quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

“OPERAÇÃO CARLOTA III” – III – CUBA PARA A CPLP!



Martinho Júnior, Luanda

1 – A luta de libertação das nações que emergiram da rota dos escravos não se limita aos resgates já consumados pela via da luta contra o colonialismo, contra o “apartheid” e contra algumas das suas sequelas.

Em todas as antigas colónias portuguesas o espectro do subdesenvolvimento crónico tem seus prolongados reflexos nas sociedades nacionais e isso reflecte-se no muito que há a realizar com o homem e para o homem, com linhas de acção prioritárias que apontam para o futuro, a muito longo prazo.

Aqueles indivíduos africanos naturais dessas colónias que conseguiram alcançar naquele tempo o ensino superior eram uma minoria inexpressiva em relação à estatística de população jovem da altura e foi o reconhecimento do seu estatuto, por parte desses privilegiados, que garantiu sobremaneira o manancial humano que deu início ao moderno movimento de libertação, sentido aliás em tempos distintos não só em África mas também na América Latina, a partir da revolução que havia levado da revolta dos escravos à independência do Haiti, declarada a 1 de Janeiro de 1804 (veja-se “O Haiti e a maldição branca”, de Eduardo Galeano - http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=123106&id_secao=7)!

A “Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas” (CONCP) foi na época da luta de libertação contra o colonialismo português uma organização que aglutinava todos os que em África se entregaram de corpo e alma a esse projecto, na Guiné Bissau e em Cabo Verde (PAIGC), em São Tomé e Príncipe (MPLSTP), em Angola (MPLA) e em Moçambique (FRELIMO), um projecto que teve uma imediata e incondicional aliança: Cuba, seguindo a trilha do Che em África, a partir de 1965!

Sintomaticamente todos os componentes conformavam algumas das nações que emergiram também da antiga rota dos escravos, Cuba incluída!

2 – Em 2011 os países da CPLP comemoraram os 50 anos da CONCP e os 55 da fundação do MPLA!

O actual Secretário Executivo da CPLP, Engenheiro Domingos Simões Pereira lembrou na altura o campo de acção da organização que é de certo modo herdeira da CONCP, em entrevista difundida pela Fundação Agostinho Neto (http://www.agostinhoneto.org/index.php?option=com_content&view=article&id=798:entrevista-a-domingos-simoes-pereira-secretario-executivo-da-cplp&catid=37:noticias&Itemid=206):

… “A CPLP propõe-se a intervir em áreas que vão desde a justiça, educação, forças armadas, ambiente, migração, passando pela agricultura e segurança alimentar. Como se articulam as mesmas à escala global, por exemplo com os Objectivos do Milénio?

No nosso trabalho três eixos são prioritários: a promoção da língua, concertação política-diplomática – tentamos que a intervenção a nível internacional seja a mais coordenada possível, em questões de votação e eleição para darmos mais relevância ao nosso espaço; e a cooperação, que começou a passos pequenos e hoje tem grande dinâmica, em todos os sectores de intervenção pública dos nossos Estados, traduz-se em áreas de intervenção multilateral.

Como trabalhar no sentido de uma cooperação multilateral (em muitos casos ainda só bilateral), e fortalecer a acção colectiva que está na base da CPLP?

Na CPLP cada país vota e só se chega a uma decisão quando há consenso. Mas é verdade que temos disparidades muito grandes no poderio económico e na capacidade de levar adiante esses programas. A partir do momento em que há uma decisão, tambem há uma delegação de competência, que permite a alguns desenvolver em nome de todos. Por exemplo, tentamos coordenar a educação, organizar encontros a diferentes níveis: técnicos, sociedade civil e outros, em que todos os países possam partilhar as suas experiências, desafios, estratégias. Nessa partilha, tentamos identificar objectivos que podem ser desenvolvidos em programas conjuntamente.

Por exemplo, a tecnologia na educação e na saúde, pode ser utilizada em rede nesses programas comuns?

É mais visível na área da saúde, na segurança social e no trabalho. Há elementos muito concretos que vão permitindo a partilha de conteúdos. O nosso plano estratégico de cooperação para a saúde já tem um espaço físico em Bissau para receber técnicos, uma rede da CPLP que é constituída pelos organismos de saúde pública de cada país. Também a nível da educação estamos a tratar”…

De 6 a 8 de Dezembro de 2011, o MPLA ao organizar o Iº Colóquio Internacional sobre a história do MPLA, reuniu muitos militantes do movimento de libertação em África, assim como instituições e individualidades de referência que deram a sua contribuição à luta.

Joaquim Chissano da FRELIMO logo no início, na intervenção que abriu o Colóquio, recordou em relação ao potencial libertário à nascença da CONCP, (http://mercosulcplp.blogspot.com/2011/12/libertacao-da-africa-austral-foi.html):

“A Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), de que o angolano Mário Pinto de Andrade foi o primeiro presidente e o moçambicano Marcelino dos Santos primeiro-secretário, foi o espaço privilegiado de concertação sobre estratégias de luta nas antigas colónias de Portugal.

