domingo, 10 de janeiro de 2016

OS ANGOLANOS ENTRE O PRECIPÍCIO ECONÓMICO E AS ARMAS



Leston Bandeira – África Monitor, opinião

A situação social e política de Angola aproxima-se rapidamente da incerteza e de acontecimentos até há bem pouco tempo inesperados. O precipício económico que se abre aos olhos da maioria dos angolanos está a provocar a estupefacção, sobretudo entre os que até agora dispunham do suficiente para fazer uma vida normal, embora não pertencendo às classes endinheiradas.

Em menos de um ano, o pais é outro. O aumento dos combustíveis teve uma escalada insustentável no princípio de 2016: o gasóleo aumentou 80% e a gasolina 40%; o kwanza desvalorizou em mais de 50 por cento e todos os dias cai no mercado paralelo, na troca por dólar, um pouco à semelhança dos anos oitenta.

Com o desmembramento dos sistemas de abastecimento, com o desemprego galopante, sem alternativas económicas que substituam o petróleo, a situação de Angola aproxima-se muito de outras vividas em países africanos, outrora ricos e aparentemente num caminho de prosperidade contínua. E em países árabes, cujas populações aspiraram a outros modos de vida e a outras formas de distribuição das riquezas existentes.

Mas há grupos de pessoas para quem isto não faz nenhuma diferença. Há mesmo gente que vai, de um momento para o outro, desaparecer. Vai passar férias num paraíso qualquer para não ter que ver e sentir o que se vai passar. Esses são os que ao longo dos longos anos de Independência foram construindo as suas próprias fortunas, lutando arduamente para colher os favores de quem foi governando os excessos da monocultura nacional: o petróleo.

Vão deixar para trás as greves prometidas dos taxistas, as manifestações populares contra o aumento do gás, do petrólo de iluminação dos bens essenciais para o dia a dia. Não querem sentir que, por todo o país, o povo vai voltar a ter medo. Medo, desta vez, dos seus.

Em Angola, chegada a hora, o Exército vai sair à rua para proteger quem não sentiu os aumentos e a desvalorização da moeda, quem não sentiu faltas de abastecimento em casa ou quem deixou a bom recato os carros de alta cilindrada e as grandes casas protegidas por armas que já podem ser chinesas. E o Povo de Angola, que está a sentir a penúria da falta de petróleo também está com medo. E a situação vai apodrecer.

Com o aparecimento de divisões, encabeçadas por quem espera a oportunidade para criar o seu pequeno ou grande reino, a ausência total de valores autênticos de amor à terra, de orgulho pelo Estado nascido e criado numa luta nem sempre limpa, substituídos pelo deus do consumo, do exibicionismo, da convicção da indispensabilidade, da autosuficiência, o povo vai correr atrás de quem garantir segurança e comida para a família.

Todas as promessas, todavia, tombarão perante o verdadeiro poder de quem terá as armas na mão. Angola, eventualmente, voltará a ser uma terra de medo e de ódios, atrasando-se no tempo e perdendo o futuro risonho que ainda há pouco tempo se lhe adivinhava.

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