos com esses destinos.

O esforço, porém, obrigou a desproteger outras instalações e, por isso, os agressores conseguiram destruir o centro de investigação de Barzeh, onde era fabricada a maior parte dos medicamentos genéricos utilizados no país.

A Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) inspeccionara por cinco vezes as instalações desde 2014 e nunca ali detectou um único indício capaz de conduzir à produção de engenhos com essas características.

Os sinais de alteração do tipo de guerra contra a Síria têm-se acumulado nos últimos dias através de bombardeamentos sucessivos contra instalações do exército nacional, provocações protagonizadas por Israel alegadamente para atingir as estruturas iranianas que ajudam a defender a independência síria.

De certa forma pode dizer-se que a guerra contra o Irão já começou em território sírio, podendo a colaboração militar entre os dois países servir de pretexto à ampliação da área regional da agressão estrangeira.

Como se o Império, agraciado dogmaticamente com a «verdade» e arrastando a Europa como apêndice, ainda necessitasse de pretextos quando se trata de garantir a manutenção da ordem internacional «sob a liderança dos Estados Unidos no mundo inteiro».

Foto: Al Drago/Pool / EPA
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