Jovens estudantes que eram, na altura, conseguiram congregar um conjunto de intelectuais nacionalistas que se propuseram assumir a sua condição de colonizado e encetar um processo político reivindicativo da independência dos seus países”…

Nesse mesmo Colóquio esteve presente Jorge Risquet Valdez, o Comandante da 2ª coluna do Che instalada em Brazzaville, que enfatizou o papel da revolução cubana em África ao lado da CONCP, sobretudo ao lado do MPLA e do PAIGC (na Guiné Bissau); veja-se a propósito dessa intervenção a síntese da ANGOP – http://www.portalangop.co.ao/motix/pt_pt/noticias/politica/2011/11/49/Destacada-trajectoria-dos-cubanos-Luta-Libertacao-Angola,b2e09af6-030d-4506-a5c2-4eb5f15e4bdd.html

Desde 1965 que Cuba interligou o seu destino histórico aos países CONCP, mais tarde CPLP, derramando sangue ao lado dos combatentes africanos sobretudo em Angola, mas também junto a Amílcar Cabral, na Guiné Bissau; esteve também apoiando com os seus destacamentos médicos, cuja história se prolongou até nossos dias.

3 – Os relacionamentos bilaterais de Cuba não se fazem sentir apenas no que toca aos componentes do então CONCP (e actuais membros africanos da CPLP).

Os laços com o Brasil são cada vez mais estreitos e avançados, reflectindo-se em múltiplos sectores de actividade e na presença comum em socorro do Haiti!

Qualquer uma dessas nações, Brasil, Cuba e Haiti, sentiram no passado as conjunturas de uma das primeiras globalizações que incluía o tráfico de escravos no jogo do comércio triangular.

Com o Brasil as relações de Cuba tornam-se cada vez mais extensivas (http://pt.cubadebate.cu/noticias/2012/01/31/presidenta-viaja-havana-para-incrementar-relacoes-economicas-entre-brasil-e-cuba/); a proficuidade dos relacionamentos do Brasil com Cuba está também a reflectir-se no Haiti (http://paginaglobal.blogspot.com/2012/02/brasil-assina-acordos-com-cuba-e-haiti.html).

Os laços de Cuba com Portugal após o 25 de Abril de 1974 são também excelentes: para além dos que se prendem aos dois estados destaca-se a existência da “Associação de Amizade Portugal – Cuba” (http://aapc.com.sapo.pt/), o facto de existirem fluxos turísticos importantes entre Portugal e Cuba e o facto de Cuba, em 2009, ter correspondido às necessidades dos portugueses, enviando um contingente de 42 médicos para diversas regiões do país (http://www.alentejopopular.pt/paginas.asp?Eid=306&Pid=1&Nid=2573).

Estando Portugal a viver o impacto das crises de capitalismo neo liberal com amplas repercussões nos substratos mais vulneráveis de sua sociedade, a tendência para um incremento dos laços com Cuba ampliam-se, pois muitas necessidades de Portugal poderão merecer uma atenção mais dedicada ainda por parte dos cubanos.

Os laços de Cuba com Timor Leste são também excelentes, implicando visitas de estado e um esforço comum sobretudo nos campos da saúde e da educação (http://www.granma.cu/portugues/cuba-p/3-diciembre-presidente.html ):

… “Especialistas cubanos contribuíram à alfabetização de uns 46.000 timorenses com o método Yo, sí puedo, e na Escola Latino-americana de Medicina se formam uns 600 jovens. Ainda, 219 médicos cubanos oferecem seus serviços na irmã nação”.

4. Há pois todas as condições históricas, culturais e humanas para, tirando partido dos seus relacionamentos bilaterais privilegiados, voltados com toda a prioridade para as questões humanas, de Cuba vir a pertencer pelo seu imenso mérito à CPLP, bastando alguém ousar lançar a pequena chama para essa iniciativa.

Ouso-o eu, na minha insignificância de cidadão do mundo que possui os olhos e os sentimentos de África, também por que percebo que a CPLP detém elementos demasiado conservadores nos seus conceitos estratégicos, tão conservadores que se tornaram aliciantes à pretensão de Marrocos, lembre-se um Marrocos que não resolveu o contencioso colonial para com o Sahara, de entrar na organização como observador (http://paginaglobal.blogspot.com/2012/02/mne-marroquino-certo-da-aceitacao-de.html)!

A entrada de Cuba na CPLP, mesmo que preencha um largo período como observador, seria pois uma enorme lufada de ar fresco, uma quase sublimação naquela Organização e sobretudo o corolário também da “Operação Carlota” dos momentos mais decisivos das nações modernas que se ergueram do chão histórico da antiga rota dos escravos.

Se os estados não reagem, creio que pela leitura que faço, o interesse dos povos exige!!!

Gravura: nova humanidade

* Martinho Júnior pertence ao coletivo de Página Global/Fábrica dos Blogues, foi colunista do semanário Actual, de Luanda, falido no último trimestre de 2004. Reproduzido no Informação Alternativa e em outras publicações. Para breve a publicação de um livro. Antigo combatente do MPLA na luta pelo resgate do colonialismo, do “apartheid” e das suas sequelas. Identificado com o povo angolano, mantendo um ponto de vista histórica e sociologicamente à esquerda do actual espectro político angolano. A vocação para a escrita redunda dessa identificação, tendo começado a publicar na última década do século passado.

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1 comentário:

mrvadaz disse...

Por isso digo que a CPLP vai muito mais além dos acordos assinados pelos ministros.