terça-feira, 7 de setembro de 2021

Marrocos e empresas roubam recursos do Saara Ocidental

Filme mostra como empresas contribuem com o roubo de recursos do Saara Ocidental

# Publicado em português do Brasil

"Poder econômico faz as vezes de diplomacia e serve como reforço da ocupação ilegal", diz roteirista Laura Daudén

Daniel Giovanaz | Brasil de Fato | São Paulo (SP) em 20.01.2021

Uma história de traição, roubo e resistência. É assim que a jornalista brasileira Laura Daudén, roteirista e uma das diretoras do documentário Ocupação S.A., se refere ao Saara Ocidental.

O território, no Norte da África, é a última colônia africana, segundo o Comitê Especial de Descolonização das Nações Unidas. Depois de quase cem anos de dominação espanhola, desde 1976 a luta é contra uma ocupação ilegal protagonizada pelo país vizinho, o Reino de Marrocos.

Ocupação S.A. está disponível gratuitamente na internet com legendas em português.

Gravado no segundo semestre de 2020 e lançado em dezembro, o filme de Daudén e Sebastián Ruiz Cabrera explica em detalhes como as riquezas do Saara Ocidental vêm sendo roubadas, sob o patrocínio de empresas multinacionais – que financiam a ocupação ilegal e se beneficiam dela.

Leia também: Relatório lista as empresas que investem na parte ocupada do Saara Ocidental

Muitas dessas empresas estão sediadas na Espanha, onde vive Daudén. De sua casa, ela concedeu entrevista ao Brasil de Fato e ressaltou a relevância do tema.

Traição

A jornalista brasileira afirma que, para compreender a luta dos saaráuis – povo do Saara Ocidental –, é preciso recordar o papel da Espanha durante e após a colonização.

“Primeiro, essa é uma história da traição, em que uma ex-metrópole entrega sua colônia para outros dois países [Marrocos e Mauritânia] de maneira absolutamente ilegal e à revelia dos direitos humanos”, lembra.

Quando deixou de ser metrópole, a Espanha se comprometeu com o processo de autodeterminação dos saaráuis, que deveria se concretizar com um plesbicito mediado pelas Nações Unidas. Até hoje, esse plebiscito nunca ocorreu, e empresas espanholas continuam tirando proveito das riquezas do Saara.

Roubo

Com população de aproximadamente 650 mil pessoas, o Saara Ocidental é rico em fosfato e possui uma das zonas de pesca mais abundantes do planeta. Mas o espólio não se limita a esses recursos: até a areia da praia de Mogán, nas Ilhas Canárias, na Espanha, foi roubada do Saara.

“Hoje, o que se vê é uma proliferação de empresas internacionais, espanholas, europeias, americanas, de todas as partes”, diz Daudén. “Então, o poder econômico capitalista faz as vezes de diplomacia e serve como reforço dessa ocupação", aponta.

Para além dos recursos extraídos sem qualquer compensação, o filme chama atenção para os investimentos internacionais na área ocupada ilegalmente.

A aliança entre o setor privado e o setor público espanhóis, como forma de driblar bloqueios e restrições, fica clara ao longo dos 40 minutos de Ocupação S.A. “A gente imaginava que encontraria esses laços [na produção do filme], mas não em tal nível”, admite a jornalista.

Daudén traça um paralelo “absurdo” com a realidade brasileira, para demonstrar o que está em jogo para os saaráuis.

“É como se o Brasil invadisse e roubasse parte do território argentino, e de repente começasse a colocar fábricas ali, tirar o que está debaixo da terra, sem nenhum tipo de compensação”, ilustra.

“Não há nada na história, em documentos, decisões internacionais, que permita ao Marrocos se utilizar desses recursos naturais. É uma ocupação absolutamente ilegal. Todas as decisões do Tribunal de Justiça da União Europeia reafirmam que o Saara Ocidental não faz parte do Marrocos, e qualquer atividade de exploração econômica está atropelando o direito internacional”, completa a jornalista.

Depois de reunir as informações, a produção do filme entrou em contato com as empresas que financiam a ocupação ilegal e se beneficiam dos recursos roubados. Daudén aponta que houve dois tipos de respostas.

“Certas empresas falavam que não tinham negócios no Saara Ocidental. Foi o caso, por exemplo, do fundo Alantra, que é dono da Unión Martín, uma das empresas que rouba peixe”, descreve. “Ou seja, o capitalismo está tão verticalizado, com todo o processo de fusões e aquisições, que eles não tinham ideia do que estávamos falando”.

“Por outro lado, tínhamos empresas mais preparadas”, acrescenta a jornalista. “Foi o caso da Siemens Gamesa e da Cepsa, que dizem ‘estamos lá, sim, e não tem problema’.

Resistência

Desde 1973, a resistência saaráui é protagonizada pelo movimento de libertação Frente Polisário.

Após 29 anos de cessar-fogo com Marrocos, o movimento declarou o recomeço da guerra em novembro de 2020, após ataques a civis saaráuis que protestavam pacificamente em uma área conhecida como Gurguerat – uma fenda no deserto por onde passam os recursos roubados.

“É impressionante como eles conseguem tornar a esperança um verbo, como disse o Paulo Freire”, enaltece Daudén.

“Depois de tantos anos, eles conseguirem manter um movimento unido, forte, e uma organização coerente com a Constituição da República Árabe Saaráui Democrática até hoje, na região mais inóspita do deserto da Saara, é um dos exemplos mais notáveis de luta e construção política que eu conheci”, finaliza.

Ficha técnica:

Ocupación S.A.
Espanha/Brasil
Documentário - 40’

Direção | Laura Daudén  e Sebastián Ruiz Cabrera
Direção de fotografia | Miguel Angel Herrera
Assistente de câmera | Sebastián Ruiz Cabrera
Roteiro | Laura Daudén
Produção | Sebastián Ruiz Cabrera, Laura Daudén e João Paulo Brito
Pesquisa | Laura Daudén, Gemma Solés i Coll e Sebastián Ruiz Cabrera
Comunicação | Gemma Solés i Coll
Pesquisa de arquivo | João Paulo Brito e Jalil Abdelaziz 
Edição | Miguel Angel Herrera

Coordenador de pós-produção | Miguel Angel Herrera
Assistente de Câmera | Sebastián Ruiz Cabrera
Ilustração e Motion Design | Anelize Ceribelli e Renato Pereira de Sousa
Design de som | Fabio Sung
Colorização | Daniel Lopes

Produção em El Aaiun | Equipe Media y Nushatta Foundation
Produção em Tindouf | Moulud Salem Hamdi

​Transcrição | Ana Maria Hererra Becerra e Anais González 
Tradução | Bachir Mohamed Lahsen, Neema Mohamed Lamin, Malainin Lakhal, Arlette Afagbegee, Andrea Gago Menor,  Alicia Rocha Novoa e Begoña Jiménez
Trilha sonora | Jingle Punks Music y Audio Network
Apresentação e narração | Suilma Aali

Edição: Leandro Melito

Imagens: 1 - Muro de 2,7 mil km construído por Marrocos em 1980 divide o Saara Ocidental de norte a sul - Stringer / AFP; Mulheres saaráuis têm papel preponderante nas lutas por autodeterminação / Farouk Batiche / AFP

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